quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Novos modelos de sala de aula

A sala de aula tradicional é asfixiante para todos, principalmente para os mais novos. Está trazendo pressões insuportáveis para todos: Crianças e jovens insatisfeitos, professores estressados e doentes, porque há questões mais profundas que exigem novos projetos pedagógicos. Insistimos num modelo ultrapassado, centralizador, autoritário com professores mal pagos e mal preparados para ensinar um conjunto de assuntos, que os destinatários – os alunos – não valorizam. Se não mudarmos o rumo rapidamente, caminhamos para tornar a escola pouco interessante, relevante, só certificadora.

Não basta aumentar o número de horas na escola (período integral) se mantivermos uma estrutura fragmentada de ensinar cada assunto, matéria, área de conhecimento. Quando insistimos em melhorar os processos sem mudar o modelo convencional, ele não nos serve para um mundo que exige pessoas muito mais competentes em lidar com a mudança, com a complexidade, com a convivência em projetos diferentes e com pessoas de culturas e formações diferentes. A escola padronizada, que ensina e avalia a todos de forma igual e exige resultados previsíveis, ignora que a sociedade do conhecimento é baseada em competências cognitivas, pessoais e sociais, que não se adquirem da forma convencional e que exigem proatividade, colaboração, personalização e visão empreendedora.

A sala de aula se amplia, dilui, mistura com muitas outras salas e espaços físicos, digitais e virtuais, tornando possível que o mundo seja uma sala de aula, que qualquer lugar seja um lugar de ensinar e de aprender, que em qualquer tempo possamos aprender e ensinar, que todos possam ser aprendizes e mestres, simultaneamente, dependendo da situação, que cada um possa desenvolver seu ambiente pessoal de aprendizagem (PLE) compartilhando-o com outros e neste compartilhamento, enriquecendo-se mutuamente.

Este novo cenário pressiona o conceito de sala de aula tradicional. Não é necessário ir sempre a um mesmo lugar para aprender, não precisamos estar sempre com um especialista para aprender, e mesmo quando estamos num espaço convencional como a sala de aula, podemos modificar o que acontece nela: a utilização do espaço de diversas formas, a diversificação de atividades (individuais, grupais e coletivas), as analógicas e as digitais, as de profunda interação física e as de profunda interação virtual.

É impossível hoje falar das diferentes salas de aula porque o que está mudando é o mundo, o acesso e compartilhamento de informações e construção individual e coletiva do conhecimento. Se mudamos como aprendemos a sala de aula, esta nunca será mais a mesma (mesmo quando não muda de lugar).
Modelos de sala de aula dependem do modelo pedagógico escolhido: Modelos mais convencionais e mais inovadores, mais centrados no professor ou no aluno, com pouca tecnologia ou com mais tecnologia. Há novos modelos que fazem mudanças progressivas, chamadas incrementais e há modelos mais disruptivos.

Em educação – em um período de tantas mudanças e incertezas - não devemos ser xiitas e defender um único modelo, proposta, caminho. Trabalhar com modelos flexíveis com desafios, com projetos reais, com jogos e com informação contextualizada, equilibrando colaboração com a personalização é o caminho mais significativo hoje, mas pode ser planejado e desenvolvido de várias formas e em contextos diferentes. Podemos ensinar por problemas e projetos num modelo disciplinar e em modelos sem disciplinas; com modelos mais abertos - de construção mais participativa e processual - e com modelos mais roteirizados, preparados previamente, mas executados com flexibilidade e forte ênfase no acompanhamento do ritmo de cada aluno e do seu envolvimento também em atividades em grupo.

Salas de aula em modelos educacionais mais inovadores
As escolas que nos mostram novos caminhos estão mudando o modelo disciplinar por modelos mais centrados em aprender ativamente com problemas, desafios relevantes, jogos, atividades e leituras, combinando tempos individuais e tempos coletivos; projetos pessoais e projetos de grupo. Isso exige uma mudança de configuração do currículo, da participação dos professores, da organização das atividades didáticas, da organização dos espaços e tempos.

Um dos muitos modelos interessantes para pensar como organizar a “sala de aula” de forma diferente é olhar para algumas escolas inovadoras. Por exemplo os projetos das escolas Summit (Summit Schools) da California equilibram tempos de atividades individuais, com as de grupo; sob a supervisão de dois professores, de áreas diferentes (humanas e exatas) que se preocupam com projetos que permitam olhares abrangentes, integradores, sem disciplinas. Acompanham o progresso de cada aluno (toda sexta feira conversam individualmente com cada aluno). Os alunos fazem avaliações quando se sentem preparados.



O ambiente físico das salas de aula e da escola como um todo também precisa ser redesenhado dentro desta nova concepção mais ativa, mais centrada no aluno. As salas de aula podem ser mais multifuncionais, que combinem facilmente atividades de grupo, de plenário e individuais. Os ambientes precisam estar conectados em redes sem fio, para uso de tecnologias móveis, o que implica em ter uma banda larga que suporte conexões simultâneas necessárias.
As escolas como um todo precisam repensar esses espaços tão quadrados para espaços mais abertos, onde lazer e estudo estejam mais integrados. O que impressiona nas escolas com desenhos arquitetônicos e pedagógicos mais avançados é que os espaços são mais amplos, agradáveis. Há escolas mais em contato com a natureza, que tem vantagens inegáveis para projetos de ecologia de aprendizagem mais integral, mas também há projetos urbanos muito estimulantes como os do Projeto Gente da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, em que os alunos estão em grupos e os professores circulam entre eles como orientadores.

