terça-feira, 15 de maio de 2012

O abismo que nos separa das crianças e como diminuí-lo

Cada geração avança até um determinado ponto no domínio das tecnologias. Geralmente há um descompasso na sua apropriação e na relação que a geração anterior mantém com a atual. A geração da TV conseguiu dominar algumas das funcionalidades do videocassete e da incipiente Internet, mas sente dificuldade em trabalhar com os inúmeros aplicativos das últimas tecnologias móveis. Já as crianças e os adolescentes parece que nasceram com um smartphone na mão, tamanha é sua facilidade em explorá-lo.

Os mais adultos - em geral - nos limitamos a um uso mais básico. E cada pessoa estabelece inconscientemente um limite para a aceitação  do novo. Conheço pessoas que mal utilizam o celular, ou só acessam o email ocasionalmente. O que está claro é que se abre um abismo entre as gerações mais antigas e as mais novas na sua relação com as tecnologias no cotidiano. Para nós mais velhos torna-se muito difícil acompanhar todos os aplicativos, as novidades e principalmente compreendê-las em profundidade e utilizá-las em todo o seu potencial.
Quando vejo um menino de dois anos descobrindo jogos escondidos no Iphone e trocando de aplicativos, de acordo com a conveniência, percebo o abismo que me separa dele, a agilidade e intuição que me faltam. Com o passar do tempo a sensação que temos é  de perder o passo, de distanciamento do mundo dos jovens, da sua linguagem,interesses, valores, percursos. Jogam alucinadamente com inimigos que se multiplicam na tela em fases intermináveis, Exibem habilidades perceptivas e motoras notáveis, muito superiores aos nossos passos trôpegos digitais. Mergulham horas em jogos, vídeos e conversas online. O lema parece ser: Tudo, agora, já. Todas as telas, todos os aplicativos, todas as linguagens, todas as festas, “youtubes” e “twitadas”.
Como ensinar a estas crianças que nasceram dentro desse mundo digital?
Eu valorizo o texto; eles valorizam a ação, o ritmo frenético de múltiplas imagens e flashes. Eu tenho uma caneta a mão e escrevo idéias; eles filmam tudo e o postam no Facebook. Eu organizo o pensamento em frases e parágrafos; eles postam sensações, vídeos, compartilham tudo, não temem vírus nem perigos.
Sabemos que precisamos mudar a forma de ensinar e de aprender, mas só conseguimos avançar até um certo ponto, até o ponto do encontro afetivo e de uma parte da linguagem que compartilhamos em comum. Há uma margem de incerteza e incomunicação com os pequenos. É muito difícil que nós, mais analógicos, consigamos uma comunicação profunda com as crianças digitais.
Num olhar mais aprofundado, percebo que ambos nos necessitamos. Minha experiência pode ajudá-los a enxergar além das aparências, a problematizar o que parece definitivo, a encontrar algum ordem no caos, a fazer sínteses diferentes. Por trás da agitação alucinada, há olhinhos interrogadores, inquietos, que buscam inúmeras respostas. Muitas – as principais – não as temos, mas podemos ajudá-los a pensar, a analisar, a perceber melhor, a desacelerar seu ritmo com toques de reflexão e paz.
O entusiasmo e generosidade deles são fantásticos para desbravar territórios desconhecidos, para trazer material muito rico de pesquisa, de observação, que confrontado com nossa capacidade de análise pode produzir resultados surpreendentes.
É importante ir até onde eles estão, conhecer o que lhes é importante, entender como navegam. Se conseguimos acompanhá-los nas formas de pesquisar, comunicar-se e divulgar-ser, poderemos partir de onde eles estão e ajudá-los a evoluir, a degustar outros sabores e ritmos, a descobrir outros mundos diferentes dos que eles valorizam. O acolhimento afetivo é o caminho para encontrar os melhores percursos para chegar às suas mentes e corações. A aproximação ao mundo deles nos ajudará a encontrar atividades, recursos e desafios que façam sentido para nossos alunos e também para nós.
Nós tentamos mudar a escola, mas eles a redesenharão, quando forem adultos, a partir da riqueza de experiências de aprender juntos conectados.  Somos uma geração ponte entre modelos industriais consolidados no passado e outros mais flexíveis que estamos construindo penosamente aos poucos até que eles, já nascidos neste novo mundo, concretizem suas experiências acumuladas de aprendizagem digital em processos organizacionais muito mais próximos da sua sensibilidade, com práticas mais  coerentes e significativas, que façam sentido no mundo em que eles sempre viveram, tão diferente de como nós aprendemos.

domingo, 18 de março de 2012

Tablets para todos conseguirão mudar a escola?

Muitos correm atrás de receitas milagrosas para mudar a educação. Se fossem simples, já as teríamos encontrado há muito tempo. Educar é, simultaneamente, fácil e difícil, simples e complexo. Os princípios fundamentais são sempre os mesmos: Saber acolher, motivar, mostrar valores, colocar limites, gerenciar atividades desafiadoras de aprendizagem. Só que as tecnologias móveis, que chegam às mãos de alunos e professores, trazem desafios imensos de como organizar esses processos de forma interessante, atraente e eficiente dentro e fora da sala de aula, aproveitando o melhor de cada ambiente, presencial e o digital.

Algumas questões que serão cada vez mais debatidas a partir de agora são: Por que tudo tem que acontecer dentro da sala de aula, em horários e ritmos predeterminados? Como ensinar numa sala onde os alunos acessam qualquer informação ao vivo? O que fazer nos ambientes digitais e nos presenciais? Como organizar um currículo inovador com alunos que possuem redes informais de aprendizagem e de comunicação tão interessantes?

Algumas ilusões de mudança

Há uma expectativa crescente de que agora a escola mudará rapidamente. Já vimos esse filme muitas vezes. Quando participei no começo dos noventa do projeto Escola do Futuro da USP, imaginava que a estas alturas do século XXI já teríamos escolas muito diferentes, currículos inovadores, flexibilidade em organizar os percursos de cada um. Mas constatamos que as mudanças foram, em geral, mais periféricas do que profundas.

Outra ilusão é a de que entregar tablets e netbooks para professores e alunos provocará uma grande revolução. Gostaria que fosse assim. Sem dúvida é um avanço promissor. Mas se depositarmos muita esperança nessas políticas quantitativas, poderemos frustrar-nos rapidamente. As tecnologias trazem muitas possibilidades, mas, sem ações de formação sólidas, constantes e significativas, boa parte dos professores tende, após a empolgação inicial, a um uso mais básico, conservador - repositório de informações, publicação de materiais - enquanto os alunos podem seguir utilizando-as para inúmeras formas e redes de entretenimento,como jogos, vídeos e conversas online.

Desafios que os tablets trazem

A chegada das tecnologias móveis à sala de aula traz tensões, novas possibilidades e grandes desafios. As próprias palavras “tecnologias móveis” mostram a contradição de utilizá-las em um espaço fixo como a sala de aula: elas são feitas para movimentar-se, para levá-las para qualquer lugar, utilizá-las a qualquer hora e de muitas formas.

Como conciliar mobilidade e espaços e tempos previsíveis? Por que precisamos estar sempre juntos para aprender? A escola precisa entender que uma parte cada vez maior da aprendizagem pode ser feita sem estarmos na sala de aula e sem a supervisão direta do professor. Isso assusta, mas é um processo inevitável. Em lugar de ir contra, por que não experimentamos modelos mais flexíveis? Por que obrigar os alunos a ir todos os dias repetir os mesmos rituais nos mesmos lugares? Não faz mais sentido. A organização industrial da escola em salas, turmas e horários é conveniente para todos – pais, gestores, professores, governantes – menos para os mais diretamente interessados, os alunos. Ter todos os alunos dentro de um espaço previsível todos os dias dá segurança, tranqüilidade para os adultos – os filhos estão protegidos, os pais podem se dedicar aos seus trabalhos, os professores e funcionários se organizam em horários fixos.

