quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Só tecnologia não basta (Entrevista)

POR PAOLA GENTILE

Nascido em Vigo, na Espanha, mas naturalizado brasileiro, o filósofo e educador José Manuel Moran foi professor de Novas Tecnologias da Universidade de São Paulo (USP) e um dos fundadores da Escola do Futuro, em 1989, hoje um departamento ligado à Pró-Reitoria de Pesquisa da universidade (PRP-USP). Desde essa época, já se sabia que era inevitável a entrada na escola do computador e demais recursos decorrentes da informatização e do mundo globalizado e que revolucionaria os processos de ensino e aprendizagem. Por isso, não somente a universidade, mas também outros centros de formação e pesquisa investiram na criação e avaliação de estratégias educacionais mediadas pelas tecnologias de informação e comunicação – as chamadas TICs.
Muito se projetou, sonhou e discutiu, porém pouca coisa mudou. Faltaram dois pontos essenciais: transformar a cultura escolar e preparar os professores para trabalhar com as novas ferramentas. Algumas escolas adquiriram equipamentos sofisticados de última geração, investiram em lousas digitais e demais equipamentos multimídia, mas poucas adaptaram a sua maneira de ensinar e de se organizar. “As normas e os ritos escolares continuam basicamente os mesmos – e sem essas mudanças não há inovação”, afirma Moran. Para ele, é um fato que a escola parou no tempo, embora haja um movimento – lento, também é fato – para buscar caminhos para essa instituição ingressar definitivamente no século XXI.


quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Texto sobre minha trajetória como pesquisador


Para quem quiser conhecer minha trajetória como pesquisador e professor, acaba de ser publicado um texto, elaborado pela Professora Maria Luiza Cardinale Baptista, da Universidade Caxias do Sul, ex-aluna de doutorado. A publicado saiu na Coleção Fortuna Crítica da Intercom – Visionários. Vol. 5 –  Osvando J. de Morais, Iury Parente Aragão, Roseméri Laurindo, Tyciane Cronemberger Viana Vaz (Orgs.). São Paulo, Intercom, 2014, pag. 93-117. O texto está aqui Educador humanista inovador
e também está está disponível em http://www.portcom.intercom.org.br/ebooks/arquivos/0f82c4eaffb111ceba3afaf88a62a8ea.pdf

sexta-feira, 7 de novembro de 2014

Autonomia e colaboração em um mundo digital

A aprendizagem acontece no movimento fluido, constante e intenso entre a comunicação grupal e a pessoal, entre a colaboração com pessoas motivadas e o diálogo de cada pessoa consigo mesma. A comunicação pessoal e a grupal são componentes interligados e inseparáveis no processo de aprender continuamente, mais profundamente num mundo cada vez mais complexo e imprevisível.

A sociedade é cada vez mais dinâmica e as interconexões também. Tudo está interligado, aprendemos continuamente uns com os outros, juntos fisicamente ou conectados, com diferentes grupos com os que nos relacionamos. A aprendizagem contínua, ao longo da vida e em múltiplos grupos e redes – físicas e digitais – é uma das características marcantes da atualidade.  As múltiplas formas de colaboração, hoje, entre pessoas próximas e conectadas, com dispositivos móveis, possibilita a aceleração da aprendizagem individual, grupal e social, pelas múltiplas articulações, interligações, desdobramentos, em todos os campos, atividades e situações em que nos envolvemos, discutimos, atuamos e compartilhamos. O compartilhamento gera aprendizagens e produtos muito mais rápida, barata e inovadora do que até agora.

É na síntese dinâmica da aprendizagem personalizada e colaborativa que desenvolvemos todo o nosso potencial como pessoas e como grupos sociais, ao enriquecer-nos mutuamente com as múltiplas interfaces do diálogo dentro de cada um, alimentando e alimentados pelos diálogos com os diversos grupos nos quais participamos, com a intensa troca de ideias, sentimentos e competências em múltiplos desafios que a vida nos oferece.

Aprendendo pela comunicação pessoal

A comunicação pessoal - o diálogo com todas as instâncias que me compõem e definem - é fundamental para poder aprender e evoluir em todos os campos. Ela se expressa na motivação. Se eu não estou motivado, não aprendo, mesmo que haja imensos estímulos ao meu lado. Se estou motivado, consigo avançar em alguns momentos sozinho e, em outros, com as diversas pessoas e grupos com os quais me relaciono presencial e virtualmente.

A comunicação aberta e o diálogo intrapessoais nos ajudam a aprender a tornar mais visíveis nossos projetos de vida, sonhos, perspectivas, escolhas, caminhos, desvios no meio de tantas incertezas. A comunicação rica conosco, num diálogo constante com o mosaico de tudo o que conseguimos sobre o nosso percurso passado, vai tornando visível como construímos um sentido para nossas diferentes histórias; como elaboramos nossa grande narrativa - que explicita as tensões entre os sonhos e as realizações- os roteiros que nos definem como  pessoas diferentes, alimentados por sonhos, mágoas, sucessos e fracassos em todos os campos pelos quais transitamos.  

A comunicação pessoal mais profunda amplia os horizontes do conhecimento, da percepção, a capacidade de avaliação do que nos ajuda e complica, do que faz sentido e do que precisamos deixar de lado, planejando as mudanças necessárias em cada momento. O diálogo pessoal constante e atento mantém os canais abertos para a intuição, para uma percepção mais ampla e acurada, para mapear melhor o que pode ajudar-nos e enriquecer-nos como pessoas, para iluminar sentidos obscuros, rever crenças inadequadas, superadas, simplistas e poder descartá-las. Aprender a relacionar melhor, a aprofundar as informações relevantes, a tecer costuras mais complexas, navegar entre as muitas ondas que atravessamos.

A comunicação dentro de cada um de nós precisa da combinação de saber navegar, surfar entre os múltiplos grupos que tem a ver com nossos desejos, expectativas, valores e também saber focar, parar, concentrar-nos, aprofundar, meditar, fazer sínteses provisórias. Num mundo tão agitado, de múltiplas linguagens, telas e efervescência,   aprender a refletir e focar é decisivo para ter maior riqueza interior, profundidade de visão e comunicação criadora.

Aprendendo pela colaboração
Através do diálogo íntimo e pessoal antecipamos expectativas, comparamos conhecimentos prévios, planejamos o que nos interessa, a colaboração com as pessoas relevantes, escolhemos alguns caminhos iniciais e projetos que parecem mais viáveis e promissores para aprender com outras pessoas - entre tantos possíveis. A partir desse planejamento pessoal, nas diversas formas de colaboração acontecem múltiplas trocas, intercâmbios e situações inesperadas, complexas, que exigem rapidez, flexibilidade de adaptação entre a o previsto e o acontecido, que ampliam a profundidade e riqueza das aprendizagens.