Também no Rio e Recife temos as escolas públicas do projeto NAVE - o Colégio Estadual Leite Lopes, no Rio, participa do Projeto Nave – Núcleo Avançado de Educação – que utiliza as tecnologias para capacitar alunos do ensino médio para profissões no campo digital. São espaços grandes, com pátios onde lazer e pesquisa se misturam.
Os impactos positivos do programa vêm sendo colhidos também nas avaliações realizadas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Nos resultados divulgados nas duas últimas edições do exame, o Colégio Estadual José Leite Lopes foi o 1º lugar das escolas ligadas à Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC-RJ), resultado também alcançado pela Escola Técnica Estadual Cícero Dias, 1ª colocada entre as escolas de Pernambuco vinculadas à Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco (SEEP).
Outro conjunto de escolas interessantes são as escolas públicas High Tech High que lembram laboratórios multiuso, onde os alunos vão da ideia à realização e apresentação dos seus projetos, com apoio de ferramentas físicas e digitais, entre elas as impressoras 3-D.

Mesmo escolas sem tantas tecnologias, quando têm projetos pedagógicos mais avançados, modificam o conceito de sala e de espaço. Uma escola municipal como a Amorim Lima de São Paulo, criam salas maiores para que alunos de vários anos possam participar em grupos.

Salas de aula em modelos educacionais disciplinares
Podemos fazer mudanças progressivas na direção da personalização, colaboração e autonomia ou mais intensas ou disruptivas. Só não podemos manter o modelo tradicional e achar que com poucos ajustes dará certo. Os ajustes necessários – mesmo progressivos - são profundos, porque são do foco: aluno ativo e não passivo, envolvimento profundo e não burocrático, professor orientador e não transmissor.

No modelo disciplinar, precisamos “dar menos aulas” e colocar o conteúdo fundamental na WEB, elaborar alguns roteiros de aula em que os alunos leiam antes os materiais básicos e realizem atividades mais ricas em sala de aula com a supervisão dos professores. Misturando vídeos e materiais nos ambientes virtuais com atividades de aprofundamento nos espaços físicos (salas) ampliamos o conceito de sala de aula: Invertemos a lógica tradicional de que o professor ensine antes na aula e o aluno tente aplicar depois em casa o que aprendeu em aula, para que, primeiro, o aluno caminhe sozinho (vídeos, leituras, atividades) e depois em sala de aula desenvolva os conhecimentos que ainda precisa no contato com colegas e com a orientação do professor ou professores mais experientes.

Professores na sua disciplina podem organizar com os alunos no mínimo um projeto importante na sua disciplina, que integre os principais assuntos da matéria e que utilize pesquisa, entrevistas, narrativas, jogos como parte importante do processo. É importante que os projetos estejam ligados à vida dos alunos, às suas motivações profundas, que o professor saiba gerenciar essas atividades, envolvendo-os, negociando com eles as melhores formas de realizar o projeto, valorizando cada etapa e principalmente a apresentação e a publicação em um lugar virtual visível do ambiente virtual para além do grupo e da classe.

Um dos modelos mais interessantes de ensinar hoje é o de concentrar no ambiente virtual o que é informação básica e deixar para a sala de aula as atividades mais criativas e supervisionadas.  É o que se chama de aula invertida. A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aula invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos e aprendam, também, no seu próprio ritmo. Os jogos e as aulas roteirizadas com a linguagem de jogos cada vez estão mais presentes no cotidiano escolar. Para gerações acostumadas a jogar, a de desafios, recompensas, de competição e cooperação é atraente e fácil de perceber.

Muitas escolas e professores preferem neste momento manter os modelos de aulas prontas, com roteiros definidos previamente. Dependendo da qualidade desses materiais, das atividades de pesquisa e projetos planejados e da forma de implementá-los (adaptando-os à realidade local e com intensa participação dos alunos) podem ser úteis, se não são executados mecanicamente. Um bom professor pode enriquecer materiais prontos com metodologias ativas: pesquisa, aula invertida, integração sala de aula e atividades online, projetos integradores e jogos. De qualquer forma esses modelos precisam também evoluir para incorporar propostas mais centradas no aluno, na colaboração e personalização.

Todas as escolas podem implementar o ensino híbrido, misturado, tanto as que  possuem uma infraestrutura tecnológica sofisticada como as mais carentes. Todos os professores, também. Em escolas com menos recursos, podemos desenvolver projetos significativos e relevantes para os alunos, ligados à comunidade, utilizando tecnologias simples como o celular, por exemplo, e buscando o apoio de espaços mais conectados na cidade.  Embora ter boa infraestrutura e recursos traz muitas possibilidades de integrar presencial e online, conheço muitos professores que conseguem realizar atividades estimulantes, em ambientes tecnológicos mínimos.

As escolas mais conectadas podem fazer uma integração maior entre a sala de aula, os espaços da escola e do bairro e os espaços virtuais de aprendizagem. Podem disponibilizar as informações básicas de cada assunto, atividade ou projeto num ambiente virtual (Moodle, Desire2Learn, Edmodo e outros) e fazer atividades com alguns tablets, celulares ou ultrabooks dentro e fora da sala de aula, desenvolvendo narrativas “expansivas”, que se conectam com a vida no entorno, com outros grupos, com seus interesses profundos.

