terça-feira, 1 de março de 2016

Metodologias ativas, para realizar transformações progressivas e profundas no currículo

As metodologias ativas são caminhos para avançar para um currículo mais flexível, mais centrado no aluno, nas suas necessidades e expectativas. Escolas e universidades realizam essas mudanças de forma progressiva (gradualmente), simultânea (mudanças setoriais avançadas) ou mais profundas (projetos mais amplos de inovação). É um processo longo e complexo, mas inevitável.
As organizações educacionais que nos mostram novos caminhos estão experimentando currículos mais flexíveis, mais centrados em que os alunos aprendam a integrar conhecimentos amplos, valores, projeto de vida através de problemas reais, desafios relevantes, jogos, atividades e leituras individuais e em grupo; presenciais e digitais. 
A maior parte das escolas e universidades quer mudar, mas está presa na cultura disciplinar transmissiva e paternalista. Como fazer essas transformações, na prática? Não há uma resposta única, mas alguns caminhos fazem mais sentido, dependendo de cada instituição, das condições em que se encontra, do percurso de mudança já trilhado e da opção por mudanças mais rápidas ou lentas, mais superficiais ou mais profundas.

1)           Mudanças progressivas
Para a maioria das instituições educacionais que já têm uma cultura, história e processos definidos há tempos, as mudanças mais viáveis são as progressivas. Partem dos modelos disciplinares para níveis de interligação cada vez mais amplos.
A primeira mudança é dentro de cada disciplina, introduzindo metodologias ativas, principalmente a aula invertida. Isso já permite avanços rápidos, com o professor orientando mais atividades de aprofundamento.
O caminho para avançar na integração é organizando algumas atividades comuns a mais de uma disciplina: projetos comuns, atividades integradoras, ampliando as metodologias ativas e os modelos híbridos. A instituição pode propor o projeto de vida de forma transversal, ao longo do curso. Esse eixo é importante para o aluno desenvolver uma visão mais ampla do seu papel no presente e no futuro.
O nível seguinte é o da integração entre as diversas disciplinas através de um projeto mais amplo e outras atividades que façam sentido. Essa integração também pode ser vertical, por áreas de conhecimento semelhantes: alunos de semestres diferentes se juntam em algumas atividades comuns, onde os mais veteranos podem tornar-se tutores. A hibridização também aumenta com maior inserção do digital.
A partir daí a instituição já estará mais preparada para implementar um currículo muito mais integrador, flexível, com foco em projetos, desafios, aprender fazendo e terá tido tempo de acompanhar outras instituições que já implementaram currículos mais ousados e que terão uma avaliação mais precisa do que vale a pena trazer para a própria instituição.


2)          Mudanças simultâneas
Uma forma de acelerar as mudanças sem por em risco a cultura da instituição é começar a inovação em pequena escala, em uma área que tem maior abertura, com gestores e professores mais empreendedores. Esses projetos são acompanhados por todos, avaliados para depois incorporar mais rapidamente os demais cursos. Ir da experiência focada e avaliada para a estrutural é um caminho que tem muitas vantagens: todos aprendem com o grupo experimental e se preparam melhor para implementar um novo projeto mais ousado.
O importante neste processo é que a discussão do projeto inovador seja feito por toda a comunidade antes e acompanhado de verdade durante a sua implantação.
Um exemplo atual está acontecendo na Catalunha, Espanha com o Projeto Horizonte 2020 dos Jesuítas, que após uma discussão ampla de dois anos, chegaram a um consenso de um novo modelo educacional, sem disciplinas e o estão implementando progressivamente em duas séries em cinco escolas[1]. Simultaneamente continua o modelo convencional com o experimental no mesmo lugar. Embora possa haver algumas tensões nesta transição, permite que todos aprendam na prática ou no acompanhamento direto do que acontece ao lado.

3)      Transformações profundas
Alguns grupos, liderados por gestores visionários e empreendedores, propõem mudanças mais profundas mais rapidamente. Alguns exemplos são conhecidos no Brasil de escolas públicas que, apesar das estruturas burocráticas, conseguiram implementar currículos mais abertos, não disciplinares, baseados em roteiros de aprendizagem, integração de alunos de vários anos.
O que impressiona nas escolas com desenhos arquitetônicos e pedagógicos mais avançados é que os espaços são mais amplos, agradáveis. Há escolas mais em contato com a natureza, que tem vantagens inegáveis para projetos de ecologia de aprendizagem mais integral (como o Projeto Âncora)[2], mas também há projetos em comunidades carentes como o da Escola Municipal Campos Salles, em que os alunos desenvolvem roteiros de aprendizagem personalizados, em pequenos grupos, com o acompanhamento dos Professores Tutores e o apoio dos dados da evolução de cada aluno,  fornecidos online por uma plataforma adaptativa[3].
Um dos muitos modelos interessantes para pensar como organizar a “sala de aula” de forma diferente é olhar para algumas escolas inovadoras. Por exemplo os projetos das escolas Summit (Summit Schools) da California equilibram tempos de atividades individuais, com as de grupo; sob a supervisão de dois professores, de áreas diferentes (humanas e exatas) que se preocupam com projetos que permitam olhares abrangentes, integradores, sem disciplinas. Acompanham o progresso de cada aluno (toda sexta feira conversam individualmente com cada aluno) e cada aluno tem um Mentor, que o orienta no seu projeto de vida. Os alunos fazem avaliações quando se sentem preparados. As competências socioemocionais são muito enfatizadas assim como o desenvolvimento de atividades e projetos em organizações fora das escolas[4].
O ambiente físico das salas de aula e da escola como um todo também foi redesenhado  por estas escolas mais inovadoras, mais centrado no aluno. As salas de aula são mais multifuncionais, combinem facilmente atividades de grupo, de plenário e individuais. Os ambientes estão cada vez mais adaptados para uso de tecnologias móveis.
Outro conjunto de escolas interessantes são as escolas públicas High Tech High que lembram laboratórios multiuso, onde os alunos vão da ideia à realização e apresentação dos seus projetos, com apoio de ferramentas físicas e digitais, entre elas as impressoras 3-D. Há uma ênfase na cultura do fazer (cultura maker) e nas competências socioemocionais.[5]

