segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Aprendendo a evoluir sempre mais

Vejo a vida como um contínuo e fascinante processo de crescimento em todas as dimensões: sensoriais, emocionais, intelectuais, morais.

Quanto mais vivemos, podemos avançar no desenvolvimento de maior autonomia e liberdade em todos os campos; podemos ser mais humanos, acolhedores, compreensivos com as muitas situações que se nos apresentam.

De que vale aprendermos muitas coisas se não contribuem para que sejamos pessoas mais livres, abertas, realizadas?

Num mundo com tantas oportunidades sedutoras que podem tornar-nos dependentes é uma arte conseguir caminhar na direção de estágios superiores de libertação, de desenvolvimento de níveis mais complexos de percepção e de conseguir fazer escolhas mais interessantes em todos os campos.

É possível sermos pessoas com destaque em algumas áreas e pouco evoluídas em outras. Podemos ter uma compreensão muito rica da realidade e ao mesmo tempo baixa auto-estima ou pobreza emocional.

Apesar das inúmeras dificuldades e armadilhas que nos rodeiam, podemos escolher aprender a evoluir sempre mais, a sermos mais humanos, afetivos, compreensivos e realizados. Sempre podemos aprender a perceber de forma mais ampla, querer progredir mais, tornar-nos pessoas mais interessantes, abertas e integradas.

Por isso é importante perguntar-me: O que estou fazendo com a minha vida, nesta agitação incessante, onde é difícil achar tempo para tudo o que sonho?

Em que fase me encontro de crescimento, de autonomia e de realização? Estou avançando ou regredindo?


Há muitas formas de viver, com opções muito diferentes e contraditórias. Algumas nos oferecem recompensas imediatas mais palpáveis, financeiras, profissionais, de reconhecimento social. Outras trazem um outro tipo de sucesso, talvez menos deslumbrante, mas mais constante, abrangente, realizador no médio e longo prazos. Dependem de um investimento constante em manter uma visão mais ampla, integradora, na busca de um maior equilíbrio, coerência e humanização em todos os campos. É um processo contínuo, contraditório e, às vezes, sem resultados imediatos espetaculares.

Se nos mantivermos atentos e perseverantes, constataremos, no médio prazo, mudanças profundas na forma mais rica de ver o mundo, de saber enfrentar dificuldades em todos os setores, de conviver melhor com pessoas mais significativas e de fazer escolhas pessoais e profissionais muito mais desafiadoras e realizadoras. Teremos a convicção cada vez mais firme de que nossa vida – frágil, fugaz, imponderável - está valendo a pena e que nos traz muito mais realizações do que dificuldades.





sábado, 10 de dezembro de 2011

A aprendizagem que vale a pena

A educação é um processo gradual de aprender a discernir o que pode ajudar-nos a construir uma vida que valha a pena, entre tantas opções possíveis, que nos instrumentalize para ser mais livres, mais autônomos, mais realizados.

A educação nos ajuda a aprender a selecionar, avaliar e contextualizar o que é mais significativo, importante entre tantas informações que nos inundam sem parar, entre tantos sentimentos que despertam, entre tantos valores contraditórios. Aprender a desaprender, a deixar de lado o que já não nos serve mais, o passado que nos oprime, tolhe,a gerenciar melhor nossas escolhas pessoais, afetivas, profissionais cada vez mais coerentes, autênticas, desafiadoras e realizadoras.

A educação é um processo complexo, tenso, contraditório e permanente de tornar nossa vida mais rica, impactante e equilibrada entre conhecer, sentir, comunicar-nos e agir, ampliando nossa percepção de múltiplas camadas da realidade, nossa capacidade de acolher e amar, de enfrentar situações mais complexas, mais desafios e projetos.

O maior desafio que temos é aprender a transformar-nos em pessoas cada vez mais humanas, sensíveis, afetivas e realizadas, andando na contramão de muitas visões materialistas, egoístas, deslumbradas com as aparências. De pouco adianta saber muito, se não praticamos o que conhecemos.