Podem inverter o modelo tradicional de aula, com os alunos acessando os vídeos e materiais básicos antes, estudando-os, dando feedback para os professores (com enquetes, pequenas avaliações rápidas, corrigidas automaticamente). Com os resultados, os professores planejam quais são os pontos mais importantes para trabalhar com todos ou só com alguns; que atividades podem ser feitas em grupo, em ritmos diferentes e as que podem ser feitas individualmente.

As tecnologias permitem o registro, a visibilização do processo de aprendizagem de cada um e de todos os envolvidos. Mapeiam os progressos, apontam as dificuldades, podem prever alguns caminhos para os que têm dificuldades específicas (plataformas adaptativas).  Elas facilitam como nunca antes múltiplas formas de comunicação horizontal, em redes, em grupos, individualizada. É fácil o compartilhamento, a coautoria, a publicação, produzir e divulgar narrativas diferentes. A combinação dos ambientes mais formais com os informais (redes sociais, wikis, blogs), feita de forma inteligente e integrada, nos permite conciliar a necessária organização dos processos com a flexibilidade de poder adaptá-los à cada aluno e grupo.

Conclusão
Os processos de organizar o currículo, as metodologias, os tempos e os espaços precisam ser revistos. Isso é complexo, necessário e um pouco assustador, porque não temos modelos prévios bem sucedidos para aprender de forma flexível numa sociedade altamente conectada.
É possível manter a “sala de aula” se o projeto educativo é inovador,- currículo, gestão competente,  metodologias ativas, ambientes físicos e digitais atraentes - se  a escola tem professores muito bem preparados para saber orientar alunos e onde estes se sentem protagonistas de uma aprendizagem rica e estimulante. Sabemos que no Brasil temos inúmeras deficiências históricas, estruturais, mas os desafios são muito maiores porque insistimos em atualizar-nos dentro de modelos previsíveis, industriais, em caixinhas. Poderemos ter melhores resultados, sem dúvida, e mesmo assim não estarmos preparados para este mundo que está exigindo pessoas e profissionais capazes de enfrentar escolhas complexas, situações diferentes, capazes de empreender, criar e conviver em cenários em rápida transformação.

Todos os processos de organizar o currículo, as metodologias, os tempos, os espaços precisam ser revistos e isso é complexo, necessário e um pouco assustador, porque não temos modelos prévios bem sucedidos para aprender. Estamos sendo pressionados para mudar sem muito tempo para testar. Por isso é importante que cada escola defina um plano estratégico de como fará estas mudanças. Pode ser de forma mais pontual inicialmente, apoiando professores, gestores e alunos –  alunos também e alguns pais – que estão mais motivados e tem experiências em integrar o presencial e o virtual. Podemos aprender com os que estão mais avançados e compartilhar esses projetos, atividades, soluções. Depois precisamos pensar mais estruturalmente para mudanças em um ano ou dois. Capacitar coordenadores, professores e alunos para trabalhar mais com metodologias ativas, com currículos mais flexíveis, com inversão de processos (primeiro atividades online e depois, atividades em sala de aula). Podemos realizar mudanças incrementais, aos poucos ou, quando possível, mudanças mais profundas, disruptivas, que quebrem os modelos estabelecidos. Ainda estamos avançando muito pouco em relação ao que precisamos.
Para saber mais:

MASSETO, Marcos. Competência pedagógica do professor universitário. 2ª Ed. São Paulo: Summus, 2012 e Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica (com Behrens e Moran). 21ª ed Campinas: Papirus, 2013.
MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 5ª Ed. Campinas: Papirus, 2012
________________. Educação Humanista Inovadora. www2.eca.usp.br/moran

Silicon Schools. O ato de ensinar em um ambiente de ensino híbrido - repensando o papel do professor. Disponível em https://pt.khanacademy.org/partner-content/ssf-cci/sscc-teaching-blended-learning

domingo, 5 de outubro de 2014

Construindo novas narrativas significativas na vida e na educação

Passamos, em duas décadas, de consumidores da grande mídia para “prosumidores”  – produtores e consumidores- de múltiplas mídias, de múltiplas plataformas e formatos para acessar informações, publicar nossas histórias, sentimentos,reflexões e nossa visão de mundo. Somos o que escrevemos, o que postamos, o que “curtimos”. Neles expressamos nossa caminhada, valores, visão de mundo, nossos sonhos e limitações. 

Construímos nossas histórias pessoais, nossos projetos de vida num rico fluir de passagens e linguagens entre os diversos espaços físicos e digitais, que se entrecruzam, superpõem e integram incessantemente.

Na escola não valorizamos devidamente o saber construído pelos alunos, que se visibiliza nas narrativas fluidas de múltiplos conhecimentos, práticas, individuais e em redes. Um currículo aberto com metodologias ativas, mediação de professores competentes e tecnologias digitais, pode transformar a educação formal em aprendizagem viva, integradora, descobridora de novos sentidos para nossas histórias fragmentadas e contraditórias.

Texto disponível em: 

Texto meu que será publicado no livro “Narrativas e mídias na escola”, coordenado pelas professoras   Ana Paula Porto, Denise Almeida e Luana Teixeira Porto, do Mestrado em Letras – Literatura Comparada da URI, de Frederico Westphalen – RS (no prelo)


sábado, 16 de agosto de 2014

Mudanças necessárias na eucação, hoje

O desafio fundamental da escola, para acompanhar as mudanças do mundo, é evoluir para ser mais relevante e conseguir que todos aprendam de forma competente a conhecer, a construir seus projetos de vida e a conviver com os demais. Os processos de organizar o currículo, as metodologias, os tempos e os espaços precisam ser revistos. Isso é complexo, necessário e um pouco assustador, porque não temos modelos prévios bem sucedidos para aprender de forma flexível numa sociedade altamente conectada. 