No Ensino Superior a área de saúde foi pioneira em trabalhar com solução de problemas (PBL), já na década de sessenta através da Universidade McMaster, no Canadá e a Universidade de Maastricht na Holanda. (CYRINO, E. & TORALLES-PEREIRA, M.L, 2004). Muitos cursos de Medicina trabalham com problemas e também muitos cursos de Engenharia adotam a Metodologia de Projetos, como o Olin College[6] e, no Brasil, o Insper. Instituições inovadoras como o Institute of Design de Stanford admitem alunos de todas as áreas de conhecimento e desenvolvem projetos criativos através da metodologia do Design Thinking[7].
Outra proposta interessante é a da Uniamérica de Foz de Iguaçu, que aboliu em cursos como o de Biomedicina, Farmácia e as Engenharias, a  divisão por séries e o currículo não é organizado por projetos e aula invertida. “Ao tirar a divisão por disciplinas, orientamos todas as competências necessárias através de projetos semestrais temáticos. O aluno escolhe um problema real de sua comunidade ou região para trabalhar os temas daquele período.”[8] As aulas expositivas também foram abolidas. Agora, os alunos estudam os conteúdos em casa, ou onde preferirem. São disponibilizados em uma plataforma on-line vídeos, textos e um conjunto de atividades às quais os estudantes devem se dedicar antes de ir para a aula. Essas atividades são de dois tipos: um primeiro de fixação e garantia de compreensão do conteúdo, e outro de problematização, que estimula a pesquisa e a transposição do conhecimento para problemas reais. Com isso, o tempo em sala de aula é usado para que os temas sejam debatidos mais profundamente e também para a realização dos projetos do semestre.[9]

Outras escolas inovadoras
Escuela XXI – Relatos de viagem a escolas inovadoras – Alfredo Hernando – Espanha: http://www.escuela21.org/
11 Escuelas más innovadoras

Iniciativas educacionais inovadoras

Na formação de professores

Treze escolas inovadoras - 






[3] Os alunos se reúnem em grupos de 4 para o desenvolvimento dos roteiros de pesquisa. Cada um tem o seu próprio roteiro e segue um ritmo individual de execução das tarefas solicitadas. Atividades extra-salão: aulas no cinema da escola, visitas à comunidade, pesquisas na internet na sala de informática, aulas de arte e de educação física. www.escolasqueinovam.org.br/escolas/


[8] Ryon Braga, Diretor da Uniamérica. In Universidade abole disciplinas em prol de projetos. Disponível em http://porvir.org/porfazer/universidade-abole-disciplinas-em-prol-de-projetos/20140409


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segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Principais diferenciais das escolas mais inovadoras

O que tem em comum as escolas e universidades mais inovadoras? Quais são seus diferenciais? Apesar de terem propostas aparentemente muito diferentes, coincidem em alguns componentes importantes, que apontam caminhos para as demais instituições mais convencionais ou que realizam mudanças de forma mais progressiva.
Os principais diferenciais:
1.      Ambientes institucionais acolhedores e abertos à experimentação
As instituições educacionais inovadoras são abertas e acolhedoras, interna e externamente;  a comunicação é incentivada e as divergências, possíveis. Todos sentem-se acolhidos, em todos os espaços, momentos e situações, como participantes de um projeto comum e compartilhado, onde podem manifestar-se, interagir, contribuir, questionar.
Os espaços físicos e digitais são abertos, compartilhados (entre todos os participantes: gestores, professores, alunos) e também com a comunidade externa. Divulgam-se as melhores práticas e contribuições. Há um incentivo à criatividade, empreendedorismo, à experimentação, aceitando a possibilidade de cometer erros e de aprender a superá-los.
Os espaços arquitetônicos refletem esse grau de abertura, saindo do espaço retangular e fechado das estruturas convencionais. São espaços mais multifuncionais, bonitos, abertos, acolhedores, desenhados por arquitetos diferenciados – depois de ouvir a comunidade.
A gestão da inovação é contínua, aberta e compartilhada entre todos: gestores, professores, alunos e comunidade.

2.      Currículos transdisciplinares, personalizados, híbridos.

Os currículos das instituições inovadoras são transdisciplinares, integram áreas de conhecimento de várias formas (sem disciplinas ou com só algumas), são holísticos, com uma visão humanista, sustentável e de competências amplas. Há uma grande integração de áreas, projetos, problemas, com menos (ou sem) disciplinas com foco na aplicação criativa dos conhecimentos em diferentes situações e contextos.
Os currículos são suficientemente flexíveis para que os alunos possam personalizar seu percurso, total ou parcialmente, de acordo com suas necessidades, expectativas e estilos de aprendizagem e também para prever projetos e atividades significativos de grupo, articulando a prática e a teoria.  
São híbridos, blended, com tempos integração de tempos, espaços e atividades presenciais e online, que propõem um “contínuum” entre modelos com momentos mais presenciais com modelos mais digitais, superando a dicotomia presencial x distância, combinando-as, otimizando-as no que cada uma tem de melhor e no que é mais conveniente para a aprendizagem de cada tipo de estudante.