A escola não muda por inércia e por conveniência. Poderíamos ensinar e aprender somente indo dois ou três dias por semana a uma escola e continuar aprendendo através das inúmeras possibilidades dos ambientes online. E o que faríamos com os filhos no restante do tempo? E como orientar todo o processo de aprendizagem a distância? Como transformar isso em horas aula no currículo? Como gerenciar –econômica e didaticamente – esses horários virtuais? Por isso a orientação no mundo permanece no sentido contrário: aumenta-se o número de horas que os alunos permanecem na escola (tempo integral) e continua-se colocando como modelo de educação o os países nórdicos, que valorizam muito mais o professor (importantíssimo) e resolvem tudo na sala de aula com poucas tecnologias (aqui está um dos desafios da mudança).

Viveremos nestes próximos anos um rico processo de aprendizagem na sala de aula focando mais a pesquisa em tempo real, as atividades individuais e grupais online, mudando lentamente as metodologias de transmissão para as da aprendizagem colaborativa e personalizada. Aos poucos perceberemos que não faz sentido confinar os alunos na sala de aula para aprender. Podemos organizar uma parte importante do currículo no ambiente digital e combiná-lo com as atividades em sala de aula de forma que o projeto pedagógico de cada curso integre o presencial e o digital como componentes curriculares indissociáveis. O digital não será um acessório complementar, mas um espaço de aprendizagem tão importante como o da sala de aula. Evitaremos a esquizofrenia atual de manter o mesmo número de aulas presenciais de sempre e ainda pedir para professores e alunos que utilizem o ambiente digital como repositório de materiais, espaço de debate e de publicação.

Com o tempo fará sentido para a maioria repensar os horários, os espaços e as formas de organizar os processos de ensino e aprendizagem. É uma questão de amadurecimento e de profundo intercâmbio de experiências para construir propostas mais arrojadas, testadas e aceitas. Demorará mais do que gostaríamos, mas a chegada das tecnologias móveis à sala de aula é como um cavalo de Tróia. Em curto prazo parece que pouco vai mudar; mas em médio prazo nos obrigará a reorganizar o tempo, o espaço e a forma de ensinar e aprender. Os desafios a nossa frente são fascinantes.

Texto disponível no meu site www.eca.usp.br/prof/moran/tablet.pdf




















quinta-feira, 1 de março de 2012

Conviver com pessoas muito especiais

Ao longo da vida encontramos e convivemos com muitas pessoas diferentes, na família, na escola, no trabalho, no lazer. Na juventude estamos abertos a muitas pessoas e grupos diferentes. É uma fase de experimentação. Aos poucos afunilamos as escolhas, reduzimos o número de amigos, mantemos relações mais estáveis, em geral de casal com filhos. Eventualmente descobrimos algumas pessoas diferenciadas, com as quais nos identificamos rapidamente, que suscitam nossa admiração. Elas se incorporam ao nosso círculo de amigos, trazendo vitalidade, frescor, ampliando nossos horizontes.

A vida, de repente, pode nos surpreender com o encontro inesperado com uma pessoa muito especial, que intuitivamente percebemos que vale muito a pena conhecer mais profundamente, conviver intimamente e torná-la nossa parceira exclusiva. Só que dar esse passo pode implicar em realizar mudanças profundas, como sair de relacionamentos estáveis anteriores, avaliar o que será melhor para os filhos, ter coragem para enfrentar o novo e o risco de que o relacionamento se esvaia com o tempo.

Não há garantia antecipada de que uma decisão será melhor que outra, mas quando você encontra essa pessoa, a assume completamente e quando o tempo reafirma a validade dessa escolha, a vida ganha uma dimensão de plenitude desconhecida, tudo adquire um sentido mais profundo, ao desenvolverem os dois uma cumplicidade maravilhosa, abrangente, se ajudando, completando, numa cumplicidade e sinergia crescentes.

Num mundo em que passamos tanto tempo convivendo com pessoas, principalmente no trabalho e na Internet, em que predominam mais as aparências do que a realidade, nossa vida se ilumina quando conseguimos ter um grupo de pessoas nas quais confiamos e com as quais podemos contar sempre, ficar a vontade, sem fazer cerimônia, mostrando-nos como somos. A vida vale muito a pena com amigos fieis e principalmente no relacionamento com um companheiro(a) em clima de total confiança.

Realização profissional, sucesso econômico e social são objetivos interessantes, mas a realização maior se dá na capacidade de desenvolver nossa autonomia, liberdade integrada com relacionamentos verdadeiros, confiáveis e estáveis com pessoas que nos ajudam a crescer num clima de confiança e respeito.

Muitos dizem que isso é utópico, que os relacionamentos hoje são muito interesseiros e descartáveis. Muitos focam demais as redes sociais, como espaços de convivência. Tudo depende do que queremos construir, dos valores que cultivamos, das atitudes profundas com que enfrentamos a vida.

Se somos pessoas que evoluem sempre, em todas as dimensões, atrairemos pessoas mais interessantes e maduras emocionalmente. Se somos dependentes e infantis, atrairemos também pessoas mais dominadoras e complicadas, o que ampliará nossas deficiências e dependências e dificultará o caminho para a nossa realização.

Podemos aprender a fazer melhores escolhas com o tempo, sendo mais observadores, não entrando de cabeça em qualquer relacionamento ou amizade, avaliando realisticamente todas as situações que se nos apresentam no dia a dia e nas redes sociais. É um mix de intuição inicial com avaliação continuada, indispensáveis ambas para tomar decisões mais confiáveis em um campo tão movediço como o dos sentimentos e afetos.


Quando eu evoluo, começo a sintonizar com pessoas que se encontram em patamares, movimentos e valores semelhantes. Se sou coerente, verdadeiro na comunicação com os demais, encontrarei algumas pessoas – entre muitas que não nos apreciarão – que compartilharão também dessas mesmas atitudes e postura diante da vida. Haverá uma crescente sintonia, compartilhamento, confiança.
A vida vale muito a pena quando conseguimos crescer em autonomia, liberdade pessoal e em convivência íntima com pessoas confiáveis, interessantes e especiais.

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Caminhar na incerteza, com escolhas mais interessantes

Na vida caminhamos realizando seguidas decisões, escolhas ou omissões (deixando tudo como está). Como a maior parte das decisões é feita de forma automática ou repetitiva, esquecemos quantas outras opções, se assumidas, poderiam mudar profundamente aquilo que hoje somos. 

A maior parte das escolhas definem um estilo e confirmam a mesma direção. e procuramos uma vida calma e sossegada faremos escolhas que não nos perturbem, que nos deixem mais leves, que não nos estressem. Se, pelo contrário, procuramos novidades, sair da rotina, viver no limite, no agito, faremos escolhas cheias de adrenalina, novidades, surpresas, desafios. Não se trata de avaliar o que é melhor de fora. Cada pessoa, com sua história, genética e circunstâncias, vai definindo o estilo de vida que acredita ser o melhor para ela. 

Cada escolha nos abre mundos e nos fecha outros.  Na vida afetiva, encontramos pessoas interessantes que poderiam levar-nos a vivências e situações muito diferentes das que mantemos habitualmente. A dúvida que sempre fica é: o que é melhor, arriscar ou manter, permanecer ou mudar?  Há ganhos e perdas em qualquer uma das decisões e nenhuma garantia de realização plena. 

Se nos sentimos atraídos por alguém e vamos enfrente, essa decisão terá conseqüências: poderemos viver um tórrido romance, uma paixão fulminante, mas comprometer uma relação mais estável, descuidar compromissos profissionais ou ter uma profunda decepção depois da empolgação inicial.  Se nos sentimos atraídos e deixamos passar a oportunidade, sempre ficará a dúvida do que poderia ter acontecido, de que guinada poderia ter dado nossa vida, principalmente se o relacionamento atual se encontra em uma fase morna, pouco estimulante.

Se somos muito atrevidos poderemos ganhar muito e perder muito também. Se somos muito retraídos, se arriscamos pouco, deixaremos passar inúmeras oportunidades de crescer, de relacionar-nos, de aprender, em troca de uma vida mais sossegada.

