Avanços e desafios na educação híbrida

 José Moran

 Educador, pesquisador e designer de ecossistemas inovadores na Educação

Blog Educação Transformadora

 

Introdução

Venho acompanhando, vivenciando e pesquisando nestes últimos trinta anos a riqueza de propostas e possibilidades de mesclar espaços, atividades, tempos com presença física e digital, de forma síncrona e assíncrona. Nos últimos anos e, especialmente, neste longo período de confinamento, avançamos muito na percepção e experimentação de que podemos ensinar e aprender de forma muito mais flexível, personalizada, humanizada e colaborativa, combinando e integrando diversos espaços, tempos, metodologias e maneiras de avaliar.

Apesar das muitas contradições, carências e profunda desigualdade econômica, tecnológica e educacional, está havendo um crescimento consistente de projetos pedagógicos interessantes, flexíveis, ativos, com foco no desenvolvimento de competências e valores.

Percebemos que muitas das atividades que imaginávamos que só seriam viáveis no presencial (como a aprendizagem por projetos, em times) podem ser realizadas com bastante qualidade no online, principalmente com crianças maiores, jovens e adultos. A separação entre espaços físicos presenciais e digitais será cada vez menor, assim como acontece com as outras áreas da nossa vida e há um crescente consenso de que veremos, a partir de agora, muitas propostas diferentes de ensinar e de aprender, mais personalizadas e participativas, de acordo com a situação, necessidades e possibilidades de cada aprendiz. Num período tão desafiador como que vivemos atualmente, com empobrecimento, desemprego e tantos problemas por resolver, podemos aproveitar a crise como uma oportunidade para avançar em propostas que tragam valor para os estudantes a um custo acessível: a educação híbrida é um dos caminhos.

Educação ativa híbrida

O ensino híbrido é uma modalidade pedagógica que mistura possibilidades de combinar atividades em sala de aula com atividades em espaços digitais para oferecer as melhores experiências de aprendizagem à cada estudante. No Ensino Híbrido o foco está mais na ação dos docentes. O conceito de Educação híbrida é mais abrangente, porque olha para as combinações possíveis de todos os envolvidos no processo de ensino e de aprendizagem (visão ecossistêmica do híbrido). Hoje podemos redesenhar as melhores combinações possíveis na integração de espaços, tempos, metodologias, tutoria para oferecer as melhores experiências de aprendizagem à cada estudante de acordo com suas necessidades e possibilidades.

Na educação acontecem vários tipos de mistura, blended ou educação híbrida: de saberes e valores, quando integramos várias áreas de conhecimento (no modelo disciplinar ou não); mistura de metodologias, com desafios, atividades, projetos, games, grupais e individuais, colaborativos e personalizados. Também falamos de tecnologias híbridas, cada vez mais “inteligentes”, que integram as atividades da sala de aula com as digitais, as presenciais com as virtuais. Híbrido também pode sinalizar um currículo mais flexível, que planeje o que é básico e fundamental para todos e que permita, ao mesmo tempo, caminhos personalizados para atender às necessidades de cada aluno. Híbrido também abrange a articulação de processos mais formais de ensino e aprendizagem com os informais, de educação aberta e em rede. Híbrido implica em misturar e integrar áreas diferentes, profissionais diferentes e alunos diferentes, em espaços e tempos diferentes.

Mesclar e flexibilizar são conceitos-chave para dar conta dos desafios atuais: Podemos sair de propostas fechadas para outras mais abertas, os tempos iguais para os tempos combinados, os itinerários iguais para os personalizados e também intensamente participativos, dentro de espaços escolares, de espaços digitais e espaços profissionais. Híbrido implica em repensar o currículo rígido, as metodologias ativas, a adaptação e diversificação dos espaços, o uso intensivo de tecnologias digitais, a melhoria da avaliação.