A interação com pessoas que querem compartilhar o que sabem com os demais amplia as possibilidades de encontrar soluções inovadoras, de viabilizar projetos mais rapidamente. Os movimentos de crowdsourcing  - modelos abertos de produção e resolução de problemas online - são a expressão mais visível da riqueza de projetos que se tornam viáveis, concretos, pela colaboração. O crowdsourcing bem planejado e executado agiliza a geração de ideias novas, reduz o tempo de investigação, com custos muito inferiores aos convencionais, porque combina diferentes expertises e competências através do compartilhamento em rede.

 Muitas pessoas partilham conhecimentos e recursos que lhes permitem criar uma vasta gama de bens e serviços que qualquer um pode usar e modificar. Os movimentos de aprendizagem com recursos abertos, de utilização de ambientes digitais compartilhados estão comprovando com múltiplas iniciativas concretas - como a Wikipedia, Cursos Massivos Online (Moocs) - que quando mais colaboramos mais aprendemos e mais soluções criamos para a sociedade. Aplicativos como o Waze mostram a importância do compartilhamento das informações online para a atualização do trânsito, o que reorienta as escolhas dos roteiros de viagem individuais e também os da cidade como um todo, modificados dinamicamente pelo compartilhamento.

A aprendizagem acontece num ambiente social cada vez mais complexo, dinâmico e imprevisível. A colaboração nos ajuda a desenvolver nossas competências, mas também pode provocar-nos muitas tensões, desencontros, ruídos e decepções. A colaboração na aprendizagem se realiza em um espaço fluido de acolhimento e de rejeição, que nos induz a repensar as estratégias traçadas previamente, dada a diversidade, riqueza e complexidade de conviver em uma sociedade multicultural em rápida transformação.

A colaboração provoca uma contínua readequação das expectativas e intencionalidades, a partir das trocas, contribuições de cada um, que nos servem de espelho para enxergar-nos e, ao mesmo tempo, nos desafiam a ampliar nossa visão, ideias, sentimentos e valores.  Por isso é fundamental conseguir realizar sínteses pessoais momentâneas, para não perder-nos na agitação de uma interação superficial, arrastados por modas e aparências ocas, por consumismos dependentes ou  por entretenimentos vazios.

A rapidez com que interagimos nos ajuda e nos complica. Nos ajuda a situar-nos, a atualizar-nos, a circular digitalmente, a visibilizar-nos; mas também pode nos manter em ondas superficiais, de um narcisismo doentio. Muitas das colaborações nas redes sociais hoje buscam manter vínculos com grupos que reforçam uma visão comum e limitada, que alimentam nossos preconceitos, que dão vazão a maniqueísmos simplistas.

Há muita colaboração com quem me confirma com “curtidas” e apoios e muito reforço mútuo para desacreditar – muitas vezes agressivamente – pontos de vista diferentes, ideologias contrárias, sem ouvir, ler, comparar e fazer uma avaliação cuidadosa. Predomina o devir, a embriaguez do teclar, a busca pelo exótico, pelos vídeos mais bizarros, por ser aprovado pelos demais em detrimento de uma aprendizagem mais rica, abrangente e profunda. Acontece frequentemente nas redes sociais, como o Facebook ou Twitter, uma colaboração tão dinâmica quanto superficial, onde se “retuitam” textos e imagens tolos, sem tempo para uma avaliação prévia, sem medir os preconceitos arraigados, as agressões diretas ou indiretas  e os danos que podem causar.

De um lado, pela colaboração aberta vamos ampliando o conhecimento e a inteligência social: - a sociedade aprende mais quanto mais as pessoas colaboram, intercambiam, trocam, reelaboram – mas, por outro lado, pela personalização cada um consegue desenvolver trilhas mais adaptadas ao seu perfil, expectativas e possibilidades reais.

A riqueza do contato com pessoas com habilidades diferentes nos permite aprender muito além de onde chegaríamos sozinhos. Mas para a sua consolidação, depois dessa interação mais social, necessitamos fazer uma avaliação mais pessoal, um processo de decantação, de reavaliação do que tudo o que no social tem a ver conosco, o que acrescenta à nossa síntese anterior. Com esse movimento entre o grupal e a reflexão pessoal conseguimos avançar mais: refletimos, comparamos, sintetizamos, escrevemos sobre, contamos o que aprendemos, publicamos nossa visão modificada e a compartilhamos com os demais. O compartilhamento favorece a retroalimentação, a devolução de perspectivas externas que acrescentam visões que sozinhos não conseguiríamos perceber, ampliando nossa síntese ou questionamento-a.


Aprendizagem colaborativa num mundo digital

A educação é um processo rico, constante e profundo de intercomunicação entre todos os participantes – alunos, professores, gestores, famílias e os diversos entornos. Mesmo com tecnologias digitais, continua sendo importante a comunicação afetiva e de intensa comunicação entre pessoas incompletas, mas motivadas para evoluir, para completar-se, para apoiar-se, para superar-se, para libertar-se.  A comunicação entre professores e alunos nos coloca frente a frente com narrativas diferentes, com muitas histórias de vida, com várias metáforas de visualizar e representar o mundo. Essas histórias pessoais compartilhadas nos ajudam a iluminar nossa trajetória, dificuldades e sonhos. O clima de acolhimento, de confiança, incentivo e colaboração são decisivos para uma aprendizagem significativa e transformadora.

O professor é um comunicador, curador de conteúdos, um mediador entre pessoas diferentes que ajuda a que todos consigam desenvolver as competências e conhecimentos esperados, no ritmo e da forma mais adequada para cada um. A comunicação hoje é bidirecional e multidirecional: O professor fala com todos, todos falam com ele e entre si e cada aluno pode falar com o outro. É uma comunicação múltipla, diversificada, flexível, muito rica e cheia de surpresas, porque cada interação modifica a resposta seguinte, cada contribuição. A novidade da comunicação é que cada vez é mais misturada, blended, parte em um mesmo espaço físico e parte em ambiente virtual. Há comunicações que se fazem frente a frente fisicamente e outras frente a frente virtualmente; umas em tempo real (físico ou virtual) e outras em tempos diferenciados (offline).

A Web e as tecnologias móveis nos permitem poder estar juntos em qualquer lugar, a qualquer hora para aprender de múltiplas formas. O papel do professor é mais amplo do que antes, é o de ajudar o aluno a encontrar sentido entre tantas informações, a avaliar as mais relevantes e a estabelecer vínculos para uma comunicação rica entre todos. O professor é também um orientador de grupos que interagem vivamente a partir de atividades, de desafios em grupos e orientador de alunos que aprendem individualmente, em ritmos diferentes.