Na vida profissional com freqüência encontramos novas oportunidades, desafios. E aí também uns optam pelo desafio e outros pela segurança. Ambas têm suas vantagens e desvantagens, ganhos e perdas. Não há garantia em nenhuma das escolhas, mas sempre fica a dúvida de se fizemos as melhores. Às vezes só percebemos a longo prazo as consequências de uma decisão precipitada ou de não ter arriscado, quando perdemos tempo, realização, pessoas, dinheiro; quando constatamos que ficamos para trás, que outros evoluíram mais rápido; mas principalmente quando nos sentimos sufocados, diminuídos, infelizes.

Se queremos ganhar muito dinheiro, não mediremos esforços para chegar lá; mudaremos de emprego se nos oferecem um salário maior, deixaremos de conviver mais com a família diante de uma oferta tentadora, poderemos entrar em esquemas que facilitem a corrupção, o caminho mais fácil para o enriquecimento. Uma vez escolhido o caminho da corrupção, será difícil voltar atrás; aceitaremos mais e mais favores e propinas, com desculpas e justificativas cada vez mais irracionais. Se escolhemos viver com honestidade, assumiremos conseqüências também. Veremos  outros serem mais favorecidos ao nosso lado, enriquecerem mais de pressa, terem mais poder. Muitas escolhas seduzem mais de imediato, mostram ganhos mais palpáveis, são mais atrativas do que manter uma postura ética.


Hoje é muito fácil deslumbrar-se com aparecer, ser vistos,  ser reconhecidos. Quem faz essas escolhas, pode conseguir resultados quase imediatos, mensuráveis. Podemos contabilizar quantos amigos temos no Facebook, quantos seguidores no Twitter, quantas vezes somos citados, apoiados, publicados. Esse fascínio pode levar a uma obsessão patológica, a querer mais e mais, a forçar a barra e prejudicar outras pessoas.

É muito difícil fazer opções coerentes, equilibradas, amadurecidas. Há uma pressão social por resultados fáceis, pelo sucesso visível, pela ostentação deslumbrada,  que desvaloriza quem vai na contramão, quem segue um estilo de vida num ritmo mais lento, sereno. Muitos o julgarão uma pessoa pouco batalhadora, acomodada e pouco empreendedora.

Há muitos caminhos possíveis, mas costumamos repetir a maior parte das escolhas;  tendemos a fechar-nos nos mesmos lugares, com pessoas semelhantes, com atividades previsíveis. Facilita a rotina, a gestão do cotidiano, mas também traz previsibilidade e desgaste.

Apesar da genética, das circunstâncias e do passado, sempre podemos rever uma parte das nossas escolhas e dar alguns saltos, fazer algumas mudanças. Cada pequena nova escolha poderá ajudar-nos a dar novos passos, mais largos, em direção a uma realização maior pessoal, profissional e social.

quarta-feira, 18 de janeiro de 2012

Diferenciais de uma nova escola

Uma escola é nova quando tem educadores, materiais, atividades e ambientes de aprendizagem - físicos e virtuais - acolhedores, estimulantes e desafiadores para os alunos.

Profissionais acolhedores: diretores, coordenadores, professores que se preocupam com os alunos, que os conhecem, conversam, interagem. Uma escola é nova quando mantém a mesma equipe unida por bastantes anos, quando se percebe que todos se apóiam e há uma gestão democrática, proativa e empreendedora. Profissionais bem preparados, atualizados, evoluídos. Bem remunerados, escolhidos entre os melhores e que gostam de ser educadores.
Ambientes acolhedores: aconchegantes, afetivos, equipados. Salas de aula multifuncionais, que se modificam rapidamente para diferentes atividades. Salas de aula conectadas com tecnologias móveis. Escola que equilibra atividades presenciais e virtuais, tecnologias simples e tecnologias digitais, onde se aprende também em casa, no bairro, nas comunidades de prática, nas redes sociais, com ativa participação dos pais.

 Uma escola onde os materiais principais estão disponíveis no ambiente digital e são apreendidos de múltiplas formas, com técnicas diferentes, atrativas, simples e complexas. Escola que estimula múltiplas leituras de múltiplos textos de múltiplas formas: impressos, digitais, multimídia; simples e complexos; com histórias e conceitos; multitextos significativos contextualizados, compartilhados, reinterpretados, co-produzidos presencial e digitalmente, publicados, vivenciados. 
 
 Conteúdos articulados a muitos desafios, projetos inovadores, com muita ênfase em pesquisa, compartilhamento, discussão, produção, sínteses, práticas refletidas, colaborativas, com flexibilidade de espaços e tempos, de momentos presenciais e virtuais, com atividades grupais e individuais, com bastante feedback, atenção, cuidado.

 Uma escola que integra o melhor do presencial e do virtual, que trabalha primeiro as atividades através de ambientes e aplicativos digitais e que aprofunda e finaliza cada assunto mais importante na sala de aula, com os professores-orientadores.

 Uma escola em que as aulas com tablets, netbooks e smartphones são focadas, além de temas relevantes, em projetos colaborativos, onde os alunos aprendem juntos, realizam atividades em ritmos e tempos diferentes. Os professores descem do pedestal e desempenham fundamentalmente o papel de orientadores. Saem do centro, do estrado, da lousa para circular, orientando os alunos individualmente e em pequenos grupos nas atividades de pesquisa, análise, apresentação, contextualização e síntese, de forma semi-presencial.

 Uma escola pluralista num mundo complexo, que mostra visões, formas de viver e diferentes possibilidades de realização pessoal, profissional e social, que nos ajudem a evoluir sempre mais na compreensão, vivência e prática cognitiva, emotiva, ética e de liberdade.
 Essa nova escola ainda está em construção, mas é urgente nosso envolvimento em concretizá-la, para conseguir atrair as crianças e os jovens, que até agora só conheceram, na educação formal, modelos analógicos, anacrônicos e envelhecidos.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Tablets e netbooks na educação

Há uma pressão enorme para incluir as tecnologias móveis na educação. Alguns colégios e instituições superiores entregam tablets ou netbooks para os alunos como parte do material escolar. Há uma tendência à substituição dos livros de texto por conteúdos digitais dentro de tecnologias móveis. Uma justifica é diminuir de peso das mochilas dos alunos; outra, baratear do acesso ao conteúdo não impresso (além de ser ecologicamente mais correto); também é visto como importante oferecer recursos de pesquisa, de leitura e de comunicação próximos dos alunos, dos ambientes digitais que frequentam, para motivá-los mais a aprender.

Este é um campo minado de discussões, decisões, interesses. Qualquer análise ainda é parcial, provisória, precária. Mesmo assim, esta é a percepção que tenho no momento.

As tecnologias móveis trazem enormes desafios, porque descentralizam os processos de gestão do conhecimento: podemos aprender em qualquer lugar, a qualquer hora e de muitas formas diferentes. Podemos aprender sozinhos e em grupo, estando juntos fisicamente ou conectados. Na medida que entram na sala de aula o seu uso não pode ser só complementar. Podemos repensar a forma de ensinar e de aprender, colocando o professor como mediador, como organizador de processos mais abertos e colaborativos.

No Brasil, os smartphones e os tablets ainda estão numa fase de experimentação dentro das escolas. Trazem desafios complexos. São cada vez mais fáceis de usar, permitem a colaboração entre pessoas próximas e distantes, ampliam a noção de espaço escolar, integrando os alunos e professores de países, línguas e culturas diferentes. E todos, além da aprendizagem formal, têm a oportunidade de se engajar, aprender e desenvolver relações duradouras para suas vidas. Ensinar e aprender podem ser feitos de forma muito mais flexível, ativa e focada no ritmo de cada um.