Os currículos enfatizam o desenvolvimento de competências amplas, cognitivas e socioemocionais, divididas basicamente em quatro categorias: maneiras de pensar (criatividade e inovação, pensamento crítico, resolução de problemas, tomada de decisões, capacidade de aprender a aprender e metacognição), ferramentas para o trabalho (tecnologias digitais da informação e da alfabetização), formas de aprender e agir (comunicação e colaboração) e maneiras de viver no mundo atual (cidadania, responsabilidade pela própria vida, desenvolvimento profissional, pessoal e social).[1]
Um eixo transversal importante nos currículos é a metodologia de design para projetos reais importantes, principalmente para o desenho de projetos de vida, buscando o autoconhecimento, a percepção de algum significado, relevância e visão de futuro com o apoio de professores-orientadores/mentores. 

3. Metodologias ativas
As escolas e universidades mais inovadoras utilizam uma combinação de caminhos e metodologias de ensino e aprendizagem, que se integram. Não há um caminho único.  Partem de onde os alunos estão, das suas necessidades e inquietações para torna-los mais motivados, protagonistas e participativos através de metodologias ativas. Há ênfase em aprender fazendo (cultura “maker”), em aprender a partir de projetos reais, de problemas significativos, histórias de vida, jogos. O uso adequado de projetos e problemas permite desenvolver com os alunos questões como o trabalho colaborativo, a investigação, o entendimento da realidade do outro e a criatividade. Predominam as atividades de experimentação em projetos interdisciplinares realizados em laboratórios de fabricação digital, aulas de programação e robótica, produção de narrativas e histórias, produções artísticas dentro da escola e na comunidade (projetos reais). A ação se combina com a reflexão, necessária para estimular o pensamento mais profundo e, portanto, mais crítico.

As escolas inovadoras combinam três processos de forma equilibrada: a aprendizagem personalizada (em que cada um pode aprender o básico por si mesmo - aprendizagem prévia, aula invertida); a aprendizagem com diferentes grupos (aprendizagem entre pares, em redes) e a aprendizagem mediada por pessoas mais experientes (professores, orientadores, mentores).
A personalização (aprendizagem adaptada aos ritmos e necessidades de cada pessoa) é cada vez mais importante e viável. Visa a aprendizagem profunda (deep learning), de caráter progressivo e motivador.  Ela se amplia, potencializa e combina com a aprendizagem colaborativa - construção coletiva do conhecimento, que emerge da troca entre pares, das atividades práticas dos alunos, de suas reflexões, de seus debates e questionamentos, em redes presenciais e online.
Uma das metodologias ativas predominante é a inversão da forma tradicional de ensinar, (depois que o aluno tem as competências básicas mínimas de ler, escrever, contar): o básico o aluno aprende sozinho, no seu ritmo e o mais avançado, com atividades em grupo e a supervisão de professores. As plataformas digitais ajudam neste processo de personalização, de acompanhamento de cada aluno.O equilíbrio entre a aprendizagem individual, a grupal e a orientada por pessoas mais experientes propicia uma riqueza ímpar de oportunidades, caminhos, possibilidades (principalmente em cursos de formação e de longa duração).


4.      Tecnologias digitais integradas em todo o processo
Nas instituições mais inovadoras as tecnologias digitais estão integradas, são móveis, permitem aprender a qualquer hora, em qualquer lugar e de múltiplas formas. Elas são fundamentais para o planejamento, desenvolvimento das aulas e para a avaliação. Elas ampliam as possibilidades de pesquisa, autoria, compartilhamento, publicação, multiplicação de espaços, de tempos.  Estão presentes ferramentas  e aplicativos com a gamificação de conteúdo, plataformas adaptativas, aprendizagem colaborativa e aplicativos móveis. Os materiais são atraentes, com muitos recursos típicos dos jogos: fases, desafios, competição, colaboração, recompensas (plataformas adaptativas, ambientes imersivos). Os alunos recebem medalhas (badges) e outras recompensas pelas suas produções e contribuições. Ganham também relevância os laboratórios multifuncionais, os laboratórios “maker”, onde os alunos testam suas ideias, desenvolvem programas, testam soluções reais, criam suas próprias narrativas, desenvolvem jogos, entre outras atividades.
O design educacional é cada vez mais decisivo para contar com roteiros cognitivos inteligentes, atividades individuais, grupais e de avaliação interessantes e desafiadoras. Há maior ênfase em recursos abertos, compartilhados gratuitamente, em acesso a cursos online, na participação em plataformas digitais dinâmicas (redes) e em comunidades de prática.
As tecnologias sozinhas não mudam a educação, mas a educação inovadora está incorporando todas as possibilidades de flexibilização, personalização, colaboração e compartilhamento que elas trazem no cotidiano.

  1. Integração profunda com a cidade e com o mundo: aprendizagem/serviço
Outro diferencial das escolas inovadoras é a aprendizagem-serviço, em que os estudantes aprendem em contato com a comunidade (utilização de museus, praças, centros culturais, empresas, clubes, redes e outros locais) e desenvolvem projetos que beneficiam essa mesma comunidade.  Escola e comunidade externa aprendem juntas e se beneficiam mutuamente. Não há só o estudo do meio, mas a transformação do entorno, aprender modificando situações reais, com pessoas concretas e projetos socialmente relevantes.   


6.      Professores orientadores e mentores
Os papéis dos professores nos projetos inovadores são muito mais amplos e avançados: são os de desenhadores de roteiros pessoais e grupais de aprendizagens amplas e complexas, de interlocutores avançados que ultrapassam as informações de uma área específica e, também, (em graus diferentes) os de orientadores/mentores de projetos profissionais e de vida dos alunos.
A formação formação inicial e continuada de professores em instituições inovadoras segue a mesa homologia de processos (ensinar como se aprende): ênfase em metodologias ativas, em orientação/tutoria/mentoria e em tecnologias digitais presenciais e online. Há uma política de orientação dos mais experientes – “clínicas” com supervisão, de aprendizagem por imersão, continuada e de compartilhamento aberto das experiências.