O mundo digital é muito rico em informações, materiais, atividades disponíveis para acesso de qualquer lugar. Isso é muito positivo e atraente, principalmente para os que moram longe das grandes cidades, mas traz uma facilidade de dispersão para todos, crianças e adultos. É muito difícil concentrar-se, focar-se num tema específico por muito tempo. O acesso contínuo a redes sociais traz informações interessantes, mas tende a desviar-nos do objetivo inicial de um trabalho ou projeto, se não estivermos muito atentos. Nunca tivemos tantas possibilidades de informação e comunicação. Basta observar como muitas pessoas com um celular na mão trocam mensagens com terceiros, mesmo em espaços de convivência social. A educação hoje precisa equilibrar o contato físico e o virtual, as atividades lúdicas com as mais estruturadas, as atividades mais exploratórias com as mais focadas, concentradas, a colaboração e a individualização.

O que a tecnologia traz hoje é integração de todos os espaços e tempos. O ensinar e aprender acontece numa interligação simbiótica, profunda, constante entre o que chamamos mundo físico e mundo digital. Não são dois mundos ou espaços, mas um espaço estendido, uma sala de aula ampliada, que se mescla, hibridiza constantemente. Por isso a educação formal é cada vez mais blended, misturada, híbrida, porque não acontece só no espaço físico da sala de aula, mas nos múltiplos espaços do cotidiano, que incluem os digitais. O professor precisa seguir comunicando-se face a face com os alunos, mas também digitalmente, com as tecnologias móveis, equilibrando a interação com todos e com cada um.

O digital facilita e amplia os grupos e comunidades de práticas, de saberes, de coautores. O aluno pode ser também produtor de informação, coautor com seus colegas e professores, reelaborando materiais em grupo, contando histórias (story telling), debatendo ideias num fórum, divulgando seus resultados num ambiente de webconferência, num blog ou página web.

Essa mescla, entre sala de aula e ambientes virtuais é fundamental para abrir a escola para o mundo e para trazer o mundo para dentro da escola. Uma outra mescla, ou blended é a de prever processos de comunicação mais planejados, organizados e formais com outros mais abertos, como os que acontecem nas redes sociais, onde há uma linguagem mais familiar, uma espontaneidade maior, uma fluência de imagens, ideias e vídeos constante.

As tecnologias WEB 2.0, gratuitas, facilitam a aprendizagem colaborativa, entre colegas, próximos e distantes. Cada vez adquire mais importância a comunicação entre pares, entre iguais, dos alunos entre si, trocando informações, participando de atividades em conjunto, resolvendo desafios, realizando projetos, avaliando-se mutuamente. Fora da escola acontece o mesmo, a comunicação entre grupos, nas redes sociais, que compartilham interesses, vivências, pesquisas, aprendizagens. Cada vez mais a educação se horizontaliza e se expressa em múltiplas interações grupais e personalizadas.

A comunicação através da colaboração se complementa com a comunicação um a um, com a personalização, através do diálogo do professor com cada aluno e seu projeto, com a orientação e acompanhamento do seu ritmo. Podemos oferecer sequências didáticas mais personalizadas, monitorando-as, avaliando-as em tempo real, com o apoio de plataformas adaptativas, o que não era possível na educação mais massiva ou convencional. Com isso o professor conversa, orienta seus alunos de uma forma mais direta, no momento que precisam e da forma mais conveniente. 

Conclusão

Na educação formal uns projetos pedagógicos dão mais ênfase à aprendizagem colaborativa, enquanto outros à aprendizagem individualizada. Ambos são importantes e precisam ser integrados para dar conta da complexidade de aprender na nossa sociedade cada vez mais dinâmica e incerta. 

Um bom projeto pedagógico prevê o equilíbrio entre tempos de aprendizagem pessoal e tempos de aprendizagem colaborativa. Aprendemos com os demais e aprendemos sozinhos. Focar mais um ou outro lado dificulta a visão do todo, da riqueza de possibilidades. Sozinhos vamos até um certo ponto; juntos, também. Essa interconexão entre a aprendizagem pessoal e a colaborativa, num movimento contínuo e ritmado, nos ajuda a avançar muito além do que o faríamos sozinhos ou só em grupo. Os projetos pedagógicos inovadores conciliam, na organização curricular, espaços, tempos e projetos que equilibram a comunicação pessoal e a colaborativa, presencial e online.

Num mundo de tantas informações, oportunidades e caminhos, a qualidade da docência se manifesta na combinação do trabalho em grupo com a personalização, no incentivo à colaboração entre todos e, ao mesmo tempo, à que cada um possa personalizar seu percurso. O professor se torna cada vez mais um gestor e orientador de caminhos coletivos e individuais, previsíveis e imprevisíveis, em uma construção mais aberta, criativa e empreendedora.
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Para saber mais
Textos sobre comunicação e educação do Prof. Moran encontram-se no livro Desafios na Comunicação Pessoal. São Paulo: Paulinas, 3ª Ed, 2008, no livro A Educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, 5ª Ed, Papirus, 2012 e em textos complementares na página pessoal da USP: www2.eca.usp.br/moran, principalmente no tópico Desafios pessoais: http://www2.eca.usp.br/moran/?page_id=12
Textos de Marcos Silva e outros autores sobre Interatividade na sala de aula. http://www.saladeaulainterativa.pro.br/textos.htm

ROGERS, Carl. Tornar-se pessoa. Lisboa: Moraes Editores, 1984.

Texto Moran - Publicado na Revista Educatrix, n.7, 2014. Editora Moderna, p. 52-37

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Novos modelos de sala de aula

A sala de aula tradicional é asfixiante para todos, principalmente para os mais novos. Está trazendo pressões insuportáveis para todos: Crianças e jovens insatisfeitos, professores estressados e doentes, porque há questões mais profundas que exigem novos projetos pedagógicos. Insistimos num modelo ultrapassado, centralizador, autoritário com professores mal pagos e mal preparados para ensinar um conjunto de assuntos, que os destinatários – os alunos – não valorizam. Se não mudarmos o rumo rapidamente, caminhamos para tornar a escola pouco interessante, relevante, só certificadora.

Não basta aumentar o número de horas na escola (período integral) se mantivermos uma estrutura fragmentada de ensinar cada assunto, matéria, área de conhecimento. Quando insistimos em melhorar os processos sem mudar o modelo convencional, ele não nos serve para um mundo que exige pessoas muito mais competentes em lidar com a mudança, com a complexidade, com a convivência em projetos diferentes e com pessoas de culturas e formações diferentes. A escola padronizada, que ensina e avalia a todos de forma igual e exige resultados previsíveis, ignora que a sociedade do conhecimento é baseada em competências cognitivas, pessoais e sociais, que não se adquirem da forma convencional e que exigem proatividade, colaboração, personalização e visão empreendedora.

A sala de aula se amplia, dilui, mistura com muitas outras salas e espaços físicos, digitais e virtuais, tornando possível que o mundo seja uma sala de aula, que qualquer lugar seja um lugar de ensinar e de aprender, que em qualquer tempo possamos aprender e ensinar, que todos possam ser aprendizes e mestres, simultaneamente, dependendo da situação, que cada um possa desenvolver seu ambiente pessoal de aprendizagem (PLE) compartilhando-o com outros e neste compartilhamento, enriquecendo-se mutuamente.