Em educação – em um período de tantas mudanças e incertezas - não devemos ser xiitas e defender um único modelo, proposta, caminho. Trabalhar com modelos flexíveis com desafios, com projetos reais, com jogos e com informação contextualizada, equilibrando colaboração com a personalização é o caminho mais significativo hoje, mas pode ser planejado e desenvolvido de várias formas e em contextos diferentes. Podemos ensinar por problemas e projetos num modelo disciplinar e em modelos sem disciplinas; com modelos mais abertos - de construção mais participativa e processual - e com modelos mais roteirizados, preparados previamente, mas executados com flexibilidade e forte ênfase no acompanhamento do ritmo de cada aluno e do seu envolvimento também em atividades em grupo.

Os avanços tecnológicos trazem para a escola a possibilidade de integrar os valores fundamentais, a visão de cidadão e mundo que queremos construir, as metodologias mais ativas, centradas no aluno com a flexibilidade, mobilidade e ubiquidade do digital. Um dos modelos mais interessantes de ensinar hoje é o de concentrar no ambiente virtual o que é informação básica e deixar para a sala de aula as atividades mais criativas e supervisionadas.  É o que se chama de aula invertida. A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aula invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos e aprendam, também, no seu próprio ritmo. Os jogos e as aulas roteirizadas com a linguagem de jogos cada vez estão mais presentes no cotidiano escolar. Para gerações acostumadas a jogar, a de desafios, recompensas, de competição e cooperação é atraente e fácil de perceber.

As competências digitais são importantes para pesquisar, ensinar, aprender, ser conhecido, realizar atividades de múltiplas formas, compartilhar aspectos significativos da vida. As tecnologias nos libertam das tarefas mais penosas – as repetitivas – e nos permitem concentrar-nos nas atividades mais criativas, produtivas e fascinantes (sem descuidar dos muitos problemas concomitantes).

As tecnologias permitem o registro, a visibilização do processo de aprendizagem de cada um e de todos os envolvidos. Mapeia os progressos, aponta as dificuldades, pode prever alguns caminhos para os que têm dificuldades específicas (plataformas adaptativas).  Elas facilitam como nunca antes múltiplas formas de comunicação horizontal, em redes, em grupos, individualizada. É fácil o compartilhamento, a coautoria, a publicação, produzir e divulgar narrativas diferentes. A combinação dos ambientes mais formais com os informais (redes sociais, wikis, blogs), feita de forma inteligente e integrada, nos permite conciliar a necessária organização dos processos com a flexibilidade de poder adaptá-los à cada aluno e grupo.

Muitas escolas e professores preferem neste momento manter os modelos de aulas prontas, com roteiros definidos previamente. Dependendo da qualidade desses materiais, das atividades de pesquisa e projetos planejados e da forma de implementá-los (adaptando-os à realidade local e com intensa participação dos alunos) podem ser úteis, se não são executados mecanicamente. Um bom professor pode enriquecer materiais prontos com metodologias ativas: pesquisa, aula invertida, integração sala de aula e atividades online, projetos integradores e jogos. De qualquer forma esses modelos precisam também evoluir para incorporar propostas mais centradas no aluno, na colaboração e personalização.

Estamos sendo pressionados para mudar sem muito tempo para testar. Por isso é importante que cada escola defina um plano estratégico de como fará estas mudanças. Pode ser de forma mais pontual inicialmente, apoiando professores, gestores e alunos –  alunos também e alguns pais – que estão mais motivados e tem experiências em integrar o presencial e o virtual. Podemos aprender com os que estão mais avançados e compartilhar esses projetos, atividades, soluções. Depois precisamos pensar mais estruturalmente para mudanças no médio prazo. Capacitar coordenadores, professores e alunos para trabalhar mais com metodologias ativas, com currículos mais flexíveis, com inversão de processos (primeiro atividades online e depois, atividades em sala de aula). Podemos realizar mudanças incrementais, aos poucos ou, quando possível, mudanças mais profundas, disruptivas, que quebrem os modelos estabelecidos. Ainda estamos avançando muito pouco em relação ao que precisamos.

Hoje quem quer aprender, tem oportunidades fantásticas de fazê-lo em qualquer área, em qualquer língua, muitas vezes gratuitamente, independentemente de onde more. Só precisa querer, estar conectado (um problema ainda), ter método e perseverar sempre. Aprender tem um componente lúdico, prazeroso, mas também exige esforço, método, continuidade. Muitos desistem de aprender antes de ter a rica experiência de gostar, de encontrar sentido em evoluir e em realizar-se cada vez mais.  As condições objetivas de tantos brasileiros também dificultam esse avanço - miséria, desenvolvimento precário das competências básicas cognitivas, sócio-emocionais e digitais -  e os marginalizam de tantas possibilidades existentes .
É complexo melhorar a qualidade do sistema escolar, como um todo, num tempo curto. Faltam muitas condições estruturais – carreira, formação, valorização de gestores e professores. Precisamos de políticas consistentes para atrair os melhores professores e gestores; remunerá-los bem e qualificá-los melhor; de políticas inovadoras de gestão na educação, de currículos, metodologias e desenhos de escolas mais inovadores. Precisamos também de investimentos em infraestrutura melhores, espaços confortáveis, banda larga, tecnologias móveis, materiais atraentes e uma política de recursos gratuitos abertos.