7.      Novas formas de avaliação e certificação
Os processos de avaliação de aprendizagem também são mais amplos e explicitam as relações entre habilidades cognitivas e competências socioemocionais. A avaliação é um processo contínuo, flexível, que acontece de várias formas: avaliação diagnóstica, formativa, mediadora; Avaliação da produção (do percurso - portfólios digitais, narrativas, relatórios, observação), avaliação por rubricas - competências pessoais, cognitivas, relacionais, produtivas - avaliação dialógica, avaliação por pares, autoavaliação, avaliação online, avaliação integradora, entre outras. As instituições inovadoras evoluem e reavaliam continuamente suas propostas. Estamos numa fase de intensa experimentação, de aprendizagem entre todos, validando o que funciona melhor.
Há novas formas de certificação – além das acadêmicas - com cursos online (Moocs, nano-cursos), que geram mini-certificações ou certificações específicas (como badges ou distintivos compartilhados digitalmente), itinerários formativos flexíveis, que podem compor um portfólio de comprovação de competências mais abrangente e personalizado para a vida profissional e para a vida.

Conclusão
Algumas escolas e universidades estão construindo e aperfeiçoando continuamente modelos mais avançados, integradores, inovadores de ensino e aprendizagem. Apesar das diferenças na implementação, coincidem nas questões essenciais. As demais instituições estão tentando desenvolver mudanças menos profundas, mais progressivas, passo a passo. É importante olhar para os que estão mais avançados, para aprender a acelerar nossos próprios processos e métodos e conseguir dar respostas mais satisfatórias aos imensos desafios de ensinar e aprender em um mundo tão complexo, conectado e desafiador.





[1] Classificação de competências feita pelo consórcio ATC21S, liderado pela Universidade de Melbourne, disponível em http://innoveedu.org/tendencias#competencias

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

quarta-feira, 7 de outubro de 2015

Aprendendo a desenvolver e orientar projetos de vida


Nossa vida pode ser percebida como um projeto que se redefine continuamente com novos conhecimentos, experiências, vivências. Esse processo pode tornar-se muito mais enriquecedor, quando estamos atentos e o desenvolvemos intencionalmente em nós mesmos e nos demais.

As instituições mais inovadoras desenham uma política clara de orientação dos alunos para que se autoconheçam e desenvolvam seus potenciais. Os projetos de vida são um componente curricular transversal e visam promover a convergência, de um lado, entre os interesses e paixões de cada aluno e, de outro, seus talentos, história e seu contexto. Os projetos estimulam a busca de uma vida com significado e útil pessoal e socialmente, e, como consequência, ampliar a motivação profunda para aprender e evoluir em todas as dimensões.

Projetos de vida são orientações para que cada aluno se conheça melhor, descubra seus potenciais e os caminhos mais promissores para a sua realização em todas as dimensões. Falamos de projetos de vida, porque eles se refazem, redefinem, modificam com o tempo. Não são roteiros fechados, mas abertos, adaptados às necessidades de cada um. São projetos porque estão em construção e tem dinâmicas que ajudam a rever o passado, a situar-se no presente e a projetar algumas dimensões do futuro.

Os projetos de vida olham para o passado de cada aluno (história), para o seu contexto atual e para as suas expectativas futuras. Isso pode ser trabalhado com a metodologia de design, focando a empatia, a criação de ambientes afetivos e de confiança, em que cada aluno pode expressar-se e contar seu percurso, suas dificuldades, seus medos, suas expectativas e ser orientado para encontrar uma vida com significado e desenhar seu projeto de futuro.

Todos os professores e todas as atividades de ensino-aprendizagem podem contribuir para que cada aluno se conheça melhor, se oriente de forma mais consciente. Alguns o fazem de forma mais institucional, direta e assumem o papel de mentores, acompanhando mais de perto os alunos no seu dia a dia, ajudando-os a descobrir seus interesses, talentos e fragilidades e a ir tomando decisões para modificar sua visão de mundo e desenhar caminhos para seu futuro. É importante ter uma equipe de mentores com perfis complementares para que consigam acompanhar as diversas etapas de cada projeto (diagnóstico, design, implementação, avaliação) e as diferentes visões de mundo dos alunos.
 No começo deve ficar bem claro para o aluno todo o processo, os momentos mais fortes, os materiais de apoio, os mentores específicos atribuídos. Isso garantirá que não seja só uma ideia no papel, mas uma ação viva continuada.[1]

Um caminho interessante para o projeto de vista é o da construção de narrativas, em que cada aluno conte sua história utilizando as diversas tecnologias disponíveis. Construímos nossas histórias pessoais, nossos projetos de vida num rico fluir de passagens e linguagens entre os diversos espaços físicos e digitais, que se entrecruzam, superpõem e integram incessantemente. Nossa vida é uma narrativa dinâmica com enredo fluido, costurado com fragmentos das múltiplas histórias que vivenciamos e compartilhamos de diversas formas com alguns mais próximos, física e digitalmente. Nesta narrativa em construção, nossa vida adquire mais sentido, quando conseguimos perceber alguma coerência, alguns padrões importantes, junto com algumas descobertas iluminadoras. Construímos a vida como uma narrativa, com enredos múltiplos, com diversos atores internos e externos, que se explicita nessa troca incessante de mensagens, vivências e saberes. Aprendemos mais e melhor quando encontramos significado para o que percebemos, somos e desejamos, quando há alguma lógica nesse caminhar - no meio de inúmeras contradições e incertezas - que ilumina nosso passado e presente e orienta nosso futuro.

