O lento e urgente movimento de transformação da educação
Há um grave descompasso entre o desenvolvimento científico e
o humano. Avançamos muito mais rapidamente na tecnologia do que no conhecimento
profundo, valores consistentes e no nosso desenvolvimento como pessoas
integrais. Por isso nosso avanço como sociedade está muito distante do que idealizamos.
A educação – em todos os segmentos e em todas as modalidades - precisa mudar profundamente
para que todos tenhamos condições de viver uma vida plena em um mundo muito
mais complexo, diferente e biofidigital.
Estamos começando a viver em um mundo com grandes
possibilidades e desafios ampliados pelos avanços digitais. Assistentes virtuais
nos acompanham de forma constante e personalizada. Podem ver nossas telas e
arquivos, gravar as reuniões e chamadas e mapear o contexto do nosso cotidiano de
forma cada vez mais abrangente e constante. Os assistentes “conhecem” nossos
interesses, desejos, nossos projetos realizações e dificuldades e nos ajudam a
encontrar soluções e torná-las produções concretas, viáveis, com extrema
rapidez. Esse cenário – complexo e desigual - exige que redesenhemos o que
ensinamos, como o fazemos e, também, a equilibrar a aprendizagem pessoal
integral com a social inclusiva, para torná-la relevante e transformadora.
Tenho visto muitos educadores apontar – com razão – os muitos
riscos da IA – falta de segurança, vieses nos algoritmos, perdas cognitivas, maior
dependência emocional e ampliação da desigualdade social. Mas não vejo o mesmo ímpeto
em experimentar os melhores caminhos – dialogando criticamente com a IA - para questionar
nossa forma de ensinar e aprender, as novas possibilidades de fazê-lo, rever nossos
currículos ainda muito conteudistas, inchados, padronizados, superficiais, pouco
experienciais e existenciais.
É urgente estimular, na educação, a busca de sentido, de
significado, de propósito para poder caminhar pela vida de forma mais autêntica,
coerente e realizadora. Em um mundo convulsionado, dividido e desorientado, a
educação criativa, empreendedora e humanizadora é o caminho necessário para que
todos – crianças, jovens e adultos – desenvolvam competências amplas para conhecer
em profundidade e fazer as melhores escolhas pessoais, que os realizem de
verdade e contribuam para uma sociedade mais acolhedora e consciente.
Diante de tantas mudanças que estão impactando o mundo do
trabalho, da economia, das organizações, faz sentido experimentar novos
caminhos para aprender, buscando o equilíbrio entre o que já conseguimos construir
de melhor até agora com a experimentação de processos mais profundos,
personalizados, criativos e solidários, que nos ajudem a desenvolver nosso
imenso potencial realizador e transformador.
A educação escolar é ainda muito conformista, burocrática, previsível.
Nos contentamos com pouco, gastamos anos demais aprendendo superficialmente,
nos enganamos acumulando diplomas e multiplicando avaliações que não medem o
principal: a aprendizagem integral, significativa e profunda de cada um dentro
do seu ritmo e possibilidades.
Não há soluções fáceis nem simples na educação. Só a
indignação, não basta; mas é o ponto de partida necessário para pensar
diferente e buscar caminhos mais alinhados com os que necessitamos para
empreender em nossas vidas mais complexas, incertas e de muitas escolhas
possíveis.
Não resolve somente fazer melhorias pontuais como ensinar a
usar a IA e utilizar algumas metodologias ativas. Tudo isso é necessário, mas insuficiente.
Apesar de termos avançado nos indicadores oficiais educacionais, há um
descompasso grande até que consigamos chegar a uma educação integradora plena -
intelectual, emocional, ética e transcendental.
Precisamos de mudanças profundas e estruturais na educação. É
um processo de longo prazo, muito mais lento do que desejamos, porque depende do
aumento da consciência individual e social de muitos mais gestores,
professores, estudantes, famílias e da sociedade como um todo.
A mudança educacional estrutural começa primeiro pela
transformação autêntica do maior número de pessoas, insatisfeitas, idealistas e
honestas, sensíveis à urgência do chamado para novas formas de aprender e de
viver em todos os espaços, tempos e de múltiplas formas. Esse movimento de transformação
já está acontecendo - ainda em pequena escala – e tende a crescer de forma
sólida até um dia tornar-se majoritário.
José Moran
Professor,
escritor e mentor de transformações profundas na educação
Autor do blog Educação
Transformadora

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