A tela sensível ao toque permite uma navegação muito mais intuitiva e fácil do que com o mouse. Crianças pequenas encontram os jogos e aplicativos muito mais rapidamente. Com o barateamento progressivo a partir de agora, estarão muito mais presentes dentro e fora da sala de aula. Permitem experimentar muitas formas de pesquisa e desenvolvimento de projetos, jogos, atividades dentro e fora da sala de aula, individual e grupalmente. O professor não precisa focar sua energia em transmitir informações, mas em disponibilizá-las, gerenciar atividades significativas desenvolvidas pelos alunos, saber mediar cada etapa das atividades didáticas. Poderemos ensinar e aprender a qualquer hora, em qualquer lugar e da forma mais conveniente para cada situação. Os próximos passos na educação estarão cada vez mais interligados à mobilidade, flexibilidade e facilidade de uso que os tablets e ipods oferecem a um custo mais reduzido e com soluções mais interessantes, motivadoras e encantadoras. Não podemos esquecer que há usos dispersivos. É cada vez mais difícil concentrar-se em um único assunto ou texto, pela quantidade de solicitações que encontramos nas tecnologias móveis. Tudo está na tela, para ajudar e para complicar, ao mesmo tempo.

As tecnologias móveis desafiam as instituições a sair do ensino tradicional em que os professores são o centro, para uma aprendizagem mais participativa e integrada, com momentos presenciais e outros a distância, mantendo vínculos pessoais e afetivos, estando juntos virtualmente.

As inovações mais promissoras encontram-se em escolas que têm tecnologias móveis na sala de aula, utilizadas por professores e alunos. Os programas de um computador ou tablet por aluno, ainda em fase experimental em centenas de escolas municipais, estaduais e particulares, sinalizam mudanças muito importantes na forma de ensinar e de aprender. As aulas são mais focadas em projetos colaborativos, os alunos aprendem juntos, realizam atividades diversificadas em ritmos e tempos diferentes. O professor muda sua postura. Ele sai do centro, da lousa para circular orientando os alunos individualmente e em pequenos grupos. As aulas de 50 minutos não fazem sentido, porque dificultam a sequência de tempos para atividades de pesquisa, análise, apresentação, contextualização e síntese.



Tablets ou netbooks?

No momento atual é difícil escolher uma das duas ferramentas sem perder algo. Os tablets atraem mais, são mais intuitivos, fáceis de manusear, de ler. Aos poucos chegarão com comandos de voz, sem precisar tocar na tela para acontecer o que desejamos conseguir. Os netbooks aos poucos são mais rápidos, leves e com mais recursos. A tendência é a dos ultrabooks. Os tablets não privilegiam o ato de escrever, fundamental para aprender. Têm teclado, mas ainda não está totalmente integrado, de forma fácil para quem escreve muito. Percebo que é uma questão de pouco tempo para termos no mercado tablets que incorporem os melhores recursos dos notebooks mais poderosos. Na minha opinião não deveríamos, atualmente, optar por uma ou outra ferramenta exclusivamente, mas ter ambas disponíveis para os alunos, permitindo a escolha pessoal, de acordo com o perfil de cada um e de como vai utilizá-los mais. Os tablets e smartphones são mais avançados, inovadores e chamativos. Os notebooks procuram incorporar alguns dos avanços de ambos. É uma decisão ainda em aberto, aguardando a evolução integradora das tecnologias móveis.

 

Alguns aplicativos para tecnologias móveis

Os aplicativos cada vez mais se adaptam aos principais sistemas operacionais, abertos e fechados. Os aplicativos mais interessantes que conheço, principalmente para smartphones, ajudam no aprendizado de línguas. Cursos inteiros podem ser acompanhados por podcast ou vídeos, com testes adequados e ambientes de colaboração como os que acontecem em redes sociais. Gosto, por exemplo, do LearnEnglish do British Council com histórias em capítulos, jogos, desafios e integração com Facebook e Twitter. Outro semelhante é o ESLPod com histórias do cotidiano e explicações das principais expressões em ritmos diferentes. Tem aplicativos como o Stitcher que organiza os programas de rádio e podcast por temas e línguas e são extremamente variados e atualizados e podem ser acessados a qualquer hora e de qualquer lugar. Tem o Google Earth e todas as possibilidades de utilização principalmente em Geografia, o YouTube com a imensa variedade de vídeos, de canais e de facilidade de postagem de novos vídeos feitos pelos alunos. O Google Sky Map – ao apontar o smartphone para o céu e o Google Sky Map mostrará as estrelas, planetas, constelações e muito mais para ajudar a identificar os objetos celestes em vista. O aplicativo mais conhecido é o Wikipedia - da maior enciclopédia online colaborativa. Também é interessante o Celeste CE - Basta apontar a câmera e ver exatamente onde cada objeto do Sistema Solar está localizado de dia ou noite. O My Class Schedule - Aplicativo para que o estudando organize horários de estudo, notas e todas as informações do seu curso. Tem os aplicativos que utilizam a localização por GPS e que permitem interagir com outras pessoas naquilo que se precisa, enviar fotos, trocar vídeos, desenvolver projetos juntos. A tendência é a de termos muitas mais soluções para todas as nossas necessidades. O que nunca pode faltar é a vontade e o gosto por aprender.



Conclusão

Todas as tecnologias nos ajudam e ao mesmo tempo nos complicam. Depende de como as integramos no que pretendemos. Elas podem nos ajudar a aprender e a evoluir, mas também favorecem a dispersão nas múltiplas telas, aparelhos, aplicativos, redes. Ajudam a comunicar-nos melhor, mas também a desfocar-nos, distrair-nos, tornar-nos dependentes. A educação é um processo rico e complexo de ajudar a aprender, a evoluir, a ser pessoas livres. As tecnologias fazem parte do nosso mundo, nos ajudam, mas ainda precisamos experimentar muito para encontrar caminhos de integração que nos permitam avanços significativos na escola e na vida.

























segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Aprendendo a evoluir sempre mais

Vejo a vida como um contínuo e fascinante processo de crescimento em todas as dimensões: sensoriais, emocionais, intelectuais, morais.

Quanto mais vivemos, podemos avançar no desenvolvimento de maior autonomia e liberdade em todos os campos; podemos ser mais humanos, acolhedores, compreensivos com as muitas situações que se nos apresentam.

De que vale aprendermos muitas coisas se não contribuem para que sejamos pessoas mais livres, abertas, realizadas?

Num mundo com tantas oportunidades sedutoras que podem tornar-nos dependentes é uma arte conseguir caminhar na direção de estágios superiores de libertação, de desenvolvimento de níveis mais complexos de percepção e de conseguir fazer escolhas mais interessantes em todos os campos.

É possível sermos pessoas com destaque em algumas áreas e pouco evoluídas em outras. Podemos ter uma compreensão muito rica da realidade e ao mesmo tempo baixa auto-estima ou pobreza emocional.

Apesar das inúmeras dificuldades e armadilhas que nos rodeiam, podemos escolher aprender a evoluir sempre mais, a sermos mais humanos, afetivos, compreensivos e realizados. Sempre podemos aprender a perceber de forma mais ampla, querer progredir mais, tornar-nos pessoas mais interessantes, abertas e integradas.

Por isso é importante perguntar-me: O que estou fazendo com a minha vida, nesta agitação incessante, onde é difícil achar tempo para tudo o que sonho?

Em que fase me encontro de crescimento, de autonomia e de realização? Estou avançando ou regredindo?


Há muitas formas de viver, com opções muito diferentes e contraditórias. Algumas nos oferecem recompensas imediatas mais palpáveis, financeiras, profissionais, de reconhecimento social. Outras trazem um outro tipo de sucesso, talvez menos deslumbrante, mas mais constante, abrangente, realizador no médio e longo prazos. Dependem de um investimento constante em manter uma visão mais ampla, integradora, na busca de um maior equilíbrio, coerência e humanização em todos os campos. É um processo contínuo, contraditório e, às vezes, sem resultados imediatos espetaculares.

Se nos mantivermos atentos e perseverantes, constataremos, no médio prazo, mudanças profundas na forma mais rica de ver o mundo, de saber enfrentar dificuldades em todos os setores, de conviver melhor com pessoas mais significativas e de fazer escolhas pessoais e profissionais muito mais desafiadoras e realizadoras. Teremos a convicção cada vez mais firme de que nossa vida – frágil, fugaz, imponderável - está valendo a pena e que nos traz muito mais realizações do que dificuldades.





sábado, 10 de dezembro de 2011

A aprendizagem que vale a pena

A educação é um processo gradual de aprender a discernir o que pode ajudar-nos a construir uma vida que valha a pena, entre tantas opções possíveis, que nos instrumentalize para ser mais livres, mais autônomos, mais realizados.