Com o avanço das plataformas digitais e a facilidade de ver-nos de forma síncrona, as possibilidades de combinação, integração e personalização se ampliaram de forma muito diversificada e intensa. Podemos pensar em modelos ativos predominantemente presenciais, em modelos ativos parcialmente presenciais e digitais, e modelos ativos de ensino e aprendizagem totalmente online, dependendo das necessidades específicas dos estudantes (crianças, jovens, adultos), das competências a serem trabalhadas em cada etapa e área de conhecimento e do grau de maturidade e autonomia de cada um.

As arquiteturas pedagógicas serão mais flexíveis, abertas, híbridas, personalizadas, ativas e colaborativas, com diferentes combinações, arranjos, adaptações num país com realidades muito desiguais. Estamos começando a sair do modelo mental de identificar aprendizagem com um professor e 40 alunos em uma sala presencial. O ideal é o equilíbrio entre a personalização (mais escolhas do aluno, mais autonomia) com a aprendizagem colaborativa (aprendizagem ativa, entre pares, por projetos), a tutoria/mentoria, avaliação formativa, oferecendo as melhores condições de aprendizagem em tempo real (sala de aula, plataformas online, espaços profissionais) e de forma assíncrona (com itinerários e atividades mais individualizados).

Esse conceito do híbrido evoluiu bastante nos últimos tempos pela expertise adquirida com a ida forçada para o digital. Aumentou a consciência de que as misturas podem ser muito mais amplas: Espaços, tempos, metodologias ativas, formas de avaliar. Não faz muito sentido dar aulas expositivas nos encontros presenciais do modelo híbrido, pois a parte expositiva pode ser planejada melhor no online (onde cada um acessa os materiais no seu tempo e quantas vezes quiser). Podemos também no espaço digital estimular a pesquisa, desenvolver projetos de forma assíncrona e síncrona, discutir casos, compartilhar experiências. Muitas das atividades que imaginávamos que só seriam viáveis no presencial podem ser realizadas com bastante qualidade no online, principalmente com crianças maiores, jovens e adultos.  Mas o presencial ainda é insuperável para um contato mais amplo, para práticas mais reais e imersivas, para áreas de criação coletiva como teatro, dança e principalmente para desenvolver vínculos. Mesmo elas podem ser integradas e combinadas com experimentações em ambientes virtuais imersivos. O avanço e domínio das tecnologias neste período longo de ida para o digital nos fez experimentar possibilidades que antes pareciam pouco relevantes.

Os modelos híbridos se combinam, se integram e ganham relevância com o foco na aprendizagem ativa dos estudantes. As metodologias ativas envolvem um percurso metodológico que possibilita a ação do estudante envolvendo-o na aprendizagem por descoberta, por investigação, por resolução de problemas e por projetos. As metodologias ativas procuram criar situações de aprendizagem nas quais os aprendizes possam fazer coisas, pensar e conceituar o que fazem, construir conhecimentos sobre os conteúdos envolvidos nas atividades, bem como desenvolver a capacidade crítica, refletir sobre as práticas que realizam, fornecer e receber feedback, aprender a interagir com colegas e professor, e explorar atitudes e valores pessoais.

Os modelos híbridos favorecem uma combinação ideal entre personalização, colaboração e tutoria/mentoria. Uma parte do percurso pode ser feita pelo estudante, dentro do seu ritmo e circunstâncias, o que implica em calibrar e acompanhar essas atividades para que todos se envolvam e cheguem aonde professores e escolas planejaram. Outra parte do percurso é feito em grupos e classes, é mais colaborativo e supervisionado diretamente pelos docentes. Este percurso tanto pode acontecer na sala de aula física, na digital ou em ambos os espaços simultaneamente ou de forma assíncrona. O percurso se completa através da mediação, tutoria e mentoria do docente, com alguém que faz grandes perguntas, orienta e ajuda a tornar visível a aprendizagem e o desenvolvimento de competências no percurso.

Um dos benefícios é a possibilidade do docente dedicar mais tempo às dúvidas e ao acompanhamento mais próximo e individual dos alunos na aprendizagem. Com o apoio da tecnologia, o professor também consegue visualizar, coletar e analisar dados sobre as aprendizagens dos alunos de forma mais simples e precisa. 

