"Professor, eu vou perder o meu emprego para a Inteligência Artificial?"
José Moran
Sempre que dou palestras pelo país, essa pergunta surge nos
corredores, carregada de angústia e receio. E a minha resposta é sempre muito
direta: se você for um educador preparado, qualificado e atento a este novo
mundo digital, você terá um grande emprego. O mundo nunca precisou tanto de
gente boa para educar para a vida, para a consciência e para a liberdade.
Recentemente, completei meus 80 anos e continuo perguntando
à vida como compreender sua complexidade. E foi com esse espírito de eterna
curiosidade que participei de uma conversa maravilhosa no podcast da
@microkidsbr, onde pude resgatar um pouco da nossa história.
Há 30 anos, quando ajudei a fundar o projeto Escola do
Futuro na USP, vimos a internet chegar e causar o mesmo espanto que a IA causa
hoje. Naquela época, os especialistas previam mudanças muito mais rápidas do
que realmente aconteceram. A escola resistiu. Ficou presa às paredes da sala de
aula e ao modelo industrial de "um ensina para todos".
Hoje, a Inteligência Artificial não é apenas mais uma
ferramenta. Ela é como a eletricidade no início do século XX: uma
infraestrutura que muda todos os nossos processos de vida e de trabalho.
Por isso, deixo aqui três convites para nós, educadores e
gestores:
- Não
fiquem na defensiva: O medo nos imobiliza e nos paralisa. A IA sabe
fazer resumos brilhantes e, em alguns aspectos técnicos, pode até dar uma
aula de conteúdo melhor do que nós. Deixe que ela faça isso! Nosso papel
vai muito além: nós somos os designers de experiências, os mentores, os
acolhedores. Nós temos vida, afeto, sensibilidade, luz e olhar. A IA é
programação; nós somos consciência.
- Ensinem
a perguntar, não a buscar respostas prontas: Uma pesquisa recente me
chamou muito a atenção: alunos diante de plataformas com IA muitas vezes
não conseguem avançar porque simplesmente não sabem fazer perguntas
profundas. Querem o caminho mais fácil. Precisamos educar nossos jovens
para serem "engenheiros de perguntas" vivos, investigadores
curiosos que não se acomodam com a primeira resposta da máquina.
- Usem
a tecnologia para humanizar: A IA nos dá dados fantásticos para tirar
o aluno invisível do canto da sala. Ela nos ajuda a personalizar o ensino,
a acompanhar ritmos diferentes e a apoiar estudantes com necessidades
específicas, como no autismo, onde a máquina tem a paciência repetitiva
que às vezes nos falta.
Não precisamos ser otimistas ingênuos — o ser humano é feito
de luz e sombras, e haverá quem use a tecnologia para enganar. Mas a educação é
o espaço privilegiado para usarmos a IA para o bem, sob a nossa liderança
crítica.
Se o aluno fizer uma pergunta boba e a sua resposta for
boba, ele vai preferir a IA. Mas se a sua resposta for rica, humana e profunda,
ele vai acreditar em você.
Vamos de mãos dadas, sem medo, aprendendo a viver uma vida
plena e ajudando nossos alunos a fazerem o mesmo.
Agradeço à equipe da Microkids pelo convite e pela conversa
tão rica. Convido todos vocês a assistirem ao episódio completo!
👉 Assista aqui: https://www.youtube.com/watch?v=fC0ZSOIWav4

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