A educação nos ajuda a aprender a selecionar, avaliar e contextualizar o que é mais significativo, importante entre tantas informações que nos inundam sem parar, entre tantos sentimentos que despertam, entre tantos valores contraditórios. Aprender a desaprender, a deixar de lado o que já não nos serve mais, o passado que nos oprime, tolhe,a gerenciar melhor nossas escolhas pessoais, afetivas, profissionais cada vez mais coerentes, autênticas, desafiadoras e realizadoras.

A educação é um processo complexo, tenso, contraditório e permanente de tornar nossa vida mais rica, impactante e equilibrada entre conhecer, sentir, comunicar-nos e agir, ampliando nossa percepção de múltiplas camadas da realidade, nossa capacidade de acolher e amar, de enfrentar situações mais complexas, mais desafios e projetos.

O maior desafio que temos é aprender a transformar-nos em pessoas cada vez mais humanas, sensíveis, afetivas e realizadas, andando na contramão de muitas visões materialistas, egoístas, deslumbradas com as aparências. De pouco adianta saber muito, se não praticamos o que conhecemos.

A educação tem também uma dimensão claramente social, de aprender com a experiência dos outros, de inter-aprendizagens, de saber conviver melhor com as múltiplas diferenças de idades, ideologias, culturas, valores. Mas na educação é importante também a dimensão pessoal, de apoio ao desabrochamento das potencialidades de cada um, de oferecer condições para que cada pessoa tenha meios para progredir, para realizar-se, para viver uma vida digna a partir de alguns valores sociais.

A educação é válida quando consegue que mais pessoas se sintam motivadas intimamente a desejar ampliar seu conhecimento, sua sensibilidade, seus canais de comunicação, suas atitudes, práticas e valores em cada etapa das suas vidas.

Aprendemos pouco, quando só focamos uma das dimensões, como a profissional, quando só pensamos em ganhar dinheiro, ter muitos bens, ter mais poder. Aprendemos pouco quando nos acomodamos na rotina, na previsibilidade, em esquemas prontos e não acreditamos que possamos evoluir mais. Aprendemos pouco quando nos mostramos de um jeito diferente ao que percebemos, sentimos e acreditamos. Aprendemos pouco quando desistimos de perseverar no processo de crescer mais, de compreender melhor, de aceitar-nos plenamente, de tentar as mudanças possíveis em cada momento. Aprendemos pouco quando nos preocupamos excessivamente pelo que os demais pensam, pelo julgamento social, pelas aparências, por manter uma imagem que nos faz representar papéis, que nos desfigura em relação ao que somos e a como nos vemos.

A educação é eficaz quando nos ajuda a enfrentar as crises, as etapas de incerteza, de decepção, de fracasso em qualquer área e nos ajuda a encontrar forças para avançar e achar novos caminhos de realização.

A educação é eficaz a longo prazo, quando ao olhar para trás, conseguimos perceber que avançamos, que evoluímos passo a passo, no meio de contradições, desvios e incertezas e que nos mantivemos coerentes com nossos valores fundamentais pessoais, familiares, profissionais e sociais.

A educação é mais eficaz quando conseguimos fazer a ponte entre nossas expectativas e contradições, construindo uma identidade coerente, que integre o pessoal, o profissional e o social.



Fases diferentes de aprendizagem

Quanto mais avançamos em idade, mostramos de forma mais clara o que aprendemos de verdade, quem somos, o que é sólido e o que é superficial, o que permanece no meio das muitas etapas pelas que passamos, o que é autêntico e o que representação. Revelamos cada vez mais se somos pessoas evoluídas, medíocres ou complicadas.

Na infância, agimos principalmente em função de referências externas, das pessoas que mais convivem conosco – pais, familiares, docentes, amigos. Na juventude enfrentamos o deslumbramento das muitas descobertas em todos os campos, testamos nossos limites, buscamos definir nossa identidade, abrimos um leque amplo de vivências sensoriais, emocionais, intelectuais, existenciais, profissionais. Ainda é muito difícil comprovar o que é real, válido, testado, coerente, definitivo.

Na primeira fase da idade adulta realizamos escolhas mais personalizadas, permanentes, que nos definem em todos os campos – o intelectual, o emocional, o profissional. Já mostramos mais claramente nossa identidade, nossa personalidade, nossas idéias, emoções e valores. Mas ainda há uma margem de incerteza, de imprevisibilidade na permanência e acerto das escolhas. Muitas decisões podem ser justificadas por necessidades prementes como as econômicas, familiares, conjunturais, como não posso mudar de trabalho porque tenho muitas contas a pagar, ou não posso me separar porque os filhos são pequenos.

Na segunda fase da maturidade, aí sim percebemos o que aprendemos, o que construímos, o que nos identifica, o que é permanente e o que é transitório, o que tem valor e o que é superficial; a imagem que comunicamos e a que os demais percebem. É uma etapa de consolidação, mas também pode ser de mudança, de revisão de valores e atitudes. Podemos romper com modelos, situações que nos oprimem e buscar novos desafios, sermos pessoas mais livres e realizadas, mesmo num contexto de um progressivo declínio físico.

Enquanto uns avançam ao longo do tempo na qualidade da sua aprendizagem, dos desafios, outros parece que estacionam, que fazem só manutenção ou até regridem. “Vão vivendo”, contentando-se com as expectativas mínimas, com receitas repetidas, com o arroz e feijão básicos, sem buscar degustar tantos outros manjares possíveis.

Cada etapa da vida tem seu fascínio, seus motivos para gostar de aprender mais. Esse é um dos encantamentos da vida: poder evoluir, crescer, ser pessoas mais plenas, mesmo com muitas contradições, dificuldades e perplexidades. Vale a pena sempre manter a atitude positiva, ativa, curiosa, atenta de querer aprender sempre mais, de fazer a ponte entre o exterior e o interior, entre o social e o pessoal, entre o intelectual, o emocional e o comportamental.

Podemos transformar a nossa vida em permanente, paciente, afetuoso e emocionante processo de aprendizagem. Em todos os momentos, em todos os espaços, em todas as situações podemos aprender muito ou pouco, dependendo da atitude profunda com que as enfrentamos, da motiivação profunda que nos norteia.
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Do meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, Papirus, cap. 3, p. 73-74, texto revisto e ampliado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Aprender a ler e compreender no ritmo alucinante das informações online


Num mundo tão complexo, é necessário aprender a ler de muitas formas, de perspectivas diferentes, para poder entender o que se passa sob a superfície movediça dos múltiplos e incessantes acontecimentos, mensagens, telas, mídias.

Hoje aprendemos juntos, conectados, através de redes sociais. O intercâmbio é fascinante. Esse fluir contínuo da informação do Twitter ou Facebook é inebriante, porque nos coloca em contato instantâneo com múltiplos mundos, perspectivas, assuntos, pessoas. O perigo está na empolgação da fascinação do ritmo alucinante das mensagens e da falta de concentração e tempo para aprofundar as que são mais significativas. Boa parte do fluir informativo é redundante e banal; não vale a pena dedicar-lhe tanto tempo. Há muito narcisismo, deslumbramento, exibicionismo nas redes sociais, junto com contribuições relevantes, que são pérolas pontuais no meio de um deserto de areia movediça.

Quanta mais informação, mais difícil e complexo se torna o ato de ler e mais necessário se faz aprender a ler de muitas formas, integrando múltiplas linguagens e mídias, de forma muito mais rica e profunda.

Mais quantidade de informação, de telas, de acesso não significa normalmente mais qualidade, mais compreensão, mais aprendizagem. A pressa nos faz, com freqüência, aceitar os primeiros resultados de um site de buscas como os melhores, não os avaliando com cuidado, endossando pontos de vista discutíveis sem questioná-los.

Cada vez mais nos deixamos inundar por múltiplas solicitações informativas, muitas tão sedutoras quanto irrelevantes, que se sobrepõem a temas sérios que precisamos observar com mais cuidado e que correm o risco de fugirem, no meio de múltiplas distrações dos vários ambientes e telas que se sobrepõem continuamente no nosso dia a dia.
 