 Isso pressupõe ter uma boa plataforma digital com inteligência para fornecer análises de dados relevantes e atualizados para docentes, estudantes, gestores e pais. Tudo isto traz uma série de desafios novos para docentes, discentes, para as escolas e famílias.

Modelos híbridos integrados na Educação Básica

Na Educação Básica os modelos continuarão sendo de maior predominância do encontro em espaços comuns (salas de aula enriquecidas com tecnologias) com diversas formas de integração entre o presencial e o digital, que vem sendo testadas principalmente a partir das publicações do Horn & Staker, 2015[1] : aula invertida, rotação por estações, rotação individual.  e que incluirão alguns modelos mais personalizados e online, como os modelos flex (roteiros personalizados online com o professor por perto), a la carte (fazer um, ou mais módulos online) ou virtual enriquecido (parte presencial, parte online). A hibridização será progressiva, de acordo com a idade e o avanço do estudante no currículo.

Avançaremos na oferta de diferentes modelos híbridos integrados:

Modelos híbridos predominantemente presenciais

Parte das atividades em espaços físicos e parte em espaços digitais-online, com combinações diferentes dependendo da idade dos estudantes, da autonomia do estudante e da flexibilidade do currículo. As atividades digitais podem acontecer dentro do espaço da escola ou fora dele; de forma alternada ou simultânea; síncrona ou assíncrona (em situações em que professores e alunos trabalham juntos num horário pré-definido, ou em horários mais flexíveis; cada estudante no seu ritmo com tempos em que todos estão juntos com o professor).

·       O modelo mais praticado é o da aula invertida, que combina a aprendizagem presencial com a digital para obter uma maior eficiência.  Os alunos estudam os materiais individualmente online antes (em casa ou na escola) e os discutem, aprofundam e aplicam em grupos e coletivamente na sala de aula. Os momentos presenciais podem ser para realizar atividades diferentes, de discussão, elaboração de projetos, aprofundamento de conteúdo e dúvidas. Uma combinação bastante utilizada na educação básica é a aula invertida combinada com atividades em grupos (rotação por estações) ou atividades em times.  Esse modelo foi adaptado durante a pandemia para o ensino online, combinando atividades pedagógicas assíncronas (de preparação individual) com as síncronas (atividades mediadas pelo docente e com participação dos estudantes). Comprovamos nestes últimos meses que podemos realizar também no online muitas das atividades que até então só vivenciávamos na sala de aula: podemos desenhar projetos de design thinking, trabalhar em times, realizar debates online através de plataformas que antes não se destacavam tanto pelas atividades participativas síncronas.

 

O modelo híbrido parcial pode começar no ensino fundamental e ir evoluindo no ensino médio e ser plenamente implementado de forma mais flexível no ensino superior.  Há uma diversidade de combinações possíveis: Leituras, pesquisas e atividades individuais assíncronas e/ou em grupo (aula invertida) integradas com projetos, rodas de conversa, atividades em times em sala de aula presencial e/ou laboratório.

       Modelos de integração síncrona, com várias combinações: parte da classe em sala de aula + parte em encontros síncronos. Serão bastante comuns na saída da pandemia e já vem sendo utilizados no ensino superior para permitir flexibilidade de atender a estudantes que trabalham ou moram em lugares distantes do campus. A partir de agora esses modelos serão mais adotados, ao combinar a personalização com a flexibilidade de tempo e lugar.  

Currículo mais híbrido

       Módulos online com momentos específicos de presencialidade física (Virtual enriquecido ou aprimorado)

Nesse modelo, os estudantes realizam os estudos sobre todos os componentes curriculares no formato online, e frequentam a escola para sessões presenciais com um ou mais professores, uma ou mais vezes por semana. É um formato que se combina com a Aula invertida.  As propostas online podem acontecer por meio de vídeos para explicação de conceitos, textos para leitura, pesquisas individuais em grupo, projetos desenvolvidos individualmente ou em pequenos grupos online, com produções previstas (quizzes, relatórios, projetos, narrativas online, e portfólios) que vão mostrando o avanço de cada um, geram engajamento e dão subsídios ao docente para o desenho das atividades presenciais. Os encontros presenciais são para aprofundar os conceitos previamente estudados, para dúvidas, debates, aplicações práticas, tutoria mais personalizada e para encaminhar as próximas etapas.