Este novo cenário pressiona o conceito de sala de aula tradicional. Não é necessário ir sempre a um mesmo lugar para aprender, não precisamos estar sempre com um especialista para aprender, e mesmo quando estamos num espaço convencional como a sala de aula, podemos modificar o que acontece nela: a utilização do espaço de diversas formas, a diversificação de atividades (individuais, grupais e coletivas), as analógicas e as digitais, as de profunda interação física e as de profunda interação virtual.

É impossível hoje falar das diferentes salas de aula porque o que está mudando é o mundo, o acesso e compartilhamento de informações e construção individual e coletiva do conhecimento. Se mudamos como aprendemos a sala de aula, esta nunca será mais a mesma (mesmo quando não muda de lugar).
Modelos de sala de aula dependem do modelo pedagógico escolhido: Modelos mais convencionais e mais inovadores, mais centrados no professor ou no aluno, com pouca tecnologia ou com mais tecnologia. Há novos modelos que fazem mudanças progressivas, chamadas incrementais e há modelos mais disruptivos.

Em educação – em um período de tantas mudanças e incertezas - não devemos ser xiitas e defender um único modelo, proposta, caminho. Trabalhar com modelos flexíveis com desafios, com projetos reais, com jogos e com informação contextualizada, equilibrando colaboração com a personalização é o caminho mais significativo hoje, mas pode ser planejado e desenvolvido de várias formas e em contextos diferentes. Podemos ensinar por problemas e projetos num modelo disciplinar e em modelos sem disciplinas; com modelos mais abertos - de construção mais participativa e processual - e com modelos mais roteirizados, preparados previamente, mas executados com flexibilidade e forte ênfase no acompanhamento do ritmo de cada aluno e do seu envolvimento também em atividades em grupo.

Salas de aula em modelos educacionais mais inovadores
As escolas que nos mostram novos caminhos estão mudando o modelo disciplinar por modelos mais centrados em aprender ativamente com problemas, desafios relevantes, jogos, atividades e leituras, combinando tempos individuais e tempos coletivos; projetos pessoais e projetos de grupo. Isso exige uma mudança de configuração do currículo, da participação dos professores, da organização das atividades didáticas, da organização dos espaços e tempos.

Um dos muitos modelos interessantes para pensar como organizar a “sala de aula” de forma diferente é olhar para algumas escolas inovadoras. Por exemplo os projetos das escolas Summit (Summit Schools) da California equilibram tempos de atividades individuais, com as de grupo; sob a supervisão de dois professores, de áreas diferentes (humanas e exatas) que se preocupam com projetos que permitam olhares abrangentes, integradores, sem disciplinas. Acompanham o progresso de cada aluno (toda sexta feira conversam individualmente com cada aluno). Os alunos fazem avaliações quando se sentem preparados.



O ambiente físico das salas de aula e da escola como um todo também precisa ser redesenhado dentro desta nova concepção mais ativa, mais centrada no aluno. As salas de aula podem ser mais multifuncionais, que combinem facilmente atividades de grupo, de plenário e individuais. Os ambientes precisam estar conectados em redes sem fio, para uso de tecnologias móveis, o que implica em ter uma banda larga que suporte conexões simultâneas necessárias.
As escolas como um todo precisam repensar esses espaços tão quadrados para espaços mais abertos, onde lazer e estudo estejam mais integrados. O que impressiona nas escolas com desenhos arquitetônicos e pedagógicos mais avançados é que os espaços são mais amplos, agradáveis. Há escolas mais em contato com a natureza, que tem vantagens inegáveis para projetos de ecologia de aprendizagem mais integral, mas também há projetos urbanos muito estimulantes como os do Projeto Gente da Secretaria Municipal do Rio de Janeiro, em que os alunos estão em grupos e os professores circulam entre eles como orientadores.

Também no Rio e Recife temos as escolas públicas do projeto NAVE - o Colégio Estadual Leite Lopes, no Rio, participa do Projeto Nave – Núcleo Avançado de Educação – que utiliza as tecnologias para capacitar alunos do ensino médio para profissões no campo digital. São espaços grandes, com pátios onde lazer e pesquisa se misturam.
Os impactos positivos do programa vêm sendo colhidos também nas avaliações realizadas pelo Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Nos resultados divulgados nas duas últimas edições do exame, o Colégio Estadual José Leite Lopes foi o 1º lugar das escolas ligadas à Secretaria de Estado de Educação (SEEDUC-RJ), resultado também alcançado pela Escola Técnica Estadual Cícero Dias, 1ª colocada entre as escolas de Pernambuco vinculadas à Secretaria Estadual de Educação de Pernambuco (SEEP).
Outro conjunto de escolas interessantes são as escolas públicas High Tech High que lembram laboratórios multiuso, onde os alunos vão da ideia à realização e apresentação dos seus projetos, com apoio de ferramentas físicas e digitais, entre elas as impressoras 3-D.

Mesmo escolas sem tantas tecnologias, quando têm projetos pedagógicos mais avançados, modificam o conceito de sala e de espaço. Uma escola municipal como a Amorim Lima de São Paulo, criam salas maiores para que alunos de vários anos possam participar em grupos.

Salas de aula em modelos educacionais disciplinares
Podemos fazer mudanças progressivas na direção da personalização, colaboração e autonomia ou mais intensas ou disruptivas. Só não podemos manter o modelo tradicional e achar que com poucos ajustes dará certo. Os ajustes necessários – mesmo progressivos - são profundos, porque são do foco: aluno ativo e não passivo, envolvimento profundo e não burocrático, professor orientador e não transmissor.

No modelo disciplinar, precisamos “dar menos aulas” e colocar o conteúdo fundamental na WEB, elaborar alguns roteiros de aula em que os alunos leiam antes os materiais básicos e realizem atividades mais ricas em sala de aula com a supervisão dos professores. Misturando vídeos e materiais nos ambientes virtuais com atividades de aprofundamento nos espaços físicos (salas) ampliamos o conceito de sala de aula: Invertemos a lógica tradicional de que o professor ensine antes na aula e o aluno tente aplicar depois em casa o que aprendeu em aula, para que, primeiro, o aluno caminhe sozinho (vídeos, leituras, atividades) e depois em sala de aula desenvolva os conhecimentos que ainda precisa no contato com colegas e com a orientação do professor ou professores mais experientes.

Professores na sua disciplina podem organizar com os alunos no mínimo um projeto importante na sua disciplina, que integre os principais assuntos da matéria e que utilize pesquisa, entrevistas, narrativas, jogos como parte importante do processo. É importante que os projetos estejam ligados à vida dos alunos, às suas motivações profundas, que o professor saiba gerenciar essas atividades, envolvendo-os, negociando com eles as melhores formas de realizar o projeto, valorizando cada etapa e principalmente a apresentação e a publicação em um lugar virtual visível do ambiente virtual para além do grupo e da classe.