É fascinante encontrar sentido no aparente caos, captar a dinâmica dos movimentos, o que é permanente por trás da mutação. Esse é um dos desafios de hoje: conseguir acompanhar as múltiplas interfaces da informação e mergulhar nas suas entrelinhas, nas profundezas dos significados ocultos e escorregadios.

Ler depende, além do domínio técnico, de ter uma atitude curiosa e proativa diante da vida, do mundo, das pessoas. A curiosidade nos motiva a ler, a conhecer, a pesquisar. Ler é um prazer quando queremos saber mais, investigar mais, descobrir ângulos diferentes, indo além do óbvio.

Quanto mais informação disponível, mais complexo se torna o ato de ler. Primeiro, porque precisamos escolher o tempo todo, eliminando a maior parte do que se apresenta à nossa frente. Sempre estaremos acometidos pela dúvida da validade das escolhas feitas: Por que não ler outros textos, outras páginas? Quantas informações relevantes estamos excluindo quando teclamos novos clicks?

Após essa triagem constante, continua a dúvida: o que ler rapidamente, só para um acompanhamento rápido e o que ler com calma, com tempo, com cuidado? Em geral, pela premência do tempo, o que consideramos importante o salvamos, para lê-lo depois com mais atenção. E quando conseguimos retomar de verdade a leitura do que salvamos, se há tantos novos estímulos e materiais que se sobrepõem aos que estávamos mapeando?

É uma arte hoje aprender a mapear rapidamente o tipo de informações que recebemos: as que vale a pena descartar sem ler; as que valem só como curiosidade, entretenimento e que nos ajudam a descansar ou passar o tempo. Há outras informações que nos situam, leituras de referência que apontam para outros textos, outros autores, outros lugares. Há textos que confirmam o que já sabemos e outros que nos surpreendem, porque trazem dados e análises inesperados. Há informações que abrem novas perspectivas em algum campo de interesse e que podem ser extremamente relevantes a médio prazo. Há informações leves, que podemos consumir rapidamente e há outras densas, profundas, complexas, que exigem uma concentração e tempo maiores. Se não nos organizarmos bem, tentamos deixá-las para depois e podemos perder preciosas oportunidades de aprender, de evoluir, de modificar-nos.

Em geral hoje lemos muitas mais coisas, ouvimos e vemos muitas histórias diferentes. É um redemoinho informativo incessante. Mas... aprendemos muito, conhecemos de verdade, compreendemos profundamente o que lemos?
O ritmo frenético de atividades, de exigência de respostas para tudo, de quebra de atenção por chamadas, mensagens, vídeos, solicitações múltiplas dificulta sobremaneira a necessária concentração para a compreensão profunda. Conhecemos muitas coisas, só que mais superficialmente. Como tudo está ao alcance de um click parece que é fácil conhecer. É fácil mapear a informação; difícil é conhecer, compreender os seus múltiplos significados.

Abrir múltiplas janelas nos permite mapear melhor o que está acontecendo. Depois precisamos filtrar, escolher o que focar e o que descartar. O passo seguinte é entender, analisar, refletir, compreender, contextualizar, introjetar, comunicar (dizer ao outro o que compreendemos), aplicar (fazer algum uso do que aprendemos, seja um uso teórico ou prático).

É difícil, mas fundamental, equilibrar o mapear e o focar, visualizar tudo e concentrar-se em tópicos específicos. Organizar tempos de acesso a mensagens diferentes (email, facebook) e tempos de análise de assuntos específicos. Tempos de navegação digital e de navegação “presencial”, de inserção em ambientes físicos. Tempo de estar conectado e de desligar de todos os equipamentos em rede.

No meio dessa voragem informacional é importante manter algumas referências básicas, alguns textos e autores fundamentais e voltar a eles com freqüência. É importante quebrar o ritmo do caleidoscópio informativo para meditar, pensar, analisar, perceber, decantar, concluir. Sem esses tempos de quebra de ritmo, corremos o risco de sermos levados pelas sucessivas ondas, sem saber surfá-las.

Se não equilibrarmos bem o acesso às mensagens e o tempo de estar desconectado, geraremos formas crescentes de ansiedade, de dependência, de dispersão. Produziremos menos e nos angustiaremos mais.
Com freqüência me perguntam: Como conseguir que os jovens leiam, no meio de tantas distrações nas telas?

Não há uma resposta simples, mas é importante conhecer os interesses dos alunos, o que os motiva e partir do que gostam e dos ambientes que conhecem. Se freqüentam redes sociais, podem ser criadas nelas atividades iniciais de contato, de estímulo para levá-los progressivamente a leituras mais exigentes e em ambientes menos conhecidos. Podem ser utilizados vídeos, histórias em aplicativos digitais como formas de sensibilizar para universos que apontam para outros níveis de leitura mais profundos.
Ensinar a ler, a pesquisar, a compreender num mundo de informações incessantes é um desafio que todos, escola e pais, precisamos enfrentar de uma forma atenta e competente para que nossos alunos e filhos consigam aprender melhor e evoluir cada vez mais.

   Texto extraído e revisto do meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 5ª ed., Campinas: Papirus, 2011. Cap.4. Tecnologias no ensino e aprendizagem inovadores
Texto disponível em  www.eca.usp.br/prof/moran/caos.pdf

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Aprendizagem desafiadora com currículos mais flexíveis

Num mundo cada vez mais complexo e heterogêneo, a educação precisa dar passos mais acelerados e respostas mais coerentes, com novas formas de desenvolver competências cognitivas, relacionais e éticas.

Aprendizagem ativa, lúdica e diversificada

Quanto mais informação, mais importante é saber escolher, avaliar as informações importantes em cada etapa da aprendizagem, contextualizá-las, sintetizá-las e interligá-las com as atividades concretas pessoais e grupais. Não basta compreender, é fundamental também saber conviver presencial e digitalmente, saber acolher, interagir, colaborar física e online e mostrar coerência ética nas mais diferentes situações.

Com tantos jogos hipersensoriais em tantas telas e situações, a aprendizagem está mais e mais mediada por situações lúdicas, individuais e grupais, que facilitam a experimentação, a vivência sem perigo de desafios fascinantes, de simulação hiperrealista de competições. Mas o processo de aprender se potencializa se há uma reflexão mais sistemática e aprofundada após o jogo, se os alunos ultrapassam o nível sensorial e do senso comum e conseguem realizar sínteses elaboradas e captar relações muito mais ricas do que as sensoriais.

A aprendizagem avança mais por desafios, por interação com práticas significativas e reelaboradas cognitivamente. Todos os espaços são potencialmente ricos de aprendizagens significativas, os espaços próximos e os distantes, os formais e informais, os escolares, profissionais e os sociais. Infelizmente muitos se perdem no emaranhado das dispersões, do entretenimento auto-referente, do surfe inconseqüente. A tentação de querer acompanhar tudo, de abrir múltiplas janelas contribui para a superficialidade da percepção, para uma tensão em relação às perdas inevitáveis, a uma dificuldade de fazer escolhas enriquecedoras e de médio prazo.

Caminhamos aceleradamente para que a maioria das escolas e dos alunos tenha muito mais acesso e contato com as tecnologias digitais móveis, possibilitando a criação de múltiplas redes de aprendizagem entre iguais e diferentes, entre próximos e distantes, entre pessoas de áreas de conhecimento muito diversificadas. Quanto mais ampliamos nosso contato com os diferentes, mais pontos de vista incorporamos, maior leque de opções teremos e mais sinergia possível.

Se temos materiais interessantes em todos os formatos e plataformas, podemos acessá-los antes, estudá-los antes para depois interagir com o professor, o orientador, o tutor mais experiente que nos ajudem a encontrar um rumo, a descobrir significados ocultos, aplicações próximas. As informações são postadas no ambiente virtual, as dúvidas também e reservamos os momentos presenciais para debates, aprofundamentos, problematização, contextualização, previsão de cenários de aplicação. A dinâmica principal será diferente da convencional. Os alunos pesquisam, lêem antes para poder, junto com alguém mais experiente, por em comum as questões mais importantes, as dúvidas, os insights.