  • Módulos totalmente online (à la carte)

No modelo à la carte, de acordo com a definição dos autores (Horn e Staker, 2015), a aprendizagem de algumas disciplinas ou módulos é feita no modelo online, com ênfase na aprendizagem ativa e tutorial.

Esse modelo poderia ser introduzido, por exemplo, no Novo Currículo do Ensino Médio, principalmente para personalizar os itinerários formativos. No Ensino Superior os modelos híbridos podem partir destes modelos mostrados na educação básica e avançar para maior flexibilidade, personalização e integração, de acordo com cada área de conhecimento.

 

Educação flexível no Ensino Superior

No Ensino Superior e na Educação continuada há uma clara consciência da necessidade de tornar os modelos mais flexíveis, personalizados, com maior vínculo com o mundo real, do trabalho, do empreendedorismo. A longa permanência só no online trouxe questões que antes permaneciam menos evidentes: O que é insubstituível no presencial e o que pode realizar-se com qualidade no online? o que, como e até onde o aluno pode aprender ativamente sozinho? Quando e como trabalhar em times, em projetos de curta e longa duração, em projetos complexos, inter ou transdisciplinares? Como integrar a aprendizagem mais acadêmica com a profissional em todas as áreas de conhecimento e com a maior flexibilidade possível? A complexidade da docência pessoal e compartilhada: professores como designers de experiências relevantes, gestores de pessoas, tutores/mentores com amplo domínio das competências digitais?

 No Ensino Superior é onde encontraremos os maiores avanços nos modelos híbridos e simultaneamente também propostas de baixa qualidade. Os cursos presenciais cada vez mais se tornarão híbridos e haverá uma sinergia e integração também os cursos online (os até agora chamados cursos a distância). Haverá um avanço na personalização (atendimento a demandas e necessidades diferentes). Todas as disciplinas ou módulos podem ser parcialmente ou totalmente online, com metodologias ativas, tempos e atividades assíncronos e síncronos, com grande flexibilidade e adaptação às necessidades de cada área de conhecimento, dos estudantes e da instituição. O currículo híbrido será o modelo predominante no Ensino Superior.

Teremos os modelos híbridos mais básicos, mais roteirizados, com aula invertida, atividades mais previsíveis, apoio de professores/tutores presenciais e outros modelos mais avançados, personalizados e colaborativos, com mais escolhas dos estudantes. Nos cursos online também teremos modelos equivalentes, mais básicos e avançados, com propostas semelhantes aos híbridos, que permitem que os estudantes possam combinar os híbridos com os totalmente online, de acordo com suas necessidades específicas[2].

Predominarão a Aula Invertida, os modelos híbridos que integram parte do currículo online e parte presencial (adaptado às necessidades de cada área de conhecimento).  Destaco duas dimensões de avanços mais específicos:

       Modelos ativos online. Houve um avanço notável com a pandemia na percepção de que o online pode ser muito mais híbrido, combinando os modelos assíncronos, que sempre predominaram com a riqueza de interações que as plataformas síncronas nos oferecem atualmente. Podemos aprender em qualquer lugar, a qualquer hora, de forma personalizada e colaborativa, sem a presencialidade física, para a maior parte das áreas de conhecimento.