A educação no sentido mais amplo é aprender - e ajudar a que outros aprendam pela   comunicação e compartilhamento - a construir histórias de vida, que façam sentido, que nos ajudem a compreender melhor o mundo, aos demais e a nós mesmos; que nos estimulem a evoluir como pessoas, a fazer escolhas, nos libertem das nossas dependências e nos tornem mais produtivos e realizados em todos os campos, como pessoas e cidadãos. “Se as pessoas são aceitas e consideradas, tendem a desenvolver uma atitude de mais consideração em relação a si mesmas” (ROGERS, 1987, p.65).
Ivor GOODSON pesquisa há anos as histórias de vida como processos de aprendizagem: “Ver a aprendizagem como algo ligado à história de vida é entender que ela está situada em um contexto, e que também tem história – tanto em termos de histórias de vida dos indivíduos e histórias e trajetórias das instituições que oferecem oportunidades formais de aprendizagem, como de histórias de comunidades e situações em eu a aprendizagem informal se desenvolve” (GOODSON, 2007, p 250).  O currículo e a aprendizagem são narrativas que também se constroem no percurso, em contraposição às narrativas prontas, definidas previamente nos sistemas convencionais de ensino.  

A pessoa motivada para aprender consegue evoluir mais e desenvolver um projeto de vida mais significativo.  Por isso, além de saber contar histórias e estimular os alunos a que contem suas histórias, é importante que os ajudemos a perceber que a vida é uma grande história que vale a pena ser vivida e que a vamos construindo em capítulos sucessivos: crianças, jovens, adultos e idosos.  Isso amplia enormemente o potencial motivador para viver, e facilita a percepção de que, no meio de múltiplas pequenas histórias, estamos construindo uma narrativa silenciosa que as integra em uma sequência significativa. Costumamos dar muita mais ênfase a conteúdos específicos do que à construção desta narrativa integradora de vida. O projeto de vida é a grande história que precisa ser estimulada em cada aluno pelos adultos. 

Professores e pais, nas escolas inovadoras, transmitem mensagens fundamentais para as crianças: “Persigam seus sonhos” e os ajudam a realizá-los (orientação, apoio),      mesmo que depois mudem. O maior desafio que temos é aprender a transformar-nos em pessoas cada vez mais humanas, sensíveis, afetivas e realizadas, vivendo de forma simples, andando na contramão de muitas visões materialistas, egoístas e deslumbradas com as aparências. De pouco adianta saber muito, se não saímos do nosso egoísmo nem praticamos o que conhecemos.
Infelizmente muitos só navegam na superfície dos acontecimentos, sem construir um sentido mais profundo para sua existência; desenvolvem intuitivamente seus projetos, muitas vezes de forma descontínua, fragmentada, não sistemática. Permanecem, às vezes, no nível da subsistência, de garantir a sobrevivência, de percepção no senso comum e de busca de satisfações sensoriais.  Com uma orientação competente podem ampliar sua visão de mundo, diminuir seus principais medos e obstáculos e construir um futuro mais livre e realizador.

Algumas referências:
Milena MASCARENHAS.  Aula de projeto de vida prepara jovem para desafios.
GOODSON, Ivor.  Currículo, narrativa e o futuro social. Revista Brasileira de Educação v. 12 n. 35 maio/ago. 2007
MORAN, Jose Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 5ª ed. Campinas, Papirus, 2015.
ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. Lisboa, Morais, 1987.






[1] Milena MASCARENHAS.  Aula de projeto de vida prepara jovem para desafios.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Encontros com a Educação / José Moran Vídeo _Sesc (Primeira Parte)



O uso das novas tecnologias e das metodologias ativas na Educação foi o tema da entrevista com o professor e pesquisador espanhol José Moran. “O desafio das escolas é caminhar para modelos curriculares inter e transdisciplinares mais flexíveis e integradores. Há uma dificuldade enorme da escola de sair do modelo tradicional, mas isso precisa ser alterado. O mundo inteiro, não só o Brasil, está revendo seus currículos e metodologias, pois o modelo atual não é suficiente para esse aluno que está aí, aprendendo em um mundo mais híbrido, complexo e móvel”.


terça-feira, 11 de agosto de 2015

Educação Híbrida: o futuro para a aprendizagem



 Por Andréa Antunes
 O termo híbrido, que se refere a elementos com diferentes composições, está sendo inserido na Educação. Para alguns especialistas, é exatamente pela mistura que passa o caminho do aprendizado. É o que alguns estão chamando de Educação Híbrida: um modelo que mistura diferentes formas de ensinar e aprender. Um dos que defendem a ideia é o espanhol, naturalizado brasileiro, José Moran. 
Professor (aposentado) de Novas Tecnologias na USP, cofundador do Projeto Escola do Futuro da universidade e coordenador de alguns programas de educação semipresencial e a distância, Moran acredita que é preciso combinar as diversas maneiras de ensino e aprendizagem. “Aprendemos melhor quando combinamos três processos de forma equilibrada”, diz ele, que é formado em Filosofia e doutor em Comunicação pela USP. 
Dentro dessa linha, Moran acredita que é preciso flexibilizar currículos, criar modelos pedagógicos menos engessados e mais livres. “Trabalhar com projetos deve ser uma política educacional prioritária. Aprendemos muito mais praticando e refletindo do que só explicando”, afirma.  Moran esclarece ainda que nesse novo modelo o professor precisa focar menos nas informações e mais nas habilidades e desafios dos alunos. De passagem pelo Rio de Janeiro, onde participou do 10º Congresso Rio de Educação, Moran deu a seguinte entrevista:

Recentemente, o Senhor publicou o artigo “Aprender e ensinar com foco na Educação Híbrida”. O que seria a Educação Híbrida?A Educação Híbrida destaca que existem diferentes formas de ensinar e de aprender, que podem ser integradas e combinadas. Podemos combinar tempos e espaços individuais e grupais, presenciais e digitais, com maior ou menor supervisão. Aprendemos melhor quando combinamos três processos de forma equilibrada: a aprendizagem individual: cada um pode aprender o básico por si mesmo (aprendizagem prévia, aula invertida), com pouca interferência direta do professor;  aprendemos mais uns com os outros (aprendizagem entre pares, através de diferentes atividades, grupos, redes); e a aprendizagem mediada por pessoas mais experientes (professores, orientadores, mentores). Uma das formas de misturar esses três processos é através da aula invertida: O básico o aluno estuda antes ou no seu ritmo. As atividades de grupo e de aprofundamento podem ser feitas depois para ir além do que conseguimos isoladamente. O híbrido acrescenta também a integração entre os momentos e atividades presenciais e os digitais.

