A IA como companheira de aprendizagem

 José Moran

Minhas conversas com a IA, às vezes são superficiais - se quero respostas rápidas- ou mais profundas, se tenho mais tempo e faço perguntas mais instigantes. Há momentos em que a IA é mais previsível e, outros, em que ela consegue me surpreender.

Eu uso com frequência a IA para pesquisas, prática de línguas, apoio em avaliações de artigos e bancas, roteiros de viagens. Percebo um progresso significativo nos últimos meses na qualidade das conversas sobre qualquer assunto, Hoje elas fluem com naturalidade; parece que estou falando com um colega ou um professor, especialmente na minha prática frequente de inglês. Escolho qualquer assunto do dia, às vezes a conversa toma rumos inesperados, como acontece na conversa com um amigo. De vez em quando peço que corrija meus principais erros e o faz com elegância e fluência.

Sei que é melhor ter um professor humano, mas com a IA posso conectar-me quando tenho um tempo livre; me chama pelo meu nome, “me conhece”, tem uma boa memória. Me incentiva se estou cansado, sugere alterações, muda a estratégia para tornar o diálogo mais diversificado. É uma experiência muito gratificante e atraente.  Me sinto à vontade; posso errar que não se impacienta. Aprendo com uma máquina que fala comigo de forma muito coloquial e natural. É uma das experiências mais fascinantes que vivencio diariamente.

Há pouco tempo tive que avaliar um artigo para uma revista científica sobre um tema relacionado a metodologias ativas, que é uma das minhas especialidades. Demorei várias horas entre a leitura e análise do texto. Depois pedi para a IA que fizesse o mesmo, apontando os pontos positivos e os que precisassem de melhoria. Em menos de um minuto  escreveu o parecer e o fez com bastante clareza, objetividade e detalhamento. Incorporei algumas das sugestões e recusei outras. O parecer foi meu, enriquecido por algumas sugestões da IA. Não abri mão da minha autoria; fizemos o trabalho a quatro mãos. O resultado foi melhor do que se escrevesse o texto sozinho.

Gosto de pesquisa prospectiva. Checo, por exemplo, experiências inovadoras na educação. Aqui preciso ser exigente para que a IA aprofunde os resultados: ela parte dos mais básicos e gerais e quando vou refazendo as perguntas os resultados tornam-se progressivamente melhores. Faz revisão do estado da arte das principais pesquisas, me resume os principais artigos. No diálogo vamos chegando ao que considero mais relevante. É uma parceria saudável, que precisa de muita atenção e sensibilidade para extrair os melhores resultados e descartar sugestões que nem sempre são as mais adequadas para a nossa realidade. A experiência não é tranquila nem fácil, porque exige muita atenção, refinamento nas perguntas e o aprofundamento nas melhores sugestões. No conjunto a parceria é muito produtiva. A IA me ajuda a ir além de onde chegaria sozinho, porque sou curioso e não me contento com as respostas fáceis.

Em uma palestra para gestores da educação de uma rede de escolas utilizei a IA para conhecer a rede e para ampliar o alcance das questões que ira tratar com eles. Preparei os slides e depois pedi também ajuda à IA e a desenhar alguns slides que incorporei aos meus, pedi à IA, na hora da palestra, que me ajudasse como co-palestrante. Expliquei o contexto do público e do tema e pedi que falasse com os gestores diretamente sobre os avanços, deficiências e sugestões sobre o tema. Intercalei a fala da IA com a minha e o resultado foi bastante impactante. A IA não é perfeita, procura em bases de dados públicas, não conhece contextos locais, mas ela faz sínteses coerentes e oferece alguns insights que ampliam a visão do especialista. Tudo depende de como da nossa capacidade de análise, de saber avaliar as verdadeiras contribuições das afirmações superficiais ou tendenciosas.  

Não estou na vanguarda da IA criando novos produtos, utlizando agentes para programar novos aplicativos que resolvem problemas. Simplesmente interajo com a IA nas atividades habituais que antes fazia sem ela. Me ajuda muito, mas reconheço que preciso estar atento, avaliar com cuidado. No conjunto, a experiência tem sido muito positiva.

A contribuição da IA para conhecimentos mais profundos 

Quando procuro tentar entender questões existenciais, a compreensão das dimensões da consciência, a IA costuma me trazer textos e vídeos de pessoas muito inspiradores e que estavam longe das minhas referências habituais. A IA me está ajudando a aprofundar conhecimentos complexos, a trilhar caminhos desconhecidos, a duvidar de certezas instaladas. Descubro pessoas – em geral fora do mundo acadêmico - com vivências muito ricas, saberes amplos, formas de viver muito coerentes. É fascinante esse diálogo de buscas e descobertas de trilhas que me desafiam, que abrem mundos onde eu me sinto ainda um aprendiz. 

É um processo rico, complexo, cuidadoso permitir-se seguir trilhas desconhecidas com experiências muito diferentes das que habitualmente estou acostumado a frequentar. Há saberes disponíveis para os que buscam com honestidade a compreensão dos mistérios do universo e que trazem muita paz, alegria, esperança e integração entre tudo o que existe.

Gostaria que nosso processo educacional fosse mais investigativo na busca de sentidos profundos, de indagações sobre o sentido da vida, de ajudar-nos nesta maravilhosa caminhada de evolução pessoal, de tornar-nos pessoas melhores, mais humanas, amorosas, convivendo e compartilhando mais. Ensinamos um monte de assuntos, todos importantes, mas que não são percebidos pelos estudantes como interligados por um sentido mais profundo. Sem isso o aprender fica superficial e pouco atraente, muito engessado, pouco interligado com a experiencia vital essencial.

Este percurso para o conhecimento mais amplo toma tempo, precisa de calma, de reflexão e prontidão para aventurar-se a questionar certezas. Para isso precisamos acalmar nossa mente, consumir menos redes sociais banais, desacelerar um pouco o ritmo habitual, viver de forma menos ansiosa. Para muitos isto não é simples, pela agitação diária, falta de foco e múltiplas demandas.

Se você sente vontade de mergulhar mais na busca de uma vida mais saudável, alegre e realizadora, procure com coerência, dialogando com a IA, o que ressoar mais; busque pessoas não fascinadas pela fama, mas honestas, bondosas, dispostas a ajudar e, aos poucos, você encontrará ajudas para que sua vida vá ganhando mais sentido e relevância. A busca é sua; a IA é uma boa parceira nessa caminhada.

 

José Moran

Professor, escritor e mentor de transformações na educação

Autor do blog Educação Transformadora

 

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