       Modelos flexíveis profissionais: aulas presenciais/online + atividades profissionais realizadas em empresas parceiras das intuições educacionais (modelos híbridos duais). São modelos de grande tradição em países como a Alemanha e a Dinamarca (entre outros) e que podem combinar o melhor do híbrido (presencial-online) com a inserção profissional e que devem crescer bastante no país, seguindo os passos da Uniamérica de Foz de Iguaçu[3]

 

Benefícios e desafios da educação ativa híbrida

A educação híbrida ativa traz importantes benefícios e desafios para os estudantes, porque eles têm acesso personalizado aos conteúdos, materiais, pesquisas e desafios a qualquer hora, por qualquer aparelho e no ritmo desejado. Desenvolvem também maior autonomia pela possibilidade de escolher percursos mais adaptados às suas necessidades e expectativas. Ao mesmo tempo desenvolvem as competências comunicacionais e avaliativas pela riqueza e diversidade de atividades e projetos com diferentes grupos dentro e fora do espaço escolar, nos espaços presenciais e digitais, em momentos síncronos e assíncronos.

Pesquisadores como Borup e Walters confirmam a visão positiva dos estudantes do ensino médio sobre os modelos híbridos em que puderam interagir e aprender com seus colegas no ambiente virtual. Um dos benefícios relatados pelos estudantes é o apoio entre eles mesmos  para compreender melhor o material e realizar as atividades, antes de falar com o professor. Outro benefício foi a motivação dos estudantes através do incentivo mútuo, dando-se apoio, confiança para que os que se sentiam inseguros, o que os levava a aprimorar seus trabalhos antes de apresentá-los aos demais colegas e ao professor[4].

Uma outra vantagem relatada pelos estudantes é a colaboração entre os pares, ajudando-se no desenvolvimento de projetos, em modelos mais complexos como o virtual aprimorado ou o flex, que exigem maior participação em todos os momentos, tanto nos de autoestudo como nos momentos presenciais.

Escolas e IES estão se transformando também digitalmente. O digital é um ambiente essencial para integrar todas as áreas, pessoas e serviços e poder oferecer experiências ricas e diferenciadas de aprendizagem, pesquisa, parcerias. São multiplataformas com inteligência artificial que integram todos os setores, atividades, participantes, onde tudo fica visível, fácil de interagir, de prever, de avaliar. Isso abre inúmeras possibilidades de parcerias, de novos produtos, de novos mercados, atendendo a todo tipo de pessoas ao longo da vida.

O ensino híbrido traz alguns desafios para os docentes. Os papéis se ampliam e modificam bastante, porque todo o processo de ensinar e de aprender é mais flexível e está mais centrado nos estudantes. Os professores concentram sua energia no desenho de atividades significativas, (designers) para o desenvolvimento de competências; na curadoria de materiais significativos; na tutoria e acompanhamento individual, dos diferentes grupos e da classe nos espaços presenciais e digitais, síncronos e assíncronos e na ampliação das formas de avaliação dos estudantes. Esse planejamento é mais complexo se vários docentes desenham, acompanham e avaliam, juntos, projetos e atividades integradores de diversas áreas de conhecimento (projetos STEAM, por exemplo). Outro papel docente que ganha cada vez mais relevância é o de mentor de projetos pessoais, profissionais e de vida dos estudantes.

Muitos docentes também não se encontram em condições profissionais ideais para planejar e desenvolver modelos híbridos interessantes: trabalham em mais de uma escola ou sistema de ensino, dão muitas classes, tem muitos alunos e isso dificulta sobremaneira a realização de um bom trabalho. Sem condições objetivas, é heroico pedir que os docentes sejam inovadores.

Os modelos híbridos precisam ser planejados levando em consideração a diversidade de condições de acesso muito diferentes de cada estudante fora da escola. Em muitas instituições educacionais, os docentes precisam planejar atividades para os que têm acesso regular ao digital, para os que têm acesso parcial e para os que dificilmente têm ou não têm acesso ao digital. Isto implica desenhar, a partir do conhecimento da situação de cada estudante, roteiros que mantenham o essencial: a aprendizagem ativa em contextos híbridos diferentes para níveis de acesso diferentes.