O que seria uma aula invertida?
Aula invertida significa basicamente que o aluno estuda antes os materiais básicos e os aprofunda depois em classe com a orientação do professor e a colaboração dos colegas. Pode ser feita de várias formas.

O desenvolvimento da tecnologia mudou o mundo, mas na Educação, ainda estamos no século XIX. Estamos atrasados no uso das tecnologias no processo Educacional?   O que pode ser feito para resolver essa questão? Podemos aprender com os que estão fazendo de forma diferente. Há muitos grupos propondo currículos mais flexíveis, mais personalizados; há gestores corajosos e professores que mudam suas práticas. Mostrar as experiências bem-sucedidas é um incentivo para os que estão indecisos, que são muitos. Os bons exemplos estimulam, motivam, mostram caminhos. As mudanças são progressivas, e sem volta, mesmo que demorem muito para se tornarem majoritárias.

O Senhor também defende uma Educação Humanista. O que seria isso na sua visão?Educação é o caminho principal para sermos mais conscientes, abertos, afetivos e realizados. Humanizar é favorecer o encontro, o compartilhamento, a convivência profunda. Aprendemos mais quando nos encontramos, escutamos de verdade e compartilhamos nossas vidas.

As escolas de Ensino Básico devem trabalhar com aulas digitais? Por quê?Devem trabalhar com aulas com materiais e atividades físicos, analógicos, do dia a dia e também os digitais, sempre de forma dinâmica e integrada. No cotidiano vivenciamos essa mistura em todos os momentos. O celular é nossa ponte com o mundo digital. Competências digitais hoje são importantes para compreender o mundo e interagir nele. É importante fazer essa integração de forma equilibrada o tempo todo. A aula não é só o que acontece no espaço de uma sala, é um contato vivo com o mundo dentro e fora da sala de aula e as mídias digitais são importantes nesta ampliação de possibilidades de aprender sozinhos e em grupo, vendo, ouvindo, produzindo (novas histórias), divulgando, compartilhando.

Os professores estão preparados para lidar com essa nova realidade? Qual o papel do professor na Educação Híbrida?Muitos ainda não estão preparados. Têm medo de mudar, de experimentar, de sair da trilha conhecida. Mas não vale a pena insistir no modelo tradicional. O professor precisa focar menos informações e mais habilidades, desafios, aprender fazendo. Seu papel é mais de orientar, incentivar, problematizar do que informar. Ele está a maior parte do tempo ao lado dos alunos, circulando entre eles, não na frente, explicando tudo.

Como motivar o professor a participar de novos projetos?
Começando por projetos ligados à vida, a questões importantes, envolvendo-o em projetos socialmente relevantes e que podem melhorar a vida de pessoas perto dele, na comunidade. Também é importante mostrar o exemplo de outros professores que se realizam mais através de desafios concretos.  Há professores que não querem ou conseguem mudar, mas muitos outros se animam quando encontram apoio de colegas e diretores. Trabalhar com projetos deve ser uma política educacional prioritária. Aprendemos muito mais praticando e refletindo do que só explicando.

Muito se fala sobre a crise do Ensino Médio. Quais os maiores problemas desse segmento? O que deve ser mudado?O ensino médio precisa ter menos matérias e mais integração de áreas; focar mais aprender a partir de atividades, desafios, jogos significativos, onde o conteúdo é trabalhado nesses contextos práticos. Também é importante que os alunos desenvolvam seu projeto de futuro (profissional, pessoal), de vida, que desenvolvam as competências cognitivo-sócio-emocionais de forma consistente com orientação de mentores qualificados. Os alunos precisam entrar mais em contato com experiências sociais reais, sair mais da escola, entrar em contato com realidades diferentes e desenvolver atividades próximas aos seus interesses.

Como o Senhor acredita que será a escola do futuro?As escolas mais inovadoras apontam o futuro. Desenvolvem modelos pedagógicos mais integrados, sem disciplinas rígidas. Organizam o projeto pedagógico a partir de valores, competências amplas, problemas, projetos, equilibrando a aprendizagem individualizada com a colaborativa; redesenham os espaços físicos e os combinam com os virtuais com apoio de tecnologias digitais. As atividades são muito diversificadas, com metodologias mais ativas, que combinam o melhor do percurso individual e grupal. As tecnologias móveis e em rede permitem conectar todos os espaços e elaborar políticas diferenciadas de organização de processos de ensino e aprendizagem adaptados a cada situação, aos que são mais proativos e aos mais passivos; aos muito rápidos e aos mais lentos; aos que precisam de muita tutoria e acompanhamento e aos que sabem aprender sozinhos. Conviveremos nos próximos anos com modelos ativos não disciplinares e disciplinares com graus diferentes de “misturas”, de flexibilização, de “hibridização”.

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Qual é o Futuro da Escola? Ou Qual é a Escola do Futuro?