A educação tem também uma dimensão claramente social, de aprender com a experiência dos outros, de inter-aprendizagens, de saber conviver melhor com as múltiplas diferenças de idades, ideologias, culturas, valores. Mas na educação é importante também a dimensão pessoal, de apoio ao desabrochamento das potencialidades de cada um, de oferecer condições para que cada pessoa tenha meios para progredir, para realizar-se, para viver uma vida digna a partir de alguns valores sociais.

A educação é válida quando consegue que mais pessoas se sintam motivadas intimamente a desejar ampliar seu conhecimento, sua sensibilidade, seus canais de comunicação, suas atitudes, práticas e valores em cada etapa das suas vidas.

Aprendemos pouco, quando só focamos uma das dimensões, como a profissional, quando só pensamos em ganhar dinheiro, ter muitos bens, ter mais poder. Aprendemos pouco quando nos acomodamos na rotina, na previsibilidade, em esquemas prontos e não acreditamos que possamos evoluir mais. Aprendemos pouco quando nos mostramos de um jeito diferente ao que percebemos, sentimos e acreditamos. Aprendemos pouco quando desistimos de perseverar no processo de crescer mais, de compreender melhor, de aceitar-nos plenamente, de tentar as mudanças possíveis em cada momento. Aprendemos pouco quando nos preocupamos excessivamente pelo que os demais pensam, pelo julgamento social, pelas aparências, por manter uma imagem que nos faz representar papéis, que nos desfigura em relação ao que somos e a como nos vemos.

A educação é eficaz quando nos ajuda a enfrentar as crises, as etapas de incerteza, de decepção, de fracasso em qualquer área e nos ajuda a encontrar forças para avançar e achar novos caminhos de realização.

A educação é eficaz a longo prazo, quando ao olhar para trás, conseguimos perceber que avançamos, que evoluímos passo a passo, no meio de contradições, desvios e incertezas e que nos mantivemos coerentes com nossos valores fundamentais pessoais, familiares, profissionais e sociais.

A educação é mais eficaz quando conseguimos fazer a ponte entre nossas expectativas e contradições, construindo uma identidade coerente, que integre o pessoal, o profissional e o social.



Fases diferentes de aprendizagem

Quanto mais avançamos em idade, mostramos de forma mais clara o que aprendemos de verdade, quem somos, o que é sólido e o que é superficial, o que permanece no meio das muitas etapas pelas que passamos, o que é autêntico e o que representação. Revelamos cada vez mais se somos pessoas evoluídas, medíocres ou complicadas.

Na infância, agimos principalmente em função de referências externas, das pessoas que mais convivem conosco – pais, familiares, docentes, amigos. Na juventude enfrentamos o deslumbramento das muitas descobertas em todos os campos, testamos nossos limites, buscamos definir nossa identidade, abrimos um leque amplo de vivências sensoriais, emocionais, intelectuais, existenciais, profissionais. Ainda é muito difícil comprovar o que é real, válido, testado, coerente, definitivo.

Na primeira fase da idade adulta realizamos escolhas mais personalizadas, permanentes, que nos definem em todos os campos – o intelectual, o emocional, o profissional. Já mostramos mais claramente nossa identidade, nossa personalidade, nossas idéias, emoções e valores. Mas ainda há uma margem de incerteza, de imprevisibilidade na permanência e acerto das escolhas. Muitas decisões podem ser justificadas por necessidades prementes como as econômicas, familiares, conjunturais, como não posso mudar de trabalho porque tenho muitas contas a pagar, ou não posso me separar porque os filhos são pequenos.

Na segunda fase da maturidade, aí sim percebemos o que aprendemos, o que construímos, o que nos identifica, o que é permanente e o que é transitório, o que tem valor e o que é superficial; a imagem que comunicamos e a que os demais percebem. É uma etapa de consolidação, mas também pode ser de mudança, de revisão de valores e atitudes. Podemos romper com modelos, situações que nos oprimem e buscar novos desafios, sermos pessoas mais livres e realizadas, mesmo num contexto de um progressivo declínio físico.

Enquanto uns avançam ao longo do tempo na qualidade da sua aprendizagem, dos desafios, outros parece que estacionam, que fazem só manutenção ou até regridem. “Vão vivendo”, contentando-se com as expectativas mínimas, com receitas repetidas, com o arroz e feijão básicos, sem buscar degustar tantos outros manjares possíveis.