O planejamento torna-se mais complexo porque as condições dos estudantes não são iguais, tanto em acesso como em domínio pedagógico e digital. O docente planeja o antes (preparação do estudante, o que cada um consegue avançar), o durante (momentos síncronos: atividades em grupo e com a classe presenciais e/ou digitais síncronas) e o pós (aplicação, conclusão, avaliação), atendendo a diversas possibilidades e realidades. O planejamento é também diversificado, com repertório de estratégias diferentes e também de aplicativos para cada etapa. O planejamento, o desenvolvimento e a avaliação são abertos para poder incorporar e dialogar com as diferenças propostas e situações pessoais, grupais e de classes nos diversos tipos de encontros, plataformas, redes sociais. Os modelos híbridos pressupõem um acesso dos estudantes de lugares diferentes. Isto ainda está longe de ser viável para a maioria, em pouco tempo. São muitos os gargalos econômicos e tecnológicos. Teremos para uma parte da população realmente modelos híbridos com ótimas condições de implementação e para a grande maioria, modelos híbridos deficientes, com pouca interação síncrona e muito mais focados em atividades assíncronas.

Outros desafios do híbrido: mudar a cultura tradicional do docente (transmissor) e do aluno (que obedece) para um modelo ativo mais participativo.  É um processo mais complexo, que exige mais tempo e dedicação ao planejamento ativo (online-offline), ao acompanhamento personalizado e à avaliação mais participativa. Outro grande desafio é a precariedade da infraestrutura (acesso, equipamentos) em muitas escolas e residências e a fragilidade no desenvolvimento das competências digitais de uma parte dos docentes, discentes e também das famílias. Essa desigualdade inviabiliza que tenhamos projetos de educação híbrida em larga escola para a maioria dos estudantes, que são pobres e não tem condições objetivas de estudar remotamente em casa. Por enquanto os modelos híbridos contemplam uma parte da população, que tem melhores condições econômicas, acesso tecnológico e domínio digital mais desenvolvidos.

Num período de crise tão prolongada vemos que uma parte das instituições, infelizmente, utilizam o híbrido de uma forma bastante precária e pouco atraente: Desenham um modelo básico, muito conteudista, com um número excessivo de alunos para cada professor. E também permitem a entrada de estudantes em qualquer momento do ano letivo, sem o devido acompanhamento e avaliação.

Muitas escolas se encontram em um estágio inicial na utilização dos modelos híbridos e das metodologias ativas: só de forma pontual, isolada, dependendo da iniciativa de alguns docentes e gestores, sem uma discussão mais institucional. Outras escolas avançam de forma um pouco mais articulada, com grupos de docentes desenvolvendo projetos integrados, aula invertida e um maior avanço do uso de plataformas e recursos digitais no presencial e no online. Um terceiro grupo redesenha a escola de forma inovadora, onde o híbrido é pensado para apoiar um currículo que é organizado por projetos e competências, em espaços e tempos flexíveis.

Os modelos ativos híbridos e totalmente online fazem mais sentido quando são organizados com políticas públicas sólidas, coerentes e com visão de longo prazo, (o que não vemos atualmente). Eles fazem mais sentido quando estão planejados institucionalmente e de forma sistêmica, como componentes importantes de reorganização do currículo por competências e projetos, de forma flexível, com diversas combinações de acordo com as necessidades do estudante (personalização), intenso trabalho ativo em equipes, tutoria/mentoria (projeto de vida) com suporte de multiplataformas digitais integradas.

 

Conclusão

Os modelos híbridos com metodologias ativas estão em um movimento ascendente, com várias combinações e desenhos didáticos e impactarão profundamente a educação em todos os níveis nos próximos anos.

Há condições estruturais que dificultam a mudança e que são essenciais para uma transformação mais consistente, sistemática na educação do país: políticas públicas coerentes, integradas e com visão de longo prazo; docentes e gestores mais valorizados, capacitados, criativos, empreendedores e humanos (entre tantos outros fatores). Podemos avançar mais aceleradamente no redesenho de projetos educacionais que sejam flexíveis, de qualidade, de custo menor e de resultados mais rápidos e ágeis. As escolas (básicas e superiores) precisam trabalhar em dois planos, o de curto e o de médio prazo. Há mudanças que são mais facilmente implementáveis em um ou dois anos, enquanto outras precisam ser cuidadosamente preparadas para serem bem-sucedidas, evitando possíveis retrocessos e reviravoltas. Ao mesmo tempo que fazemos as mudanças possíveis agora, neste período de transição, é importante definir um projeto estratégico de transformação no médio prazo das escolas e instituições de ensino superior para que realmente sejam modernas, atraentes, envolvente e relevantes nos próximos anos.