Se demorarmos a fazer essas mudanças estruturais de forma séria, planejada e avaliada, ficaremos para trás no médio prazo e teremos dificuldade em preparar as novas gerações para um mundo muito diferente que já está aí. As escolas que não fizerem mudanças importantes nos seus currículos, metodologias e tecnologias digitais, também começarão pouco a pouco a perder alunos, a serem vistas como pouco relevantes.

Quanto mais avançadas tecnologias temos, aumenta a importância dos profissionais competentes, confiáveis, humanos e criativos. A educação é um processo de interação humana complexa e profunda, com diferentes formas de integração entre o presencial e o online.  Ensinamos e aprendemos mais e melhor – em qualquer modalidade - quando o fazemos num clima de confiança, de incentivo, de apoio, dentro de limites claros e negociados. Para isso precisamos de pessoas curiosas, motivadas, afetivas e éticas, que gostem de aprender e de praticar o que aprendem; suficientemente evoluídas para transmitir confiança, acolhimento e competência com sua presença, falas, gestos e ações no contato presencial e online.

Texto revisto e ampliado de Ensino e Aprendizagem Inovadores com apoio de tecnologias,
in Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica, Campinas: Papirus, 21ª Ed. 2014; p. 21-29.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Uma lenta evolução - Entrevista José Moran

A educação hoje precisa equilibrar o
contato físico e o virtual, as atividades
lúdicas com as estruturadas, as mais
exploratórias com as mais focadas

Entrevista com José Moran sobre as mudanças na educação com apoio das tecnologias, publicada no Guia de Educação a Distância 2015, ano 12, nº 12, disponível em
http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/evolucao.pdf

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cinco vídeos e questões-chave para uma aprendizagem baseada em projetos



 Tradução e adaptação de José Moran

  
Cinco vídeos interessantes, com experiências e questões para desenvolver projetos de aprendizagem com os alunos, em escolas norte-americanas de educação básica. Estão no canal Edutopia e podem ser acessados com legendas em português no YouTube (ativando-as no retângulo branco, na barra inferior).

Vídeo 1.     ESTABELECER CONEXÕES DOS PROJETOS COM O MUNDO REAL

  • Começar com uma questão motivadora, sobre um problema real e próximo,  que permita aos estudantes percorrer caminhos diferentes para explorá-la e solucioná-la.
  • Facilitar que os alunos entrem em contato com a comunidade, investiguem suas necessidades ou problemas, interajam com pessoas e profissionais diferentes, que possam contribuir com o projeto.
Vídeo 2. CONSTRUIR PROJETOS BEM ESTRUTURADOS QUE GEREM APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS

  • Partir das diretrizes curriculares e planejar que os alunos desenvolvam habilidades de pensamento crítico enquanto aprendem também conteúdos.
  • Não deixar os projetos para o fim de uma unidade, considerando-os um componente fundamental do processo de aprendizagem.
Vídeo 3.     INCENTIVAR A COLABORAÇÃO
  • Selecionar cuidadosamente os grupos para que trabalhem de forma harmônica e produtiva.
  • Ensinar os alunos como melhorar seu trabalho em equipe e orientá-los em relação às ferramentas para organizar melhor seu tempo e seu trabalho .
Vídeo 4.     FAVORECER A APRENDIZAGEM EM UM AMBIENTE CONTROLADO PELO ALUNO

  • Oferecer aos alunos opções na escolha e debates sobre o projeto.
  • Permitir que os alunos procurem respostas de forma autônoma ou que gerem novas questões.
  • Programar momentos de reflexão grupal que permitam revisar o que aprenderam até o momento e reorientar o projeto, se necessário.
  • Incentivar que os alunos registrem e avaliem a evolução da sua aprendizagem.
Vídeo 5.     INCORPORAR A AVALIAÇÃO DURANTE TODO O PROJETO

  • Criar oportunidades para que os alunos entendam em que ponto se encontram, até onde aprenderam e o que precisam aprender para realizar bem o projeto.
  • Prever momentos y aplicativos que nos permitam conhecer em que ponto se encontra cada um dos alunos e orientá-los sobre os próximos passos no trabalho (individualmente e em grupo).
  • Programar momentos e atividades para a avaliação grupal e a autoavaliação
  • Finalizar o projeto com um produto, atividade ou intervenção e apresentá-lo para um público mais amplo.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pessoas que evoluem com as dificuldades


Conheço pessoas que passaram por muitas dificuldades e saíram delas mais fortalecidas. Conheço outras que, diante das mesmas dificuldades, desanimaram, fugiram, desistiram ou se acomodaram.
Há pessoas lutadoras, proativas, que procuram avançar nas circunstâncias mais adversas, nos fracassos, perdas, traições. Enquanto outras se perdem, se frustram, não reagem, fogem. Uns lutam, outros desistem; uns tentam novos caminhos, outros procuram pretextos e culpados.

Cada pessoa tem sua história, circunstâncias, influências, valores e razões. Mas, objetivamente, são mais as que desistem que as que persistem; as que se acomodam que as que empreendem, arriscam, evoluem.

É difícil compreender e prever por que as mesmas circunstâncias provocam reações tão diferentes, por que as mesmas informações são trabalhadas de formas tão diversas, por que o que para uns é um desafio que os estimula, para outros é um obstáculo que os imobiliza.