Currículos mais flexíveis e personalizados


Os currículos tendem a ser cada vez mais flexíveis e personalizados, com menos disciplinas obrigatórias e alguns eixos temáticos principais; sem um único modelo, imposto da mesma forma e simultaneamente para todos.

Algumas áreas terão mais relevância - como saber ler, interpretar, escrever, contar, raciocinar - e serão oferecidas alternativas diferentes e mais personalizadas de avanço nos estudos. A tendência é a de quebrar o modelo único de currículo, de tudo igual para todos, com equilíbrio entre percursos pessoais e grupais, atividades individuais e atividades colaborativas, tempos iguais e diferentes, momentos presenciais e virtuais. As artes como espaços de criação serão mais incentivadas. Cada aluno, com apoio de um professor-orientador, construirá seu percurso a partir dos espaços comuns, a interação com grupos próximos e outros diferenciados, com atividades comuns e específicas, presenciais e virtuais.


As aulas tendem a ser mais colaborativas, com turmas não muito grandes, com mais atividades digitais, orientação audiovisual, metodologias mais ativas, com alguns momentos presenciais para contextualizar, sintetizar, validar e aprofundar o percurso construído durante as atividades digitais. O modelo de um professor por disciplina para turmas de quarenta alunos será substituído por outros modelos muito mais flexíveis espaço-temporalmente. Só deverá continuar o modelo atual de um professor para uma turma nos primeiros anos de socialização, de alfabetização.

A orientação de aprendizagem será cada vez mais organizada em diferentes espaços, tempos e de formas muito mais variadas. Os alunos permanecerão uma parte do tempo na escola, mas não necessariamente na mesma sala. Farão visitas, trabalhos em grupo virtuais e presenciais, pesquisas individuais e em grupos. À medida que forem crescendo, mais horas de atividades virtuais (conectados audiovisualmente) terão. A escola será menos presencial e mais próxima de vários espaços - do bairro, da cidade - e de várias comunidades virtuais, de acordo com a idade e com os interesses específicos dos grupos e das competências desenvolvidas. Haverá também integração maior com comunidades virtuais, dentro e fora do país, em projetos comuns. Os alunos continuarão fisicamente presentes, aprendendo a conviver, fisicamente, mas também virtualmente.


Tecnologicamente podemos ter aulas ao vivo e gravadas com grandes especialistas, comunicadores e com professores-tutores que ajudam a personalizar os temas dentro da realidade local, a tirar dúvidas e realizar atividades de problematização e aprofundamento. Podemos partir dos ambientes e recursos que os alunos freqüentam e gostam, como o Facebook e o Twitter para ajudá-los a evoluir, a avançar, a enfrentar desafios mais complexos, ambientes mais problematizadores, níveis de teorização superiores.

Educar é contribuir para sair da zona de conforto, do senso comum e mergulhar em ambientes novos, em questões mais complexas, de forma progressiva, quase sem senti-lo, a partir do que estamos habituados, do que conhecemos, do que já dominamos, dos ambientes familiares rumo a etapas mais desafiadoras, estimulantes e fascinantes. Se não conseguirmos realizar esse percurso do simples para o complexo, do senso comum para o científico, do concreto para o abstrato, da imagem para o conceito, da visão parcial para uma visão mais integrada de nada adiantarão todos os recursos, o uso de tablets, redes e outras tecnologias avançadas. Educação é um processo de comunicação profunda, de intercâmbio interpessoal rico, mobilizando todos os recursos humanos e tecnológicos a disposição de todos os envolvidos no processo.


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 Este texto é uma síntese atualizada das páginas 149-150 do meu livro A educação que desejamos: Novos desafios e como chegar lá publicado pela Editora Papirus. Texto disponível em
http://www.eca.usp.br/prof/moran/curriculos.pdf

domingo, 6 de novembro de 2011

Por que a Educação a Distância avança menos do que esperado?


Algumas razões mais evidentes

A EAD está associada há décadas no Brasil ao ensino técnico, à formação rápida de trabalhadores, ao ensino supletivo, a uma segunda oportunidade, a ensino para quem mora longe (democratização de acesso). Ela tem pouco tempo de vida no ensino superior, pouco mais de uma década. É pouco conhecida, um pouco marginalizada nas estruturas universitárias presenciais e também atende a um público, em geral, de menor poder aquisitivo. 

Predomina a EAD também para os outros, para os pobres, para os distantes, para os que não fizeram a graduação no tempo devido.
Para piorar as coisas, algumas instituições desenvolveram uma EAD de qualidade duvidosa, só preocupados em conquistar mercado, cortar custos e ganhar escala. Algumas cresceram muito mais a distância do que no presencial. Isso assustou muita gente, já descrente da modalidade.

Há um preconceito muito arraigado em setores influentes da sociedade. Algumas áreas reduzem a EAD à cursos pela Internet e descartam, através de suas associações de classe, que seja uma alternativa real para os alunos.

Outra razão para a resistência de muitos a essa modalidade é que continuamente é vendida como uma alternativa mais barata, mais acessível para todos do que o presencial. Diminuem as reuniões, as pessoas viajam menos, ficam mais nos seus lugares. Cortar custos não pode ser o principal argumento educacional. É importante para os mantenedores e gestores. A pergunta importante é: podemos aprender da mesma forma ou melhor, estando menos tempo fisicamente juntos, sem a presença contínua do professor? E os educadores não temos dedicado tempo e energia para responder a estas questões.

Razões menos conhecidas

Muitos professores e alunos não se adaptam à modalidade. Sim, professores também. Muitos pensam que basta reproduzir as técnicas praticadas no presencial e já estão prontos. Demoram para adquirir a competência de gerenciar fóruns, atividades digitais, de serem proativos com alunos silenciosos. Da mesma forma, muitos alunos não estão preparados para gerenciar suas atividades em tempos flexíveis, sem supervisão direta. Muitos alunos estão acostumados a terem professores como apoio visível, a seguir ordens, a esperar tudo pronto e só executar ordens.

Muitos alunos vêm de escolas pouco exigentes, e não desenvolveram sua autonomia intelectual nem digital. Entrar em ambientes virtuais silenciosos, cheios de materiais e ferramentas, os deixa confusos. A falta de conversa com pessoas reais, ao vivo, os assusta. O ambiente digital para quem não está acostumado é confuso, distante, pouco intuitivo e agradável. Jogar alunos mal preparados diretamente em um ambiente virtual é muito radical, distante das vivências pedagógicas passadas.

Uma das principais razões de ir a universidade ou a escola é social, encontrar pessoas, fazer amigos, sentir-se parte de um grupo. Boa parte dos cursos de EAD não consegue recriar o ambiente de grupo, criar vínculos, que os alunos se conheçam e conversem entre si. Os alunos viram tarefeiros, em prazos curtos, e os orientadores também estão cheios de atividades repetitivas de acompanhamento e avaliação, com grande quantidade de alunos e precárias condições profissionais.

Muitos cursos são previsíveis, com informação simplificada, conteúdo raso e poucas atividades estimulantes e em ambientes virtuais pobres, banais. Focam mais o conteúdo do que metodologias ativas como desafios, jogos, projetos. Alguns materiais são inferiores aos que são exigidos em cursos presenciais.

Há uma percepção em parte dos gestores e mantenedores de que fazer EAD é algo simples, barato e que pode ser feito com recursos mínimos. Contratam pessoas com pouca experiência, remuneram-nos mal e os sobrecarregam de atividades e de alunos. Uma categoria pouco reconhecida é a dos tutores, que costumam atender um número grande de estudantes, com o pretexto de que têm pouco trabalho. Muitos não possuem uma formação específica em EAD e recebem uma remuneração insuficiente.

Ainda há uma separação em muitas instituições entre a modalidade presencial e a distância. As equipes são diferentes, os currículos não estão integrados, os investimentos maiores são feitos no presencial. Falta visão estratégica a muitos gestores. O caminho é o da convergência em todos os campos e áreas: prédios (EAD também dentro de unidades presenciais – pólos); integração de plataformas digitais; produção digital de conteúdo integrada (os mesmos materiais para as mesmas disciplinas do mesmo currículo).