Um dos modelos mais interessantes de ensinar hoje é o de concentrar no ambiente virtual o que é informação básica e deixar para a sala de aula as atividades mais criativas e supervisionadas.  É o que se chama de aula invertida. A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aula invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos e aprendam, também, no seu próprio ritmo. Os jogos e as aulas roteirizadas com a linguagem de jogos cada vez estão mais presentes no cotidiano escolar. Para gerações acostumadas a jogar, a de desafios, recompensas, de competição e cooperação é atraente e fácil de perceber.

Muitas escolas e professores preferem neste momento manter os modelos de aulas prontas, com roteiros definidos previamente. Dependendo da qualidade desses materiais, das atividades de pesquisa e projetos planejados e da forma de implementá-los (adaptando-os à realidade local e com intensa participação dos alunos) podem ser úteis, se não são executados mecanicamente. Um bom professor pode enriquecer materiais prontos com metodologias ativas: pesquisa, aula invertida, integração sala de aula e atividades online, projetos integradores e jogos. De qualquer forma esses modelos precisam também evoluir para incorporar propostas mais centradas no aluno, na colaboração e personalização.

Todas as escolas podem implementar o ensino híbrido, misturado, tanto as que  possuem uma infraestrutura tecnológica sofisticada como as mais carentes. Todos os professores, também. Em escolas com menos recursos, podemos desenvolver projetos significativos e relevantes para os alunos, ligados à comunidade, utilizando tecnologias simples como o celular, por exemplo, e buscando o apoio de espaços mais conectados na cidade.  Embora ter boa infraestrutura e recursos traz muitas possibilidades de integrar presencial e online, conheço muitos professores que conseguem realizar atividades estimulantes, em ambientes tecnológicos mínimos.

As escolas mais conectadas podem fazer uma integração maior entre a sala de aula, os espaços da escola e do bairro e os espaços virtuais de aprendizagem. Podem disponibilizar as informações básicas de cada assunto, atividade ou projeto num ambiente virtual (Moodle, Desire2Learn, Edmodo e outros) e fazer atividades com alguns tablets, celulares ou ultrabooks dentro e fora da sala de aula, desenvolvendo narrativas “expansivas”, que se conectam com a vida no entorno, com outros grupos, com seus interesses profundos.

Podem inverter o modelo tradicional de aula, com os alunos acessando os vídeos e materiais básicos antes, estudando-os, dando feedback para os professores (com enquetes, pequenas avaliações rápidas, corrigidas automaticamente). Com os resultados, os professores planejam quais são os pontos mais importantes para trabalhar com todos ou só com alguns; que atividades podem ser feitas em grupo, em ritmos diferentes e as que podem ser feitas individualmente.

As tecnologias permitem o registro, a visibilização do processo de aprendizagem de cada um e de todos os envolvidos. Mapeiam os progressos, apontam as dificuldades, podem prever alguns caminhos para os que têm dificuldades específicas (plataformas adaptativas).  Elas facilitam como nunca antes múltiplas formas de comunicação horizontal, em redes, em grupos, individualizada. É fácil o compartilhamento, a coautoria, a publicação, produzir e divulgar narrativas diferentes. A combinação dos ambientes mais formais com os informais (redes sociais, wikis, blogs), feita de forma inteligente e integrada, nos permite conciliar a necessária organização dos processos com a flexibilidade de poder adaptá-los à cada aluno e grupo.

Conclusão
Os processos de organizar o currículo, as metodologias, os tempos e os espaços precisam ser revistos. Isso é complexo, necessário e um pouco assustador, porque não temos modelos prévios bem sucedidos para aprender de forma flexível numa sociedade altamente conectada.
É possível manter a “sala de aula” se o projeto educativo é inovador,- currículo, gestão competente,  metodologias ativas, ambientes físicos e digitais atraentes - se  a escola tem professores muito bem preparados para saber orientar alunos e onde estes se sentem protagonistas de uma aprendizagem rica e estimulante. Sabemos que no Brasil temos inúmeras deficiências históricas, estruturais, mas os desafios são muito maiores porque insistimos em atualizar-nos dentro de modelos previsíveis, industriais, em caixinhas. Poderemos ter melhores resultados, sem dúvida, e mesmo assim não estarmos preparados para este mundo que está exigindo pessoas e profissionais capazes de enfrentar escolhas complexas, situações diferentes, capazes de empreender, criar e conviver em cenários em rápida transformação.

Todos os processos de organizar o currículo, as metodologias, os tempos, os espaços precisam ser revistos e isso é complexo, necessário e um pouco assustador, porque não temos modelos prévios bem sucedidos para aprender. Estamos sendo pressionados para mudar sem muito tempo para testar. Por isso é importante que cada escola defina um plano estratégico de como fará estas mudanças. Pode ser de forma mais pontual inicialmente, apoiando professores, gestores e alunos –  alunos também e alguns pais – que estão mais motivados e tem experiências em integrar o presencial e o virtual. Podemos aprender com os que estão mais avançados e compartilhar esses projetos, atividades, soluções. Depois precisamos pensar mais estruturalmente para mudanças em um ano ou dois. Capacitar coordenadores, professores e alunos para trabalhar mais com metodologias ativas, com currículos mais flexíveis, com inversão de processos (primeiro atividades online e depois, atividades em sala de aula). Podemos realizar mudanças incrementais, aos poucos ou, quando possível, mudanças mais profundas, disruptivas, que quebrem os modelos estabelecidos. Ainda estamos avançando muito pouco em relação ao que precisamos.
Para saber mais:

MASSETO, Marcos. Competência pedagógica do professor universitário. 2ª Ed. São Paulo: Summus, 2012 e Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica (com Behrens e Moran). 21ª ed Campinas: Papirus, 2013.
MORAN, José Manuel. A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 5ª Ed. Campinas: Papirus, 2012
________________. Educação Humanista Inovadora. www2.eca.usp.br/moran

Silicon Schools. O ato de ensinar em um ambiente de ensino híbrido - repensando o papel do professor. Disponível em https://pt.khanacademy.org/partner-content/ssf-cci/sscc-teaching-blended-learning

domingo, 5 de outubro de 2014

Construindo novas narrativas significativas na vida e na educação

Passamos, em duas décadas, de consumidores da grande mídia para “prosumidores”  – produtores e consumidores- de múltiplas mídias, de múltiplas plataformas e formatos para acessar informações, publicar nossas histórias, sentimentos,reflexões e nossa visão de mundo. Somos o que escrevemos, o que postamos, o que “curtimos”. Neles expressamos nossa caminhada, valores, visão de mundo, nossos sonhos e limitações. 