Quanto mais avançamos em idade, mais visíveis se tornam as diferenças nas atitudes diante da vida. Algumas pessoas idosas são encantadoras, atraentes, proativas, cheias de vida e planos. Dá gosto conviver com elas. Mesmo com dificuldades físicas, não se queixam, procuram não dar trabalho, tentam ser independentes até o limite extremo. Infelizmente vemos muitas outras que passam mais tempo se queixando do que vivendo; lamentando que construindo, remoendo do que superando.

A velhice se constrói desde jovem. As atitudes profundas diante da vida, diante de si mesmo e dos outros, nos ajudam a construir percursos interessantes ou frustrantes. Não são as experiências que definem como evoluímos, mas como as enfrentamos. Muitos jovens envelhecem rapidamente por dentro, por uma visão imediatista, autocentrada de mundo. As pessoas mais generosas, abertas e confiantes conseguem encontrar melhores respostas, superar melhor os obstáculos, conviver com gente mais interessante e ter uma qualidade de vida mais plena.

É decepcionante perceber quão grande é o número de pessoas que não conseguem enxergar muito além do básico, que não desfrutam de experiências ricas de convivência, de realização e plenitude em todas as dimensões.
Há pessoas que remoem mágoas por décadas, que não esquecem nem perdoam, que cortam laços com pessoas íntimas e não reveem suas decisões. Outras não se perdoam por alguns fracassos, perdas ou abandonos.

Todos temos as informações e os meios de superar obstáculos. Mesmo nas circunstâncias mais complicadas, uns encontram forças para superar-se, para reerguer-se, para fortalecer-se, enquanto outros, tudo é difícil, complicado, intransponível. É triste constatar como se enredam em teias complicadas que os envolvem, os atormentam, os asfixiam. Com o tempo se conformam, entregam, desistem e perdem inúmeras chances de mudar.


A vida passa rápido, nos dá chances de aprender com o erro e as dificuldades. Os que aprendem com eles, conseguem avançar mais e realizar-se cada vez mais. 

Ampliação do tema Aprendemos com as dificuldades,
                                                      do meu livro Aprendendo a Viver, 6ª Ed. SP, Paulinas, 2011, p. 23-24

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Relacionamentos com vínculos superficiais ou profundos

 
Os nossos relacionamentos vão se construindo com o tempo, em camadas cada vez mais profundas, que exigem níveis de troca, de diálogo e acertos cada vez mais delicados, na construção de vínculos progressivamente mais complexos. Numa comparação simples, assemelham-se ao descascar  de uma cebola: começamos pelas folhas mais externas e visíveis, mas as consolidamos - ou não -  nas mais internas e profundas.

 No começo de um relacionamento desejamos, percebemos, valorizamos e interagimos com as camadas mais externas do outro: a sua aparência, cada pedaço do seu corpo, as ricas sensações sensoriais que recebemos e expressamos por todos os sentidos e linguagens, principalmente através do olhar, do ouvir e do tocar.

Isso nos leva a um segundo nível de interação em camadas que misturam o sensorial e o emocional: paixão, prazer, o gosto de estar juntos, inebriados com a presença, o toque, o prazer intenso de estar com quem amamos, de compartilhar cada detalhe da vida e dos projetos de curto e médio prazo.

A convivência intensa desvenda níveis crescentes de intimidade, com a necessidade de equacionar formas mais complexas de interagir, de negociar diferenças, de lidar com divergências, com valores diferentes. Geralmente começamos fazendo esforços intensos de contorcionismo diante das diferenças, evitando o confronto direto, procurando mais o que nos aproxima do que o que nos separa, insistindo mais no que nos une do que nos diferencia. Esforçamo-nos por encontrar o máximo denominador possível: cedemos no que não nos parece essencial, acomodamos as visões conflitantes de forma mais ou menos satisfatória ou tranquilizadora. Mas a tensão pode permanecer incubada, se estiver mal resolvida, e vai aparecer em momentos de confronto com tomadas de decisão conflitantes (profissionais, familiares, projetos pessoais importantes). 

Com o tempo, em alguns momentos, as diferenças aparecem mais claramente e cada um explicita o que é realmente importante, fundamental no sua vida e que não quer abrir mão. É o tempo das negociações profundas, das aproximações complexas, de tentativas de acordos possíveis, cedendo um pouco de ambos os lados, para tentar preservar a identidade pessoal e a relação a dois. É nesta etapa que se define de verdade se o relacionamento será bem sucedido – evoluindo para um entendimento mais pleno - ou tenderá a complicar-se, a radicalizar posições, a exigir mudanças no outro sem contrapartida. Os relacionamentos duradouros bem sucedidos conseguem, nesta etapa, equilibrar o que os diferencia e o que os une, estabelecendo pactos conscientes/inconscientes de entendimento que são satisfatórios, viáveis e que impõem o menor desgaste possível, apesar das diferenças existentes. Não mascaram as divergências, mas procuram integrá-las ao máximo, preservando o vínculo afetivo, a compreensão e o acolhimento, enfatizando mais as semelhanças do que as diferenças. Aprendem a valorizar mais o que os une do que o que os pode separar.