Entrevista sobre o Futuro da Escola, feita comigo e publicada no Blog Rioeduca.net, blog da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro no dia 3/08/2015




Rioeduca: Quais as tendências para a educação a curto e a longo prazo?


Moran: A curto prazo, os gestores e professores mais inquietos realizam mudanças progressivas nos seus métodos de ensino- mais ativos e menos transmissivos – envolvem mais os alunos, procuram conhece-los melhor, propõem atividades mais variadas, equilibram os roteiros mais individuais com os projetos mais em grupo, diminuindo o número de disciplinas e integram melhor as áreas de conhecimento através de projetos, desafios, jogos com apoio de tecnologias digitais. Os alunos produzem mais (aprendem fazendo e refletindo), compartilham mais (em classe e nas redes) e publicam mais (são mais autores, protagonistas). Infelizmente, a curto prazo, os sistemas educacionais no Brasil continuarão falando de mudanças estruturais e realizarão alguns avanços significativos, mas, no conjunto, serão parciais, insuficientes diante das necessidades reais.

No médio prazo, muitas mais escolas públicas e privadas desenvolverão modelos pedagógicos mais integrados, sem disciplinas ou com um mínimo de disciplinas. Organizarão o projeto pedagógico a partir de valores, competências amplas, problemas, projetos, equilibrando a aprendizagem individualizada com a colaborativa; redesenhando os espaços físicos e combinando-os com os virtuais com apoio de tecnologias digitais. As atividades serão muito mais diversificadas, com metodologias ativas, que combinem o melhor do percurso para cada aluno com a participação em diversos grupos internos e externos, presenciais e online. As tecnologias móveis e em rede permitem conectar todos os espaços e elaborar políticas diferenciadas de organização de processos de ensino e aprendizagem adaptados à cada situação, aos que são mais proativos e aos mais passivos; aos muito rápidos e aos mais lentos; aos que precisam de muita tutoria e acompanhamento e aos que sabem aprender sozinhos.

Conviveremos nos próximos anos com modelos ativos não disciplinares e disciplinares com graus diferentes de “misturas”, de flexibilização, de hibridização e de avanços reais.



Rioeduca: Em 2014, Horizon Report produziu um relatório sinalizando um cenário educacional com o uso dos dispositivos móveis. Qual seria a reflexão que devemos ter no uso do celular em ambiente escolar?


Moran: O celular é nosso meio mais utilizado para tudo no cotidiano: falamos, escrevemos, compartilhamos, pesquisamos o tempo todo. Em média o utilizamos mais de cinquenta vezes ao dia. Não podemos simplesmente proibi-lo. Ele pode ser um aliado importante para que alunos e professores pesquisem, contem histórias, compartilhem descobertas. Há atividades em que o celular deve ser silenciado, porque pode distrair, atrapalhar determinadas atividades. O equilíbrio e bom senso são fundamentais: nem proibir nem liberar “geral”. Se o celular é importante na vida, também tem que ser importante na aprendizagem. As escolas mais atentas desenvolvem atividades interessantes em que o seu uso faça sentido: gincanas, projetos, produção de vídeos, desafios, jogos dentro de projetos socialmente relevantes. Mas é difícil para a maior parte de professores e gestores sair da zona de conforto dos métodos convencionais de ensinar e adquirir o domínio pedagógico necessário para que a aprendizagem efetivamente aconteça. Os alunos também precisam ser educados para estas novas possibilidades e a ter limites.


Rioeduca: As aulas expositivas ainda atraem o interesse dos alunos atualmente?


Moran: Aprendemos muito mais praticando e refletindo do que só explicando. O básico o aluno estuda antes ou no seu ritmo. As atividades de grupo e de aprofundamento podem ser feitas depois para ir além do que conseguimos isoladamente. As aulas expositivas podem ser úteis, de vez em quando: curtas, bem preparadas e dialogadas (com questões, contribuições também dos alunos). Hoje fazem mais sentido só para iniciar uma nova etapa do conhecimento (motivação, cenário, possibilidades) e para a sua finalização (síntese da caminhada e resultados). No meio, o professor orienta as atividades e roteiros individuais de aprendizagem, as de grupo e as coletivas, onde ele é mais orientador. Infelizmente a maior parte dos professores e sistemas de ensino continuam mais focados na transmissão pronta de pequenas sínteses do que em engajar os alunos na busca dos seus próprios caminhos para, através de métodos mais ativos, conseguir chegar a suas próprias sínteses.



Rioeduca: Como o professor pode sair do modelo convencional de aula e experimentar pequenas inovações no seu cotidiano?

Moran: Quando há um clima de apoio e incentivo à mudança por parte da direção e coordenações é muito mais fácil sair da zona de conforto e atrever-se a fazer pequenas mudanças. Um gestor aberto procura os professores mais dispostos a praticas modelos mais ativos. Em todas as escolas há professores interessantes. É importante reuni-los, estimulá-los, diminuir o medo de errar, incentivá-los a que desenvolvam projetos integradores, socialmente relevantes e que tenham impacto na vida dos alunos e da comunidade. Também é importante mostrar o exemplo de outros professores que já tem experiências metodológicas com bons resultados. O compartilhamento das melhores práticas ajuda muito a que muitos se atrevam a fazer mudanças. Infelizmente uma parte não quer o consegue mudar. O foco principal deve ser ter bons gestores que apoiam a grupos de professores proativos, estimulando a todos a fazer avanços contínuos, a compartilhar os resultados, neutralizando os focos de resistência e passividade. Nenhuma mudança é feita de fora simples e fácil. Hoje não temos mais desculpas para não mudar. O modelo convencional não atende às necessidades de uma sociedade tão complexa e dinâmica como a que vivemos.



Rioeduca: Quais os desafios de implementar o ensino híbrido no ensino básico do Brasil?