A educação híbrida, ativa, personalizada, flexível e colaborativa traz novas possibilidades de contribuir para transformar a forma de ensinar e de aprender. É um processo complexo, ainda desigual, com inúmeras contradições estruturais e conjunturais, mas extremamente importante para que cada um consiga avançar no seu ritmo e para que todos aprendam juntos, em todos os espaços, tempos e de múltiplas maneiras. É um caminho sem volta e que tende se aprofundar em todos os níveis de ensino de agora em diante e nos traz imensas oportunidades de avançar para termos uma educação mais humana, criativa, de qualidade, para todos.

  

Para saber mais:

ALEXANDER, Beth. Hybrid Learning Model. The Linden School. https://bit.ly/39ylxd4

BACICH, Lilian; TANZI NETO, Adolfo; TREVISANI, Fernando de Mello (org). Ensino Híbrido: personalização e Tecnologia na Educação. Porto Alegre: Penso, 2015.

BORUP, Jered; WALTERS, Shea; CALL-CUMMINGS, Meagan. Student Perceptions of Their Interactions with Peers at a Cyber Charter High School. Online Learning, v. 24, n. 2, p. 207-224, 2020.

HORN, M. & STAKER, H. Blended: usando a inovação disruptiva para aprimorar a educação. Porto Alegre: Penso, 2015

Integración de Flipped learning en un modelo semipresencial universitario - https://www.theflippedclassroom.es/integracion-de-flipped-learning-en-un-modelo-semipresencial-universitario/

 MORAN, Jose. Educação híbrida: um conceito chave para a educação.  BACICH, TANZI & TREVISANI. Ensino Híbrido: personalização e Tecnologia na EducaçãoPorto Alegre: PENSO, 2015, Págs. 27-45.

 SCHEIEL e outros. Contribuições do Google Sala de Aula para o Ensino Híbrido. Renote. V. 14 Nº 2, dezembro, 2016 - http://seer.ufrgs.br/index.php/renote/article/view/70684/40120

SPENCER, John - 5 Models for Making the Most Out of Hybrid Learning –http://www.spencerauthor.com/5-hybrid-models/

TEACHTHOUGHT STAFF -   12 Of The Most Common Types Of Blended Learning -  https://www.teachthought.com/learning/12-types-of-blended-learning/

 

 Nota: Este texto faz parte do Seminario online “Inovando na educação com modelos flexíveis”: janeiro-fevereiro 2021. Informações em bit.ly/seminariomoran3

 Texto disponível em http://www2.eca.usp.br/moran/?page_id=22



[1] Ensino híbrido: uma inovação disruptiva?  https://www.christenseninstitute.org/publications/ensino-hibrido/

 

[2] Em algumas universidades espanholas, como a da Rioja, cada disciplina no modelo híbrido está organizada em três tipos de atividades: aulas presenciais no campus, sessões on-line assíncronas e sessões on-line síncronas. As sessões on-line assíncronas focam mais o conteúdo, as aulas presenciais mais os projetos e práticas e as sessões on-line síncronas servem para integrar a teoria e a prática. Esse modelo pode servir de ponto de partida para adaptá-lo à realidade de cada instituição, principalmente superior. https://www.theflippedclassroom.es/integracion-de-flipped-learning-en-un-modelo-semipresencial-universitario/

[3] A Uniamérica estava preparada para a pandemia. O segredo? Ensino híbrido. https://desafiosdaeducacao.grupoa.com.br/uniamerica-ensino-hibrido-pandemia/

 [4] BORUP, Jered; WALTERS, Shea; CALL-CUMMINGS, Meagan. Student Perceptions of Their Interactions with Peers at a Cyber Charter High School. Online Learning, v. 24, n. 2, p. 207-224, 2020.

 

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