Isso favorece a mobilidade de alunos e professores. Alunos podem migrar de uma modalidade para outra sem problemas, podem fazer algumas disciplinas comuns – alunos a distância e presenciais cursando disciplinas comuns. Professores podem participar das duas modalidades e ter maior carga docente. Isso permite maior interoperabilidade de processos, pessoas, de produtos e metodologias, com grande escalabilidade, visibilidade e redução de custos.  Os alunos poderão escolher o modelo que mais lhes convier, aprenderão mais e as instituições poderão oferecer um ensino de qualidade, moderno e dinâmico, a um custo competitivo.
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Texto revisto do meu livro Educação a Distância: pontos e contrapontos. SP: Summus Editorial, p.111-115.

domingo, 16 de outubro de 2011

Para onde caminhamos na educação

Caminhamos aceleradamente rumo a uma sociedade muito diferente que em parte vislumbramos, mas que nos reserva inúmeras surpresas. Será uma sociedade muito mais conectada, móvel, com possibilidades de comunicação, interação e de aprendizagem muito mais fascinantes ainda.
     
Todas as sociedades educam, transmitem seus valores tradicionais e uma visão de futuro. Como será feito isto concretamente daqui a vinte ou trinta anos, não o sabemos. Mas caminhamos para uma sociedade cada vez mais complexa, pluralista, democrática. Por isso será necessário aprender a construir um percurso intelectual mais difícil, cheio de inúmeras ramificações e opções; aprender a conviver com as diferenças de visões de mundo, de valores, de grupos; a fazer escolhas mais provisórias; aprender a comunicar-nos de forma mais abrangente, integrada, participativa, equilibrando o individual e o social. As decisões sociais serão mais debatidas ao vivo. Haverá muitos mais referendos diretos, sem tantos intermediários.
     
A informação estará sempre mais disponível, de muitas formas, por muitos canais. Quem quiser aprender, terá a sua disposição muitas formas de fazê-lo, sozinho, em pequenos grupos; informal ou formalmente, com tutoria ou de forma autônoma, com certificação ou sem ela. Caminhamos da pobreza digital para a conectividade 24 horas, em qualquer lugar, com múltiplos recursos, pessoais e digitais como robots. Precisaremos de instituições sérias para ajudar-nos nos cursos de maior duração, nos que certifiquem profissionalmente. Mas não precisaremos ir todo o dia a uma sala de aula para aprender. Haverá formas muito ágeis, diversificadas, flexíveis, adaptadas ao ritmo e necessidades de cada aluno para aprender e ajudar a aprender.
   
As tecnologias evoluem muito mais rapidamente do que a cultura. A cultura implica em padrões, repetição, consolidação. A cultura educacional, também. As tecnologias permitem mudanças profundas já hoje que praticamente permanecem inexploradas pela inércia da cultura tradicional, pelo medo, pelos valores consolidados. Por isso sempre haverá um distanciamento entre as possibilidades e a realidade. O ser humano avança com inúmeras contradições, muito mais devagar que os costumes, hábitos, valores. Intelectualmente também avançamos muito mais do que nas práticas. Há sempre um distanciamento grande entre o desejo e a ação. Apesar de tudo, está se construindo uma outra sociedade, que em uma ou duas décadas será muito diferente da que vivemos até agora.
   
Aos poucos a escola se tornará mais flexível, aberta, inovadora. Será mais criativa e menos cheia de imposições e obrigações. Diminuirá sensivelmente a obrigação de todos terem que aprender as mesmas coisas no mesmo espaço, ao mesmo tempo e da mesma forma.
     
Toda sociedade será uma sociedade que aprende de inúmeras formas, em tempo real, com vastíssimo material audiovisual disponível. Será uma aprendizagem mais tutorial, de apoio, ajuda. Será uma aprendizagem entre pares, entre colegas, e entre mestres e discípulos conectados, em rede, trocando informações, experiências, vivências. Aprenderemos em qualquer lugar, a qualquer hora, com tecnologias móveis poderosas, instantâneas, integradas, acessíveis. Não precisaremos ir a lugares específicos, o tempo todo. Iremos para alguns contatos iniciais e para a avaliação final. O restante do tempo, estaremos conectados audiovisual e interativamente, quando o quisermos, com quem quisermos. Haverá formas de acelerar o acesso à informação (implantes e outros recursos que a nanotecnologia nos promete). Haverá máquinas inteligentes (robots, em muitos aspectos mais inteligentes que os humanos). Por isso, é impossível antecipar a educação do futuro, mas podemos apontar alguns caminhos que nos ajudarão a mudar radicalmente o panorama atual tão conservador e massificado que ainda temos atualmente.
    
Estamos caminhando para uma aproximação sem precedentes entre os cursos presenciais (cada vez mais semi-presenciais) e os a distância ou on-line. Teremos inúmeras possibilidades de aprendizagem que combinarão o melhor do presencial (quando possível) com as facilidades do virtual.

Em poucos anos dificilmente teremos um curso totalmente presencial. Por isso caminhamos para fórmulas diferentes de organização de processos de ensino-aprendizagem. Caminhamos rapidamente para a flexibilização progressiva e acentuada de cursos, tempos, espaços, gerenciamento, interação, metodologias, tecnologias, avaliação. Isso nos obriga a experimentar pessoal e institucionalmente modelos de cursos, de aulas, de técnicas, de pesquisa, de comunicação. Todas as universidades e organizações educacionais, em todos os níveis, precisam experimentar novas soluções para cada situação, curso, grupo.
 
Com a educação on-line, com o avanço da banda larga, dos tablets, smartphones, a TV digital e toda a integração das mídias, teremos todas as possibilidades de aprender: de cursos totalmente prontos por videoaulas até os construídos ao vivo, com forte interação grupal, imersão sensorial e pouca previsibilidade. Realizaremos cursos totalmente personalizados e outros baseados em intensa colaboração. Teremos cursos totalmente digitais e outros híbridos, com momentos presenciais. Muitas pessoas aprenderão com outras e só se submeterão a algum tipo de avaliação final para fins de certificação.

Podemos pensar em cursos cada vez mais personalizados, mais adaptados à cada aluno ou grupos de alunos. Cursos com materiais audiovisuais e atividades bem planejadas e produzidas e que depois são oferecidos no ritmo de cada aluno, sob a supervisão de um professor orientador ou de uma pequena equipe, que colocam esse aluno em contato com grupos em estágios de aprendizagem semelhantes. Os professores agirão muito mais como tutores, como hoje acontece na pós-graduação. Acompanham o percurso dos alunos a eles confiados, e monitoram os projetos pedagógicos dos alunos individualmente e também em grupo; os supervisionam e gerenciam para que obtenham os melhores resultados. Os professores mapeiam a pesquisa, as atividades. Marcam algumas reuniões presenciais e outras virtuais. Trabalham de forma integrada com outros colegas nos mesmos projetos. O currículo é muito mais livre, escolhido de comum acordo entre alunos, professores e instituição. Há alguns momentos comuns presenciais e/ou virtuais (totalmente audiovisuais e interativos), mas, a maior parte do tempo, o processo é virtual e em tempos diferenciados.
    
Tudo isto exige uma pedagogia muito mais flexível, integradora e experimental diante de tantas situações novas que começamos a enfrentar.
    
Uma educação inovadora se apóia em um conjunto de propostas com alguns grandes eixos que lhe servem de guia e de base: o conhecimento integrador e inovador; o desenvolvimento da auto-estima/auto-conhecimento (valorização de todos); a formação de alunos-empreendedores (criativos, com iniciativa) e a construção de alunos-cidadãos (com valores individuais e sociais).
      
São pilares que, com o apoio de tecnologias móveis, poderão tornar o processo de ensino-aprendizagem muito mais flexível, integrado, empreendedor e inovador.

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Este texto faz parte do meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá (5ª Ed, Campinas, Papirus, 2011), p. 145-148 (com atualizações).