Caminhos para uma educação viva e plena
A educação é verdadeiramente transformadora quando nos torna mais conscientes e melhores como pessoas, grupos e sociedade, em todas as dimensões da existência. Uma educação plena diz “sim” à vida em toda a sua complexidade: experimenta, cria vínculos, executa projetos relevantes, integra conhecimentos, valores e ação. Precisamos enfrentar as questões vitais profundas, discutir as diversas filosofias de vida, a busca de sentido, desvendar os vários níveis de consciência.
Um caminho fundamental
é criar e fomentar espaços que favoreçam as grandes perguntas,
investigações e buscas da forma e até onde cada estudante e pessoa considerem
relevantes, com apoio de educadores experientes e de tecnologias disponíveis.
Educar é ajudar a desvendar camadas, a descobrir caminhos, a deslumbrar-se com
novas possibilidades no tempo e ritmo possíveis à cada um em diálogo com o
currículo previsto. Temos que ensinar a pensar com mais profundidade, a vivenciar
competências e valores, a experienciar diversidade de escolhas através da arte,
do contato com pessoas diferentes, com projetos de inclusão reais, projetos de
aprendizagem-serviço, que contribuam para trazer soluções reais para problemas próximos.
A aprendizagem profunda começa muito antes do conteúdo: ela nasce do acolhimento. É importante acolher de forma
autêntica os aprendizes, gostar de estar com eles, conhecer seus gostos,
sonhos, seus hábitos de lazer e escutá-los atentamente, com empatia. Isso cria
uma expectativa favorável neles, uma aceitação real, desarma suas defesas, gera
acolhimento recíproco e uma participação mais efetiva.
Aprendemos melhor em ambientes em que nos sentimos acolhidos, em que podemos
confiar, experimentar, errar e seguir por trilhas diferentes. Educação é
fundamentalmente encontro entre pessoas que interagem, se apoiam, compreendem e
se ajudam. Quando criamos esse clima de confiança, é muito mais fácil desenhar
estratégias metodológicas, sequências didáticas, formas de avaliação. Elas
funcionam melhor quando conversamos com os estudantes, explicamos os objetivos
e chegamos a consensos. Quando sentimos que somos importantes, que nossa
participação conta, nossa atitude se torna muito mais propícia à mudança.
Em um
ambiente acolhedor, os alunos se sentem encorajados a participar ativamente em
casa e na escola, explorar novos conhecimentos e expressar suas ideias sem
receios. A motivação intrínseca, alimentada pelo afeto, é um motor poderoso
para a persistência e a busca pelo conhecimento. Apesar de tudo, o resultado
depende de cada estudante encontrar ressonância, sentido, repercussão. Por mais
que tentemos, é possível que alguns alunos estejam distantes do que estamos
propondo e das estratégias. Nem todos se sensibilizam, por inúmeras razões.
Procuramos fazer o melhor sempre, oferecer as oportunidades a todos. Mesmo
assim, um grau de adesão precisa acontecer por parte do aprendiz. Só a
motivação extrínseca (nota, prova, controle tem algum efeito, mas pouco
significativo no longo prazo).
Outro
caminho importante é ligar o que se aprende à vida real, conectando os
temas à realidade dos estudantes, aos problemas do bairro, da cidade, do
planeta, e convidando-os a criar projetos concretos para melhorar algo ao seu
redor. Metodologias ativas, projetos, investigação, arte, cultura, tecnologia e
trabalho colaborativo deixam de ser “moda pedagógica” e passam a ser meios para
que os estudantes pensem, sintam, criem e ajam. O conhecimento deixa de ser
apenas conteúdo decorado para prova e passa a ser ferramenta para compreender o
mundo e transformá-lo.
Superar
o modelo de uma aula igual para todos, sempre do mesmo jeito, para adaptá-la às
necessidades e nível de domínio de cada estudante. Em vez de um único ritmo, o professor é um
designer de roteiros de aprendizagem diferentes para estudantes com ritmos e
necessidades desiguais. Em vez de uma única forma de explicar, teremos
múltiplas formas de aprender, com apoio da Inteligência Artificial para sugerir
trilhas, propor atividades e acompanhar processos.