Construímos nossas histórias pessoais, nossos projetos de vida num rico fluir de passagens e linguagens entre os diversos espaços físicos e digitais, que se entrecruzam, superpõem e integram incessantemente.

Na escola não valorizamos devidamente o saber construído pelos alunos, que se visibiliza nas narrativas fluidas de múltiplos conhecimentos, práticas, individuais e em redes. Um currículo aberto com metodologias ativas, mediação de professores competentes e tecnologias digitais, pode transformar a educação formal em aprendizagem viva, integradora, descobridora de novos sentidos para nossas histórias fragmentadas e contraditórias.

Texto disponível em: 

Texto meu que será publicado no livro “Narrativas e mídias na escola”, coordenado pelas professoras   Ana Paula Porto, Denise Almeida e Luana Teixeira Porto, do Mestrado em Letras – Literatura Comparada da URI, de Frederico Westphalen – RS (no prelo)


sábado, 16 de agosto de 2014

Mudanças necessárias na eucação, hoje

O desafio fundamental da escola, para acompanhar as mudanças do mundo, é evoluir para ser mais relevante e conseguir que todos aprendam de forma competente a conhecer, a construir seus projetos de vida e a conviver com os demais. Os processos de organizar o currículo, as metodologias, os tempos e os espaços precisam ser revistos. Isso é complexo, necessário e um pouco assustador, porque não temos modelos prévios bem sucedidos para aprender de forma flexível numa sociedade altamente conectada. 

Em educação – em um período de tantas mudanças e incertezas - não devemos ser xiitas e defender um único modelo, proposta, caminho. Trabalhar com modelos flexíveis com desafios, com projetos reais, com jogos e com informação contextualizada, equilibrando colaboração com a personalização é o caminho mais significativo hoje, mas pode ser planejado e desenvolvido de várias formas e em contextos diferentes. Podemos ensinar por problemas e projetos num modelo disciplinar e em modelos sem disciplinas; com modelos mais abertos - de construção mais participativa e processual - e com modelos mais roteirizados, preparados previamente, mas executados com flexibilidade e forte ênfase no acompanhamento do ritmo de cada aluno e do seu envolvimento também em atividades em grupo.

Os avanços tecnológicos trazem para a escola a possibilidade de integrar os valores fundamentais, a visão de cidadão e mundo que queremos construir, as metodologias mais ativas, centradas no aluno com a flexibilidade, mobilidade e ubiquidade do digital. Um dos modelos mais interessantes de ensinar hoje é o de concentrar no ambiente virtual o que é informação básica e deixar para a sala de aula as atividades mais criativas e supervisionadas.  É o que se chama de aula invertida. A combinação de aprendizagem por desafios, problemas reais, jogos, com a aula invertida é muito importante para que os alunos aprendam fazendo, aprendam juntos e aprendam, também, no seu próprio ritmo. Os jogos e as aulas roteirizadas com a linguagem de jogos cada vez estão mais presentes no cotidiano escolar. Para gerações acostumadas a jogar, a de desafios, recompensas, de competição e cooperação é atraente e fácil de perceber.

As competências digitais são importantes para pesquisar, ensinar, aprender, ser conhecido, realizar atividades de múltiplas formas, compartilhar aspectos significativos da vida. As tecnologias nos libertam das tarefas mais penosas – as repetitivas – e nos permitem concentrar-nos nas atividades mais criativas, produtivas e fascinantes (sem descuidar dos muitos problemas concomitantes).

As tecnologias permitem o registro, a visibilização do processo de aprendizagem de cada um e de todos os envolvidos. Mapeia os progressos, aponta as dificuldades, pode prever alguns caminhos para os que têm dificuldades específicas (plataformas adaptativas).  Elas facilitam como nunca antes múltiplas formas de comunicação horizontal, em redes, em grupos, individualizada. É fácil o compartilhamento, a coautoria, a publicação, produzir e divulgar narrativas diferentes. A combinação dos ambientes mais formais com os informais (redes sociais, wikis, blogs), feita de forma inteligente e integrada, nos permite conciliar a necessária organização dos processos com a flexibilidade de poder adaptá-los à cada aluno e grupo.

Muitas escolas e professores preferem neste momento manter os modelos de aulas prontas, com roteiros definidos previamente. Dependendo da qualidade desses materiais, das atividades de pesquisa e projetos planejados e da forma de implementá-los (adaptando-os à realidade local e com intensa participação dos alunos) podem ser úteis, se não são executados mecanicamente. Um bom professor pode enriquecer materiais prontos com metodologias ativas: pesquisa, aula invertida, integração sala de aula e atividades online, projetos integradores e jogos. De qualquer forma esses modelos precisam também evoluir para incorporar propostas mais centradas no aluno, na colaboração e personalização.

Estamos sendo pressionados para mudar sem muito tempo para testar. Por isso é importante que cada escola defina um plano estratégico de como fará estas mudanças. Pode ser de forma mais pontual inicialmente, apoiando professores, gestores e alunos –  alunos também e alguns pais – que estão mais motivados e tem experiências em integrar o presencial e o virtual. Podemos aprender com os que estão mais avançados e compartilhar esses projetos, atividades, soluções. Depois precisamos pensar mais estruturalmente para mudanças no médio prazo. Capacitar coordenadores, professores e alunos para trabalhar mais com metodologias ativas, com currículos mais flexíveis, com inversão de processos (primeiro atividades online e depois, atividades em sala de aula). Podemos realizar mudanças incrementais, aos poucos ou, quando possível, mudanças mais profundas, disruptivas, que quebrem os modelos estabelecidos. Ainda estamos avançando muito pouco em relação ao que precisamos.

Hoje quem quer aprender, tem oportunidades fantásticas de fazê-lo em qualquer área, em qualquer língua, muitas vezes gratuitamente, independentemente de onde more. Só precisa querer, estar conectado (um problema ainda), ter método e perseverar sempre. Aprender tem um componente lúdico, prazeroso, mas também exige esforço, método, continuidade. Muitos desistem de aprender antes de ter a rica experiência de gostar, de encontrar sentido em evoluir e em realizar-se cada vez mais.  As condições objetivas de tantos brasileiros também dificultam esse avanço - miséria, desenvolvimento precário das competências básicas cognitivas, sócio-emocionais e digitais -  e os marginalizam de tantas possibilidades existentes .
É complexo melhorar a qualidade do sistema escolar, como um todo, num tempo curto. Faltam muitas condições estruturais – carreira, formação, valorização de gestores e professores. Precisamos de políticas consistentes para atrair os melhores professores e gestores; remunerá-los bem e qualificá-los melhor; de políticas inovadoras de gestão na educação, de currículos, metodologias e desenhos de escolas mais inovadores. Precisamos também de investimentos em infraestrutura melhores, espaços confortáveis, banda larga, tecnologias móveis, materiais atraentes e uma política de recursos gratuitos abertos.