Moran: O primeiro desafio é conhecer bem o que é ensino híbrido e todas as possibilidades para que não vire só uma moda ou um modelo fechado. Deixo como sugestão começar com dois textos meus: Aprender e ensinar com foco em metodologias ativas e Mudando a educação com metodologias ativas. Recomendo o curso Ensino Híbrido: Personalização e Tecnologia na Educação, que pode ser feito livremente. O desafio depois é sair da zona de conforto e fazer as experiências possíveis em cada escola, em cada situação concreta. O medo de que estas inovações deem errado imobiliza muitos professores. Vale a pena experimentar o ensino híbrido aos poucos, aprendendo com atividades simples e evoluindo para o desenvolvimento de atividades mais complexas. É o melhor caminho. Só não podemos permanecer na inércia e no convencional. A realização de ensinar com metodologias ativas é grande e aumenta ao perceber que obtemos melhores resultados





José Manuel Moran
O professor Moran é Doutor em Comunicação pela Universidade de São Paulo, professor de Novas Tecnologias na USP (aposentado) e um dos fundadores da Escola do Futuro. Coordena um grupo de pesquisa sobre Formação Inovadora de Professores no Instituto Singularidades de São Paulo.
É autor dos livros A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá (Papirus) e coautor de Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica (Papirus) e Educação a Distância: Pontos e Contrapontos(Summus).




quarta-feira, 24 de junho de 2015

Aprender e ensinar com foco na educação híbrida



A integração cada vez maior entre sala de aula e ambientes virtuais é fundamental para abrir a escola para o mundo e trazer o mundo para dentro da escola.

Artigo meu e da Lilian Bacich, publicado na Revista Pátio, em Junho.

Híbrido significa misturado, mesclado, blended. A educação sempre foi misturada, híbrida, sempre combinou vários espaços, tempos, atividades, metodologias, públicos. Agora esse processo, com a mobilidade e a conectividade, é muito mais perceptível, amplo e profundo: trata-se de um ecossistema mais aberto e criativo. O ensino também é híbrido, porque não se reduz ao que planejamos institucionalmente, intencionalmente. Aprendemos através de processos organizados, junto com processos abertos, informais. Aprendemos quando estamos com um professor e aprendemos sozinhos, com colegas, com desconhecidos. Aprendemos intencionalmente e aprendemos espontaneamente.

Falar em educação híbrida significa partir do pressuposto de que não há uma única forma de aprender e, por consequência, não há uma única forma de ensinar. Existem diferentes maneiras de aprender e ensinar. O trabalho colaborativo pode estar aliado ao uso das tecnologias digitais e propiciar momentos de aprendizagem e troca que ultrapassam as barreiras da sala de aula. Aprender com os pares torna-se ainda mais significativo quando há um objetivo comum a ser alcançado pelo grupo.

Colaboração e uso de tecnologia não são ações antagônicas. As críticas sobre o isolamento que as tecnologias digitais ocasionam não podem ser consideradas em uma ação escolar realmente integrada, na qual as tecnologias como um fim em si mesmas não se sobreponham à discussão nem à articulação de ideias que podem ser proporcionadas em um trabalho colaborativo. Nesse sentido, um simples jogo ou atividade realizada no formato digital pode servir como inspiração para uma ação integradora, e não individual.
O artigo completo está em: http://www.grupoa.com.br/revista-patio/artigo/11551/aprender-e-ensinar-com-foco-na-educacao-hibrida.aspx

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Eu tenho um sonho

Eu tenho um sonho de que mais pessoas consigam aprender a viver, desenvolvendo todo o seu potencial, construindo vidas que valham a pena, sendo mais livres e realizadas.

Eu tenho um sonho de que mais pessoas percebam que ser honestas traz mais benefícios do que “levar vantagem”; que compartilhar realiza mais do que possuir; que a solidariedade enriquece muito mais do que o egoísmo; que a simplicidade em tudo é muito mais gratificante do que o consumismo.

Eu tenho um sonho de que mais crianças cresçam em ambientes familiares e escolares acolhedores e estimulantes, onde consigam enfrentar desafios com criatividade e desenvolver todo o seu potencial intelectual, emocional e social.

Eu tenho um sonho de que todas as pessoas percebam que têm condições de serem mais livres, de ter expectativas mais altas e de realizar-se melhor em todas as dimensões.


Esse sonho é possível e depende de cada um de nós.

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Só tecnologia não basta (Entrevista)

POR PAOLA GENTILE

Nascido em Vigo, na Espanha, mas naturalizado brasileiro, o filósofo e educador José Manuel Moran foi professor de Novas Tecnologias da Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores da Escola do Futuro, em 1989, hoje um departamento ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da universidade (PRP-USP). Desde essa época, já se sabia que era inevitável a entrada na escola do computador e demais recursos decorrentes da informatização e do mundo globalizado e que revolucionaria os processos de ensino e aprendizagem. Por isso, não somente a universidade, mas também outros centros de formação e pesquisa investiram na criação e avaliação de estratégias educacionais mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação – as chamadas TICs.
Muito se projetou, sonhou e discutiu, porém pouca coisa mudou. Faltaram dois pontos essenciais: transformar a cultura escolar e preparar os professores para trabalhar com as novas ferramentas. Algumas escolas adquiriram equipamentos sofisticados de última geração, investiram em lousas digitais e demais equipamentos multimídia, mas poucas adaptaram a sua maneira de ensinar e de se organizar. “As normas e os ritos escolares continuam basicamente os mesmos – e sem essas mudanças não há inovação”, afirma Moran. Para ele, é um fato que a escola parou no tempo, embora haja um movimento – lento, também é fato – para buscar caminhos para essa instituição ingressar definitivamente no século XXI.