Também é importante
cuidar das dimensões emocional, ética e espiritual (no sentido de sentido de
vida, propósito, valores), e não apenas do desempenho acadêmico. Educar é
ajudar a desenvolver autoconsciência, empatia, responsabilidade, convivência,
capacidade de escuta e de diálogo com a diversidade. Isso não se faz com
discursos, mas com experiências e o exemplo: rodas de conversa, mediação de
conflitos, cuidado mútuo, participação dos estudantes nas decisões da escola,
projetos de vida. Assim, a escola se torna um laboratório vivo de cidadania e
humanidade.
Dar ênfase
muito maior à educação socioemocional: autoconhecer-se, aprender a meditar, a
mergulhar no presente, a desenvolver a empatia com tudo o que nos rodeia;
desenvolver formas de escuta autênticas, de formas de conviver e participar
ativamente. meditar, viver o hoje, mudar olhar, a perspectiva, grandes questões
para você e para os estudantes.
Os modelos
também se tornam mais flexíveis e personalizados, com diferentes espaços e
formas de participação: momentos individuais, trabalhos em pequenos grupos,
tempos de tutoria, de criação, de silêncio, de exposição e de compartilhamento.
O acesso, o domínio e o uso criativo e equilibrado das tecnologias digitais e
da IA tornam-se parte de uma educação verdadeiramente transformadora, desde que
não percamos de vista a dimensão ética, humanista e ecológica das escolhas que
fazemos.
A escola
precisa colocar muito mais foco em experimentar, vivenciar, fazer, projetar,
criar, interagir e refletir. Ateliês de artes, espaços maker, projetos STEAM,
alternância entre ambientes naturais e digitais, ações de aprendizagem-serviço
e projetos que dialogam com a comunidade aproximam a escola da vida real. O currículo se torna vivo, em ação,
quando o ambiente é acolhedor o suficiente para que todas as perguntas possam
ser feitas – inclusive as grandes perguntas da existência: de onde viemos, por
que estamos aqui, que legado queremos deixar, o que pensamos sobre a
continuidade da vida.
Nos modelos
híbridos e digitais, alternamos tempos de trabalho individual, experimentação
em grupo, tutoria digital e mentoria humana – em sintonia com experiências de
redes como a Summit School, adaptadas às nossas realidades. Nesse cenário, os
professores precisam ser excelentes e profundamente humanos para encantar seus
alunos. Mais do que transmissores de conteúdo, tornam-se designers de
experiências, mediadores de relações, orientadores de valores e competências
para a vida.
Cada escola
e cada rede têm sua cultura, sua história, sua dinâmica, seus modos de avaliar.
O primeiro passo é conhecer com honestidade onde estamos: o que já fazemos bem,
onde temos deficiências, quais práticas merecem ser fortalecidas e quais
precisam ser revistas. A partir daí, podemos definir alguns caminhos que
integrem o melhor do que já fazemos com novas estratégias viáveis no presente e
outras que possam ser implantadas gradualmente, com mais cuidado e participação
de todos.
Um desafio
importante é aproximar os movimentos educacionais mais humanistas,
ecossustentáveis e democráticos dos grupos mais atentos às inovações
tecnológicas. Os primeiros privilegiam as artes, os valores e a
participação e, frequentemente, desconfiam das tecnologias. Os grupos mais
avançados tecnologicamente costumam supervalorizar as transformações digitais e
prestar menos atenção às dimensões humanistas e existenciais. O caminho é o da aproximação e integração:
juntar profundidade humana e artística com a inovação digital; cuidar das
pessoas e do planeta dialogando com todas as possibilidades da Inteligência
Artificial.
A
Inteligência Artificial, articulada com metodologias ativas e uma visão humanista,
abre possibilidades inéditas. Tendemos a ver um crescimento de modelos mistos, com mais ou menos
interação entre docentes e plataformas digitais, especialmente nos anos finais
do Ensino Fundamental, no Ensino Médio, Técnico e Superior. Já vemos, por
exemplo, mudanças significativas no ensino de línguas, com aplicativos, tutores
virtuais e sistemas de correção em tempo real. A IA pode apoiar o planejamento
de aulas, sugerir atividades, propor estratégias, ajudar a construir formas de
avaliação, organizar resumos, sínteses e relatórios de grupos, bem como
favorecer diferentes níveis de personalização – da simples individualização de
ritmo até trajetórias de aprendizagem mais autônomas e cheias de escolhas.