Se este nível de acordos é mais satisfatório do que insatisfatório, se os dois lados se sentem mais contemplados e aceitos do que, de alguma forma, com a sensação de estar cedendo demais a contragosto, a tendência é a de conseguir manter o relacionamento de forma mais sólida, consistente e duradoura. Esses acordos profundos relativizam e compensam alguma diminuição da empolgação sensorial -do intenso contato físico das primeiras etapas -  valorizando a importância de equilibrar o tempo juntos e os tempos pessoais, as atividades individuais e conjuntas, avançando no aprofundamento dos laços em todas as dimensões da vida.

Quando um relacionamento se constrói só nos primeiros níveis ou camadas, e se mantém pela paixão ou pela obrigação (filhos) ou por algum medo (da solidão, por exemplo), a tendência é a de não investir tanto no entendimento profundo (“o outro é que tem que mudar”), de não valorizar tanto tudo o que favorece a união e de destacar mais o que nos incomoda no outro do que o que nos realiza. É a fase das cobranças, dos desentendimentos, das acusações explícitas ou ressentidas ou da indiferença progressiva.

Muitos não sobrevivem a essa falta de intimidade e confiança profunda e se separam; outros tantos permanecem “amarrados” mutuamente, mas sentindo-se intimamente insatisfeitos, percebendo um distanciamento íntimo progressivo, embora até possam manter externamente as aparências de um casal bem sucedido (para muitos “parecer felizes” é mais importantes do que sê-lo de verdade).

A vida nos oferece a possibilidade de aprender a construir relacionamentos que valem a pena, que nos realizam além das aparências, que criam vínculos profundos. Mas, como em outros campos, essa competência precisa ser desenvolvida com cuidado, observação, atenção e avaliação. A grande vantagem de nosso tempo é que temos a possibilidade legal e real de rever decisões de conviver com outro que pareciam definitivas, mas que não se confirmam, e de começar novas experiências de relacionamento diferentes das anteriores, que possam nos realizar muito mais, se estivermos preparados.

Mas se não aprendemos com as experiências, erros e reavaliações, corremos o risco de continuar repetindo modelos prontos de comportamento, de buscar as mesmas pessoas e situações em novos relacionamentos e de repetir modelos que se revelarão insatisfatórios com o tempo. Uns aprendem com os “fracassos”, outros repetem os mesmos procedimentos com pessoas diferentes, aparentemente, e por isso reclamam de que os relacionamentos são datados, que não dão certo no longo prazo e de que é melhor estar sós do que mal acompanhados.

Uma das maiores realizações que a vida nos permite e desafia é a de poder evoluir cada vez mais como pessoas em todas as dimensões para poder construir percursos mais realizadores também na convivência com alguém em quem podemos, com o tempo, confiar de verdade e com quem a convivência diária traz muito mais realizações do que problemas. 
 
 

Texto pessoal que reelabora o tema Equilibrando aceitação e Mudança,
                         do meu livro Aprendendo a Viver, 6ª Ed. SP, Paulinas, 2011, p. 58-59

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Educação a Distância no Brasil- situação e perspectivas

MoranEntrevista sobre EAD, feita comigo e publicada no Portal a Escola de Governo do Paraná, em 3/04/2014http://www.escoladegoverno.pr.gov.br/modules/noticias/article.php?storyid=435&tit=Entrevista-Especial-Educacao-a-Distancia-no-Brasil-situacao-e-perspectivasPor Denise Guimarães / Helena Salgado

A busca por uma educação além do limite espaço-tempo, que visa transformar e evoluir o processo tradicional de aprendizagem, é uma das propostas do método de Educação a Distância (EaD). Por meio de plataformas online, que possibilitam um ensino mais interativo e autônomo, o método se destaca por seus formatos variados, sem afetar o aprendizado do aluno ou interferir na identidade e valores da Instituição responsável pelo material ofertado.

Em entrevista exclusiva à Escola de Governo do Paraná, o especialista em EaD, José Manuel Moran, referência nacional e internacional no assunto, diz acreditar que embora visto com desconfiança por grande parte da comunidade acadêmica e da sociedade, em razão de seu método virtual, esta modalidade de ensino surge no Brasil como possibilidade de superação na defasagem educacional do país, e um modo de reduzir seu déficit educacional e sua desigualdade social.


Confira na íntegra a entrevista com Moran.
Espanhol naturalizado brasileiro, é pesquisador e orientador de métodos educacionais inovadores e trabalha com projetos para que instituições evoluam sem perder sua identidade e valores. Autor de livros e artigos a respeito do método de Educação a Distância, tornou-se referência nacional e internacional sobre o tema.


EG- Como a “Educação a Distância” é vista e aceita no Brasil?
Moran- A Educação a Distância cresce a uma média de 20% ao ano, o que mostra que há uma consolidação da área. Antes eram só os mais adultos que procuravam essa modalidade ou metodologia; agora aumenta o número de jovens na EaD. Ainda assim, temos preconceito de uma parte da comunidade acadêmica e da sociedade. Os cursos de Saúde, Direito, Serviço Social, entre outros, encontram muitas barreiras para vingar (dos órgãos de classe, principalmente). Aumenta a receptividade dos cursos mais profissionalizantes. Aumenta o número de instituições públicas atuando na EaD, além das universidades. As instituições estão ampliando a oferta de capacitação, de formação continuada através da EaD. Há uma popularização maior da EaD com a oferta de muitos cursos massivos online gratuitos, os chamados MOOCs, que permitem que qualquer pessoa possa aperfeiçoar sua formação com os melhores professores das principais universidades do mundo. Isso está contribuindo para popularizar os cursos online.