Cada etapa da vida tem seu fascínio, seus motivos para gostar de aprender mais. Esse é um dos encantamentos da vida: poder evoluir, crescer, ser pessoas mais plenas, mesmo com muitas contradições, dificuldades e perplexidades. Vale a pena sempre manter a atitude positiva, ativa, curiosa, atenta de querer aprender sempre mais, de fazer a ponte entre o exterior e o interior, entre o social e o pessoal, entre o intelectual, o emocional e o comportamental.

Podemos transformar a nossa vida em permanente, paciente, afetuoso e emocionante processo de aprendizagem. Em todos os momentos, em todos os espaços, em todas as situações podemos aprender muito ou pouco, dependendo da atitude profunda com que as enfrentamos, da motiivação profunda que nos norteia.
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Do meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá, Papirus, cap. 3, p. 73-74, texto revisto e ampliado.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Aprender a ler e compreender no ritmo alucinante das informações online


Num mundo tão complexo, é necessário aprender a ler de muitas formas, de perspectivas diferentes, para poder entender o que se passa sob a superfície movediça dos múltiplos e incessantes acontecimentos, mensagens, telas, mídias.

Hoje aprendemos juntos, conectados, através de redes sociais. O intercâmbio é fascinante. Esse fluir contínuo da informação do Twitter ou Facebook é inebriante, porque nos coloca em contato instantâneo com múltiplos mundos, perspectivas, assuntos, pessoas. O perigo está na empolgação da fascinação do ritmo alucinante das mensagens e da falta de concentração e tempo para aprofundar as que são mais significativas. Boa parte do fluir informativo é redundante e banal; não vale a pena dedicar-lhe tanto tempo. Há muito narcisismo, deslumbramento, exibicionismo nas redes sociais, junto com contribuições relevantes, que são pérolas pontuais no meio de um deserto de areia movediça.

Quanta mais informação, mais difícil e complexo se torna o ato de ler e mais necessário se faz aprender a ler de muitas formas, integrando múltiplas linguagens e mídias, de forma muito mais rica e profunda.

Mais quantidade de informação, de telas, de acesso não significa normalmente mais qualidade, mais compreensão, mais aprendizagem. A pressa nos faz, com freqüência, aceitar os primeiros resultados de um site de buscas como os melhores, não os avaliando com cuidado, endossando pontos de vista discutíveis sem questioná-los.

Cada vez mais nos deixamos inundar por múltiplas solicitações informativas, muitas tão sedutoras quanto irrelevantes, que se sobrepõem a temas sérios que precisamos observar com mais cuidado e que correm o risco de fugirem, no meio de múltiplas distrações dos vários ambientes e telas que se sobrepõem continuamente no nosso dia a dia.
 
É fascinante encontrar sentido no aparente caos, captar a dinâmica dos movimentos, o que é permanente por trás da mutação. Esse é um dos desafios de hoje: conseguir acompanhar as múltiplas interfaces da informação e mergulhar nas suas entrelinhas, nas profundezas dos significados ocultos e escorregadios.

Ler depende, além do domínio técnico, de ter uma atitude curiosa e proativa diante da vida, do mundo, das pessoas. A curiosidade nos motiva a ler, a conhecer, a pesquisar. Ler é um prazer quando queremos saber mais, investigar mais, descobrir ângulos diferentes, indo além do óbvio.

Quanto mais informação disponível, mais complexo se torna o ato de ler. Primeiro, porque precisamos escolher o tempo todo, eliminando a maior parte do que se apresenta à nossa frente. Sempre estaremos acometidos pela dúvida da validade das escolhas feitas: Por que não ler outros textos, outras páginas? Quantas informações relevantes estamos excluindo quando teclamos novos clicks?

Após essa triagem constante, continua a dúvida: o que ler rapidamente, só para um acompanhamento rápido e o que ler com calma, com tempo, com cuidado? Em geral, pela premência do tempo, o que consideramos importante o salvamos, para lê-lo depois com mais atenção. E quando conseguimos retomar de verdade a leitura do que salvamos, se há tantos novos estímulos e materiais que se sobrepõem aos que estávamos mapeando?