Redes de
ensino e escolas começam a construir IAs customizadas, conectadas ao seu
projeto pedagógico. Professores e alunos passam a contar com seus próprios
assistentes virtuais, que apoiam processos de estudo, criação, organização e
reflexão. Ensinar com IA, porém, não é apenas “usar uma ferramenta nova”: é
construir um processo mais abrangente e complexo, ao mesmo tempo flexível,
personalizado, colaborativo e tutorial. A IA traz mudanças profundas, mas a
direção dessas mudanças dependerá dos valores e modelos de cada organização.
Por isso, é urgente enfrentar o descompasso entre a rapidez da evolução
tecnológica e a lentidão da evolução humana: precisamos crescer em consciência
na mesma velocidade em que crescem as máquinas.
As aulas
tendem a mudar bastante. Em muitos contextos, já falamos de “aula invertida
personalizada”: os estudantes interagem previamente com seus tutores virtuais e
com os materiais digitais, e o encontro com o professor ganha outro sentido,
mais dialógico, prático e reflexivo. Em vez de alunos passivos, queremos jovens
que pesquisem em profundidade, argumentem, avaliem, apliquem, dialoguem, criem
e apresentem suas ideias. A IA deve ser ponto de partida, nunca de chegada:
aquilo que ela produz precisa ser questionado, ampliado, contextualizado e
recriado.
Já
começamos a perceber – mesmo em cenários ainda muito desiguais - algumas
mudanças bem concretas: escolas, professores e estudantes usando plataformas e
aplicativos cada vez mais integrados e personalizados; assistentes virtuais
ajudando a organizar rotinas, lembretes e trilhas de aprendizagem; sistemas que
tornam mais visíveis os avanços e dificuldades de cada participante e de cada
segmento. Cresce também a preocupação com o mau uso superficial da IA, como
atalho para a rapidez, mas não para a profundidade. Se predomina a busca da
facilidade, com certeza o nível de aprendizagem será menos profundo.
Conclusão
Aprendemos
de verdade quando algo nos interessa, nos encanta e faz sentido. Quando
enxergamos significado, utilidade e relevância, a aprendizagem deixa de ser
obrigação e se torna descoberta. Aprendemos pela emoção, pelo espanto, pela
experimentação pessoal e em grupo, pela reflexão que integra experiência e
pensamento. Aprendemos, sobretudo, pelo exemplo: a “pedagogia do exemplo” é
mais forte do que qualquer discurso. Professores e famílias que vivem aquilo em
que acreditam tornam-se referências silenciosas, mas poderosas, para crianças,
jovens e adultos.
Não há
educação transformadora sem educadores em processo de transformação.
Professores e gestores também precisam de espaços de formação contínua,
reflexão sobre sua própria prática, apoio emocional e condições reais de
trabalho. Quando o educador se sente cuidado, reconhecido e autor da própria
trajetória, ele ganha energia e coragem para inovar, experimentar, errar e
recomeçar. A educação se transforma profundamente quando a escola inteira –
pessoas, tempos, espaços e tecnologias – se organiza em torno de uma pergunta
simples e radical: “Como podemos ajudar cada pessoa a viver com mais
consciência, liberdade, responsabilidade e amor?”
A grande
pergunta, então, é: como garantimos que, nesse emaranhado de caminhos, a
educação continue sendo profundamente humana, criativa, inclusiva e
comprometida com a vida em todas as suas dimensões? O objetivo final é nos
tornarmos progressivamente mais equilibrados, livres, autônomos e solidários.
Quanto mais avançarmos em conhecimentos e práticas de vida libertadoras, mais
ajudaremos a todos que convivem conosco e assim construiremos uma educação mais
transformadora, criativa e, acima de tudo, humana.
Algumas
referências:
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[recurso eletrônico]. São Paulo: EBPCA – Editora Brasileira de Publicação
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Neusa Maria John. Educação humanizadora em um mundo mediado por tecnologias
digitais da informação e da comunicação. Vivências, Frederico Westphalen, v.
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Acesso em 10 nov. 2025

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