Se demorarmos a fazer essas mudanças estruturais de forma séria, planejada e avaliada, ficaremos para trás no médio prazo e teremos dificuldade em preparar as novas gerações para um mundo muito diferente que já está aí. As escolas que não fizerem mudanças importantes nos seus currículos, metodologias e tecnologias digitais, também começarão pouco a pouco a perder alunos, a serem vistas como pouco relevantes.

Quanto mais avançadas tecnologias temos, aumenta a importância dos profissionais competentes, confiáveis, humanos e criativos. A educação é um processo de interação humana complexa e profunda, com diferentes formas de integração entre o presencial e o online.  Ensinamos e aprendemos mais e melhor – em qualquer modalidade - quando o fazemos num clima de confiança, de incentivo, de apoio, dentro de limites claros e negociados. Para isso precisamos de pessoas curiosas, motivadas, afetivas e éticas, que gostem de aprender e de praticar o que aprendem; suficientemente evoluídas para transmitir confiança, acolhimento e competência com sua presença, falas, gestos e ações no contato presencial e online.

Texto revisto e ampliado de Ensino e Aprendizagem Inovadores com apoio de tecnologias,
in Novas Tecnologias e Mediação Pedagógica, Campinas: Papirus, 21ª Ed. 2014; p. 21-29.


terça-feira, 12 de agosto de 2014

Uma lenta evolução - Entrevista José Moran

A educação hoje precisa equilibrar o
contato físico e o virtual, as atividades
lúdicas com as estruturadas, as mais
exploratórias com as mais focadas

Entrevista com José Moran sobre as mudanças na educação com apoio das tecnologias, publicada no Guia de Educação a Distância 2015, ano 12, nº 12, disponível em
http://www2.eca.usp.br/moran/wp-content/uploads/2013/12/evolucao.pdf

segunda-feira, 11 de agosto de 2014

Cinco vídeos e questões-chave para uma aprendizagem baseada em projetos



 Tradução e adaptação de José Moran

  
Cinco vídeos interessantes, com experiências e questões para desenvolver projetos de aprendizagem com os alunos, em escolas norte-americanas de educação básica. Estão no canal Edutopia e podem ser acessados com legendas em português no YouTube (ativando-as no retângulo branco, na barra inferior).

Vídeo 1.     ESTABELECER CONEXÕES DOS PROJETOS COM O MUNDO REAL

  • Começar com uma questão motivadora, sobre um problema real e próximo,  que permita aos estudantes percorrer caminhos diferentes para explorá-la e solucioná-la.
  • Facilitar que os alunos entrem em contato com a comunidade, investiguem suas necessidades ou problemas, interajam com pessoas e profissionais diferentes, que possam contribuir com o projeto.
Vídeo 2. CONSTRUIR PROJETOS BEM ESTRUTURADOS QUE GEREM APRENDIZAGENS SIGNIFICATIVAS

  • Partir das diretrizes curriculares e planejar que os alunos desenvolvam habilidades de pensamento crítico enquanto aprendem também conteúdos.
  • Não deixar os projetos para o fim de uma unidade, considerando-os um componente fundamental do processo de aprendizagem.
Vídeo 3.     INCENTIVAR A COLABORAÇÃO
  • Selecionar cuidadosamente os grupos para que trabalhem de forma harmônica e produtiva.
  • Ensinar os alunos como melhorar seu trabalho em equipe e orientá-los em relação às ferramentas para organizar melhor seu tempo e seu trabalho .
Vídeo 4.     FAVORECER A APRENDIZAGEM EM UM AMBIENTE CONTROLADO PELO ALUNO

  • Oferecer aos alunos opções na escolha e debates sobre o projeto.
  • Permitir que os alunos procurem respostas de forma autônoma ou que gerem novas questões.
  • Programar momentos de reflexão grupal que permitam revisar o que aprenderam até o momento e reorientar o projeto, se necessário.
  • Incentivar que os alunos registrem e avaliem a evolução da sua aprendizagem.
Vídeo 5.     INCORPORAR A AVALIAÇÃO DURANTE TODO O PROJETO

  • Criar oportunidades para que os alunos entendam em que ponto se encontram, até onde aprenderam e o que precisam aprender para realizar bem o projeto.
  • Prever momentos y aplicativos que nos permitam conhecer em que ponto se encontra cada um dos alunos e orientá-los sobre os próximos passos no trabalho (individualmente e em grupo).
  • Programar momentos e atividades para a avaliação grupal e a autoavaliação
  • Finalizar o projeto com um produto, atividade ou intervenção e apresentá-lo para um público mais amplo.


quarta-feira, 21 de maio de 2014

Pessoas que evoluem com as dificuldades


Conheço pessoas que passaram por muitas dificuldades e saíram delas mais fortalecidas. Conheço outras que, diante das mesmas dificuldades, desanimaram, fugiram, desistiram ou se acomodaram.
Há pessoas lutadoras, proativas, que procuram avançar nas circunstâncias mais adversas, nos fracassos, perdas, traições. Enquanto outras se perdem, se frustram, não reagem, fogem. Uns lutam, outros desistem; uns tentam novos caminhos, outros procuram pretextos e culpados.

Cada pessoa tem sua história, circunstâncias, influências, valores e razões. Mas, objetivamente, são mais as que desistem que as que persistem; as que se acomodam que as que empreendem, arriscam, evoluem.

É difícil compreender e prever por que as mesmas circunstâncias provocam reações tão diferentes, por que as mesmas informações são trabalhadas de formas tão diversas, por que o que para uns é um desafio que os estimula, para outros é um obstáculo que os imobiliza.

Quanto mais avançamos em idade, mais visíveis se tornam as diferenças nas atitudes diante da vida. Algumas pessoas idosas são encantadoras, atraentes, proativas, cheias de vida e planos. Dá gosto conviver com elas. Mesmo com dificuldades físicas, não se queixam, procuram não dar trabalho, tentam ser independentes até o limite extremo. Infelizmente vemos muitas outras que passam mais tempo se queixando do que vivendo; lamentando que construindo, remoendo do que superando.

A velhice se constrói desde jovem. As atitudes profundas diante da vida, diante de si mesmo e dos outros, nos ajudam a construir percursos interessantes ou frustrantes. Não são as experiências que definem como evoluímos, mas como as enfrentamos. Muitos jovens envelhecem rapidamente por dentro, por uma visão imediatista, autocentrada de mundo. As pessoas mais generosas, abertas e confiantes conseguem encontrar melhores respostas, superar melhor os obstáculos, conviver com gente mais interessante e ter uma qualidade de vida mais plena.

É decepcionante perceber quão grande é o número de pessoas que não conseguem enxergar muito além do básico, que não desfrutam de experiências ricas de convivência, de realização e plenitude em todas as dimensões.
Há pessoas que remoem mágoas por décadas, que não esquecem nem perdoam, que cortam laços com pessoas íntimas e não reveem suas decisões. Outras não se perdoam por alguns fracassos, perdas ou abandonos.