EG- Por que muitas pessoas apresentam resistência ao método?
Moran- Muitas pessoas não conhecem de perto, nunca fizeram um curso a distância. Outros não se adaptam aos ambientes virtuais, nem tem familiaridade com ferramentas digitais. Há uma crença também de que sem o contato físico há uma perda profunda de comunicação. E há uma crítica à massificação de algumas instituições que crescem muito rapidamente, sem dar atenção personalizada aos estudantes (muitos alunos para cada tutor), formação deficiente de docentes e tutores mal remunerados e com materiais de baixa qualidade. Cursos com projetos pedagógicos deficientes comprometem a credibilidade da EaD e reforçam o preconceito existente.


EG- O que impede os estudantes de participarem?
Moran- EaD precisa de disciplina, perseverança e organização. Muitos não se adaptam ao ritmo mais individual, à gestão coerente do tempo, a uma certa solidão, principalmente nos cursos na WEB. Muitos professores e alunos não se adaptam à modalidade. Sim, professores também. Muitos pensam que basta reproduzir as técnicas praticadas no presencial e já estão prontos. Demoram para adquirir a competência de gerenciar fóruns, atividades digitais, de serem proativos com alunos silenciosos. Da mesma forma, muitos alunos não estão preparados para gerenciar suas atividades em tempos flexíveis, sem supervisão direta. Eles estão acostumados a terem professores como apoio visível, esperando passivamente pela informação pronta.


EG- O que motiva os estudantes de participarem?
Moran- A possibilidade de adaptação da EaD ao ritmo de cada um, de escolher os melhores tempos para aprender, de ter mais autonomia, de desenvolver as competências digitais – fundamentais para a empregabilidade e a inserção na sociedade da informação. É possível fazer cursos com bons professores e bons materiais, conciliando a vida profissional, a familiar e a acadêmica.


EG- Como conciliá-lo com a educação tradicional?
Moran- A Educação a Distância está afetando profundamente à educação presencial. Os cursos presenciais cada vez tem mais atividades online, ambientes virtuais de aprendizagem, integração de momentos presenciais e online, o chamado blended learning ou ensino semipresencial. Num mundo conectado em redes, onde aumenta a mobilidade, podemos aprender em qualquer lugar, a qualquer hora, de múltiplas formas. Aprendemos formal e informalmente, na educação mais estruturada e mais aberta, de forma colaborativa ou mais personalizada.


EG- Qual a melhor forma de se beneficiar com os cursos a distância?
Moran- É escolher instituições sérias, cursos com boa avaliação e desenvolver uma postura proativa, de pesquisador, interagindo com colegas próximos e distantes. É importante conhecer a metodologia, os procedimentos, a sequência de atividades e tempos de entrega das pesquisas, para organizar os estudos em horários definidos. O aluno precisa definir qual é o período do dia ou noite mais conveniente para estudar e realizar as leituras, pesquisas e atividades. Sem esse planejamento a vida vai atropelando o estudante, os prazos vencem e no final não consegue recuperar o tempo perdido. Aprende menos e desanima mais. É importante também ir além do mínimo exigido, participando de atividades desafiadoras, de projetos estimulantes para aprender mais, conhecer pessoas interessantes e abrir novos horizontes pessoais e profissionais


EG- Qual é a tendência, na educação brasileira, em relação a este processo de ensino-aprendizagem?
Moran- A Educação a Distância está se consolidando como uma opção importante para aprender ao longo da vida, para a formação continuada, para aceleração profissional, para conciliar estudo e trabalho. Ainda há resistências e preconceitos e ainda estamos aprendendo a gerenciar processos complexos de EaD, mas aumenta a percepção de que um país do tamanho do Brasil só pode conseguir superar sua defasagem educacional por meio do uso intensivo de tecnologias em rede, da flexibilização dos tempos e espaços de aprendizagem, da gestão integrada de modelos presenciais e digitais. A tendência é de que aumentem o número de instituições que atuam na EaD, diminuindo a concentração atual no Ensino Superior.


EG- Quais as consequências esperadas com a ampliação desse método de aprendizagem?
Moran- A ampliação da EaD trará um cenário muito mais rico de oportunidades de aprendizagem, de melhoria profissional, de mobilidade social, de inovação para as organizações. O Brasil pode diminuir seu déficit educacional e a desigualdade social.
As instituições vencedoras serão as que implantarem modelos que equilibrem economia e inovação, melhorando os processos gerenciais e acadêmicos. Há muitas possibilidades de sinergia entre o presencial blended, o semipresencial e o online. O currículo pode estar plenamente integrado, com disciplinas online no presencial e no EaD, com materiais interessantes e comuns para ambos. Em todas as disciplinas ou módulos os professores podem ser mais orientadores, utilizando formas criativas da sala de aula invertida. Mas não se preparam bons alunos com profissionais desmotivados e mal remunerados.
Todas as instituições deveriam entrar na EaD no mínimo para ampliar o seu raio de ação, atrair novos alunos e oferecer-lhes oportunidades com um único projeto, metodologias próximas e formas de oferta adequadas às necessidades de cada aluno. No mínimo precisam entrar na EaD para defender-se da competição feroz. Permanecer só no presencial aumenta as chances dos concorrentes. Há oportunidades para oferecer metodologias ativas, sinergia, bons materiais e adequação para vários tipos de alunos.


Para saber mais sobre EaD e sobre os projetos de Moran, acesse o site: www2.eca.usp.br/moran

JOSÉ MANUEL MORAN