É uma arte hoje aprender a mapear rapidamente o tipo de informações que recebemos: as que vale a pena descartar sem ler; as que valem só como curiosidade, entretenimento e que nos ajudam a descansar ou passar o tempo. Há outras informações que nos situam, leituras de referência que apontam para outros textos, outros autores, outros lugares. Há textos que confirmam o que já sabemos e outros que nos surpreendem, porque trazem dados e análises inesperados. Há informações que abrem novas perspectivas em algum campo de interesse e que podem ser extremamente relevantes a médio prazo. Há informações leves, que podemos consumir rapidamente e há outras densas, profundas, complexas, que exigem uma concentração e tempo maiores. Se não nos organizarmos bem, tentamos deixá-las para depois e podemos perder preciosas oportunidades de aprender, de evoluir, de modificar-nos.

Em geral hoje lemos muitas mais coisas, ouvimos e vemos muitas histórias diferentes. É um redemoinho informativo incessante. Mas... aprendemos muito, conhecemos de verdade, compreendemos profundamente o que lemos?
O ritmo frenético de atividades, de exigência de respostas para tudo, de quebra de atenção por chamadas, mensagens, vídeos, solicitações múltiplas dificulta sobremaneira a necessária concentração para a compreensão profunda. Conhecemos muitas coisas, só que mais superficialmente. Como tudo está ao alcance de um click parece que é fácil conhecer. É fácil mapear a informação; difícil é conhecer, compreender os seus múltiplos significados.

Abrir múltiplas janelas nos permite mapear melhor o que está acontecendo. Depois precisamos filtrar, escolher o que focar e o que descartar. O passo seguinte é entender, analisar, refletir, compreender, contextualizar, introjetar, comunicar (dizer ao outro o que compreendemos), aplicar (fazer algum uso do que aprendemos, seja um uso teórico ou prático).

É difícil, mas fundamental, equilibrar o mapear e o focar, visualizar tudo e concentrar-se em tópicos específicos. Organizar tempos de acesso a mensagens diferentes (email, facebook) e tempos de análise de assuntos específicos. Tempos de navegação digital e de navegação “presencial”, de inserção em ambientes físicos. Tempo de estar conectado e de desligar de todos os equipamentos em rede.

No meio dessa voragem informacional é importante manter algumas referências básicas, alguns textos e autores fundamentais e voltar a eles com freqüência. É importante quebrar o ritmo do caleidoscópio informativo para meditar, pensar, analisar, perceber, decantar, concluir. Sem esses tempos de quebra de ritmo, corremos o risco de sermos levados pelas sucessivas ondas, sem saber surfá-las.

Se não equilibrarmos bem o acesso às mensagens e o tempo de estar desconectado, geraremos formas crescentes de ansiedade, de dependência, de dispersão. Produziremos menos e nos angustiaremos mais.
Com freqüência me perguntam: Como conseguir que os jovens leiam, no meio de tantas distrações nas telas?

Não há uma resposta simples, mas é importante conhecer os interesses dos alunos, o que os motiva e partir do que gostam e dos ambientes que conhecem. Se freqüentam redes sociais, podem ser criadas nelas atividades iniciais de contato, de estímulo para levá-los progressivamente a leituras mais exigentes e em ambientes menos conhecidos. Podem ser utilizados vídeos, histórias em aplicativos digitais como formas de sensibilizar para universos que apontam para outros níveis de leitura mais profundos.
Ensinar a ler, a pesquisar, a compreender num mundo de informações incessantes é um desafio que todos, escola e pais, precisamos enfrentar de uma forma atenta e competente para que nossos alunos e filhos consigam aprender melhor e evoluir cada vez mais.

   Texto extraído e revisto do meu livro A educação que desejamos: novos desafios e como chegar lá. 5ª ed., Campinas: Papirus, 2011. Cap.4. Tecnologias no ensino e aprendizagem inovadores
Texto disponível em  www.eca.usp.br/prof/moran/caos.pdf