Todos temos as informações e os meios de superar obstáculos. Mesmo nas circunstâncias mais complicadas, uns encontram forças para superar-se, para reerguer-se, para fortalecer-se, enquanto outros, tudo é difícil, complicado, intransponível. É triste constatar como se enredam em teias complicadas que os envolvem, os atormentam, os asfixiam. Com o tempo se conformam, entregam, desistem e perdem inúmeras chances de mudar.


A vida passa rápido, nos dá chances de aprender com o erro e as dificuldades. Os que aprendem com eles, conseguem avançar mais e realizar-se cada vez mais. 

Ampliação do tema Aprendemos com as dificuldades,
                                                      do meu livro Aprendendo a Viver, 6ª Ed. SP, Paulinas, 2011, p. 23-24

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Relacionamentos com vínculos superficiais ou profundos

 
Os nossos relacionamentos vão se construindo com o tempo, em camadas cada vez mais profundas, que exigem níveis de troca, de diálogo e acertos cada vez mais delicados, na construção de vínculos progressivamente mais complexos. Numa comparação simples, assemelham-se ao descascar  de uma cebola: começamos pelas folhas mais externas e visíveis, mas as consolidamos - ou não -  nas mais internas e profundas.

 No começo de um relacionamento desejamos, percebemos, valorizamos e interagimos com as camadas mais externas do outro: a sua aparência, cada pedaço do seu corpo, as ricas sensações sensoriais que recebemos e expressamos por todos os sentidos e linguagens, principalmente através do olhar, do ouvir e do tocar.

Isso nos leva a um segundo nível de interação em camadas que misturam o sensorial e o emocional: paixão, prazer, o gosto de estar juntos, inebriados com a presença, o toque, o prazer intenso de estar com quem amamos, de compartilhar cada detalhe da vida e dos projetos de curto e médio prazo.

A convivência intensa desvenda níveis crescentes de intimidade, com a necessidade de equacionar formas mais complexas de interagir, de negociar diferenças, de lidar com divergências, com valores diferentes. Geralmente começamos fazendo esforços intensos de contorcionismo diante das diferenças, evitando o confronto direto, procurando mais o que nos aproxima do que o que nos separa, insistindo mais no que nos une do que nos diferencia. Esforçamo-nos por encontrar o máximo denominador possível: cedemos no que não nos parece essencial, acomodamos as visões conflitantes de forma mais ou menos satisfatória ou tranquilizadora. Mas a tensão pode permanecer incubada, se estiver mal resolvida, e vai aparecer em momentos de confronto com tomadas de decisão conflitantes (profissionais, familiares, projetos pessoais importantes). 

Com o tempo, em alguns momentos, as diferenças aparecem mais claramente e cada um explicita o que é realmente importante, fundamental no sua vida e que não quer abrir mão. É o tempo das negociações profundas, das aproximações complexas, de tentativas de acordos possíveis, cedendo um pouco de ambos os lados, para tentar preservar a identidade pessoal e a relação a dois. É nesta etapa que se define de verdade se o relacionamento será bem sucedido – evoluindo para um entendimento mais pleno - ou tenderá a complicar-se, a radicalizar posições, a exigir mudanças no outro sem contrapartida. Os relacionamentos duradouros bem sucedidos conseguem, nesta etapa, equilibrar o que os diferencia e o que os une, estabelecendo pactos conscientes/inconscientes de entendimento que são satisfatórios, viáveis e que impõem o menor desgaste possível, apesar das diferenças existentes. Não mascaram as divergências, mas procuram integrá-las ao máximo, preservando o vínculo afetivo, a compreensão e o acolhimento, enfatizando mais as semelhanças do que as diferenças. Aprendem a valorizar mais o que os une do que o que os pode separar.

Se este nível de acordos é mais satisfatório do que insatisfatório, se os dois lados se sentem mais contemplados e aceitos do que, de alguma forma, com a sensação de estar cedendo demais a contragosto, a tendência é a de conseguir manter o relacionamento de forma mais sólida, consistente e duradoura. Esses acordos profundos relativizam e compensam alguma diminuição da empolgação sensorial -do intenso contato físico das primeiras etapas -  valorizando a importância de equilibrar o tempo juntos e os tempos pessoais, as atividades individuais e conjuntas, avançando no aprofundamento dos laços em todas as dimensões da vida.

Quando um relacionamento se constrói só nos primeiros níveis ou camadas, e se mantém pela paixão ou pela obrigação (filhos) ou por algum medo (da solidão, por exemplo), a tendência é a de não investir tanto no entendimento profundo (“o outro é que tem que mudar”), de não valorizar tanto tudo o que favorece a união e de destacar mais o que nos incomoda no outro do que o que nos realiza. É a fase das cobranças, dos desentendimentos, das acusações explícitas ou ressentidas ou da indiferença progressiva.

Muitos não sobrevivem a essa falta de intimidade e confiança profunda e se separam; outros tantos permanecem “amarrados” mutuamente, mas sentindo-se intimamente insatisfeitos, percebendo um distanciamento íntimo progressivo, embora até possam manter externamente as aparências de um casal bem sucedido (para muitos “parecer felizes” é mais importantes do que sê-lo de verdade).

A vida nos oferece a possibilidade de aprender a construir relacionamentos que valem a pena, que nos realizam além das aparências, que criam vínculos profundos. Mas, como em outros campos, essa competência precisa ser desenvolvida com cuidado, observação, atenção e avaliação. A grande vantagem de nosso tempo é que temos a possibilidade legal e real de rever decisões de conviver com outro que pareciam definitivas, mas que não se confirmam, e de começar novas experiências de relacionamento diferentes das anteriores, que possam nos realizar muito mais, se estivermos preparados.

Mas se não aprendemos com as experiências, erros e reavaliações, corremos o risco de continuar repetindo modelos prontos de comportamento, de buscar as mesmas pessoas e situações em novos relacionamentos e de repetir modelos que se revelarão insatisfatórios com o tempo. Uns aprendem com os “fracassos”, outros repetem os mesmos procedimentos com pessoas diferentes, aparentemente, e por isso reclamam de que os relacionamentos são datados, que não dão certo no longo prazo e de que é melhor estar sós do que mal acompanhados.

Uma das maiores realizações que a vida nos permite e desafia é a de poder evoluir cada vez mais como pessoas em todas as dimensões para poder construir percursos mais realizadores também na convivência com alguém em quem podemos, com o tempo, confiar de verdade e com quem a convivência diária traz muito mais realizações do que problemas. 
 
 

Texto pessoal que reelabora o tema Equilibrando aceitação e Mudança,
                         do meu livro Aprendendo a Viver, 6ª Ed. SP, Paulinas, 2011, p. 58-59